A atmosfera da Terra atingiu em agosto um novo recorde de vapor de água, num sinal que os cientistas associam ao aquecimento global e que pode aumentar o risco de episódios de calor extremo e de precipitação intensa em várias regiões do planeta. Os dados do Serviço Copernicus para as Alterações Climáticas (C3S) mostram que a quantidade de vapor de água presente na atmosfera ultrapassou o anterior máximo registado em julho de 2024.
O valor médio global de vapor de água na atmosfera atingiu 27,35 quilogramas por metro quadrado em agosto, mais 0,04 quilogramas por metro quadrado do que o anterior recorde. Esta medida corresponde à quantidade de vapor de água existente numa coluna de ar situada sobre cada metro quadrado da superfície terrestre, desde o solo até às camadas superiores da atmosfera.
Apesar de a diferença face ao recorde anterior parecer pequena, a escala global faz com que represente uma quantidade extraordinária de água. O cientista Jason Evans, da Climate Change Research Centre da Universidade de Nova Gales do Sul, calculou que os 0,04 quilogramas adicionais por metro quadrado equivalem a cerca de 20 biliões de litros de água, o equivalente a aproximadamente 41 baías de Sydney.
O recorde surge num contexto de temperaturas globais excecionalmente elevadas. Agosto foi, segundo o conjunto de dados ERA5, o mês mais quente de sempre a par de outro mês, numa série que recua a 1940. Já os dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), cuja série começa em 1850, classificaram agosto como o mês mais quente registado.
Julien Nicolas, cientista sénior do C3S, explicou ao The Guardian que o novo recorde de vapor de água é “consistente com a temperatura global recorde em agosto”. Segundo o investigador, o ar mais quente consegue reter mais vapor de água, estimando-se que possa conter cerca de 7% mais vapor por cada grau Celsius de aquecimento global.
Os dados utilizados pelo C3S fazem parte do conjunto ERA5 e resultam da combinação de medições de humidade obtidas através de satélites, balões meteorológicos e outras fontes com um modelo meteorológico. As estimativas de vapor de água abrangem o período desde 1979.
Os oceanos tropicais desempenham um papel particularmente importante neste processo, uma vez que constituem uma das principais fontes de vapor de água para a atmosfera. Nicolas explicou que as temperaturas excecionalmente elevadas da superfície do mar observadas nestas regiões em agosto aumentaram a evaporação e terão contribuído de forma importante para o valor recorde registado.
O fenómeno está também relacionado com o El Niño, que atualmente afeta o Pacífico tropical. Segundo Nicolas, o aquecimento excecional das águas oceânicas observado durante agosto esteve parcialmente associado à presença e ao reforço das condições de El Niño.
O aumento da quantidade de vapor de água na atmosfera não representa apenas uma alteração nos níveis de humidade. O vapor de água pode contribuir para intensificar determinados fenómenos meteorológicos extremos, nomeadamente episódios de precipitação intensa e ciclones.
Nicolas explicou que níveis mais elevados de vapor de água podem fornecer energia adicional às tempestades, uma vez que é libertado calor quando o vapor de água se condensa e transforma em gotículas nas nuvens. Esse processo pode contribuir para intensificar os sistemas de tempestade.
O aumento do vapor de água também tem implicações nas ondas de calor. Steven Sherwood, professor do Climate Change Research Centre da Universidade de Nova Gales do Sul, considerou que, embora um aumento de 0,04 quilogramas por metro quadrado “não pareça muito”, uma subida contínua acaba por produzir efeitos relevantes.
“Muitos dos impactos das alterações climáticas acontecem, na realidade, por causa do vapor de água”, afirmou Sherwood, acrescentando que, quando este vapor é transportado para latitudes mais elevadas, transfere calor para o ar e contribui indiretamente para episódios de calor extremo.
O investigador salientou ainda o papel da humidade durante as ondas de calor. Níveis elevados de humidade dificultam o arrefecimento durante a noite, o que faz com que o corpo humano tenha mais dificuldade em recuperar depois de dias de temperaturas muito elevadas.
O recorde de agosto ocorre num período em que o El Niño no Pacífico tropical poderá atingir uma intensidade sem precedentes. As previsões indicam que o atual padrão climático poderá ser o mais forte de que há registo e os cientistas estimam que possa contribuir para temperaturas globais recorde no próximo ano.
Uma análise preliminar realizada por cientistas australianos concluiu ainda que as temperaturas recorde esperadas no oceano Pacífico, consideradas um indicador do El Niño, estão seis vezes mais prováveis devido à influência do aquecimento global.
Andrew Dessler, cientista climático da Universidade Texas A&M, considerou que seria “inimaginável” que algum mês dos últimos milhares de anos, ou mesmo dos últimos 100 mil anos, tivesse registado mais vapor de água na atmosfera do que agosto. “Estamos, como diz o provérbio, a viver tempos interessantes”, escreveu o investigador.
Kimberley Reid, cientista climática da Universidade de Melbourne especializada no estudo do vapor de água, considerou que o recorde não é particularmente surpreendente tendo em conta as temperaturas registadas. “Dado que agosto foi o mês mais quente de pelo menos 170 anos, este recorde não é demasiado surpreendente”, afirmou.
A cientista sublinhou que temperatura e vapor de água estão intimamente relacionados e associou os atuais recordes às emissões resultantes da queima de combustíveis fósseis e ao El Niño.
Reid destacou ainda o papel do vapor de água no sistema climático. Trata-se de um gás com efeito de estufa que integra um mecanismo de retroação: à medida que a atmosfera aquece, consegue absorver mais vapor de água, o que contribui, por sua vez, para um aquecimento adicional.
“A causa fundamental é o dióxido de carbono e o metano adicionais”, afirmou a investigadora, apontando para os gases com efeito de estufa provenientes das atividades humanas como a origem do processo que está a favorecer o aumento das temperaturas e, consequentemente, da quantidade de vapor de água que a atmosfera consegue reter.
O novo recorde acrescenta, assim, mais um indicador às alterações observadas no sistema climático. Uma atmosfera mais quente e com maior quantidade de vapor de água pode favorecer simultaneamente condições para períodos de calor mais persistentes e para episódios de precipitação mais intensa, enquanto o El Niño acrescenta uma influência adicional à evolução das temperaturas globais.














