Europa “perdeu a normalidade”: 68% apontam deterioração e cresce desconfiança nos líderes

Os europeus continuam a desejar um continente mais forte, autónomo e capaz de responder às grandes crises, mas têm pouca confiança de que os atuais líderes consigam concretizar essa ambição.

Executive Digest

Os europeus continuam a querer uma Europa forte, unida e independente, mas estão cada vez menos convencidos de que o continente consiga chegar lá. Um novo estudo revela uma profunda crise de confiança: 68% dos inquiridos descrevem o momento atual em termos de “deterioração geral ou perda de normalidade”, enquanto 56% consideram que o futuro da Europa está “em perigo”.

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As conclusões resultam de um estudo do European Council on Foreign Relations (ECFR), baseado em cerca de 5.800 entrevistas realizadas em França, Alemanha, Itália, Países Baixos, Polónia e Reino Unido, além da análise da forma como a Europa é discutida na política e nos meios de comunicação de 15 países.

Segundo o Guardian, apenas 12% dos participantes consideram que o continente atravessa um período de “despertar e renovação”, numa altura em que a guerra, as dificuldades económicas e a necessidade de maior autonomia internacional estão entre as principais preocupações.

A guerra é apontada por 43% dos inquiridos como um dos grandes desafios da Europa, as pressões económicas por 33% e a necessidade de maior autonomia internacional por 29%. Mais expressivo é o julgamento sobre a resposta a esses problemas: 74% consideram que a Europa não está a lidar bem com os desafios que enfrenta.

Europeus querem uma Europa mais forte

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O pessimismo não corresponde, porém, a uma rejeição do projeto europeu. Pelo contrário, 73% dos participantes continuam a defender uma visão forte para o futuro do continente.

A unidade e uma maior integração política são desejadas por 35%, enquanto 28% destacam a paz e a segurança e 19% apontam a prosperidade. Apenas 13% defendem “menos Europa” ou a dissolução da União Europeia.

Paweł Zerka, investigador sénior do ECFR e autor do estudo, explica que o problema não está em os cidadãos terem deixado de desejar uma Europa mais forte, mas em terem perdido confiança na possibilidade de esse objetivo ser alcançado.

O investigador fala num “fosso de imaginação”: os europeus conseguem identificar o continente que gostariam de ter, mas têm dificuldade em acreditar num caminho credível entre a realidade atual e essa ambição.

A poucos dias do discurso anual sobre o estado da União da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, Zerka defende que os responsáveis europeus precisam de menos grandes promessas e de mais resultados que demonstrem uma direção concreta.

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Pessimistas já são o maior grupo

O estudo divide os europeus em quatro grandes grupos. Os “Positivos”, que representam 19%, mantêm uma forte convicção pró-europeia e consideram que as atuais crises podem servir de impulso para uma União mais integrada.

Os “Negativos” são, porém, o maior grupo, representando 39% dos inquiridos. Acreditam que os melhores tempos da Europa ficaram para trás e são particularmente numerosos em França, Alemanha e Itália, onde representam quase metade dos participantes.

É também entre os eleitores de partidos da direita radical que esta visão ganha maior expressão. Entre os apoiantes de forças como a AfD alemã, o Rassemblement National francês, o PVV neerlandês e o Reform UK, 83% descrevem a Europa através de ideias associadas à perda e ao declínio.

Os “Desligados”, correspondentes a 12%, mostram pouco interesse pela integração europeia e encaram a União Europeia como uma realidade distante das suas principais preocupações.

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Há ainda um grupo particularmente importante para o futuro político do continente: os “Incertos”, que representam 31%. Estes cidadãos continuam a identificar-se com valores pró-europeus, mas duvidam da capacidade da Europa para agir de forma decisiva, proteger os cidadãos e defender os seus próprios valores.

Lentidão e falta de capacidade para agir alimentam desconfiança

A perceção de que a Europa demora demasiado tempo a tomar decisões surge repetidamente nas respostas. Cerca de 32% dos participantes mencionam a “lentidão da Europa”.

Um jovem polaco ouvido no âmbito do estudo resumiu essa frustração dizendo que a União Europeia “discute muito, mas não faz nada”.

A incapacidade de o bloco se afirmar perante atores internacionais mais poderosos é outro dos problemas identificados. De acordo com o Guardian, 30% dos inquiridos fizeram referência a esta fragilidade, sendo as recentes concessões tarifárias da União Europeia a Donald Trump apontadas como um símbolo dessa perceção.

Para Zerka, os “Incertos” serão decisivos para determinar o rumo político da Europa. Ao contrário dos eurocéticos mais convictos, continuam ligados emocionalmente ao projeto europeu, mas mostram-se frustrados com a lentidão institucional, a burocracia e a aparente fragilidade geopolítica.

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Recuperar a confiança destes cidadãos dependerá, segundo o investigador, da capacidade dos responsáveis políticos para demonstrarem que a ação conjunta europeia consegue produzir resultados concretos em problemas que afetam diretamente a população, desde a segurança energética e a defesa às alterações climáticas e ao custo de vida.

O retrato deixado pelo estudo é, assim, o de uma Europa onde a ambição de maior união continua amplamente maioritária, mas onde cresce a dúvida sobre a capacidade das instituições e dos líderes para transformar essa ambição em realidade.

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