Vale tudo nas apostas dos EUA: candidatos já apostam nas próprias eleições… e estão a ser apanhados

Nos Estados Unidos já é possível colocar dinheiro em praticamente tudo: quem vai controlar o Congresso, quem vencerá uma eleição ou até determinadas palavras que Donald Trump poderá pronunciar num discurso

Francisco Laranjeira

Nos Estados Unidos já é possível colocar dinheiro em praticamente tudo: quem vai controlar o Congresso, quem vencerá uma eleição ou até determinadas palavras que Donald Trump poderá pronunciar num discurso.

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Mas a explosão dos chamados mercados de previsão criou um problema bastante mais difícil de resolver: algumas das pessoas sobre quem os utilizadores estão a apostar começaram, elas próprias, a fazer apostas.

Nos últimos meses, a plataforma Kalshi puniu vários candidatos por negociarem contratos relacionados com as próprias campanhas eleitorais. E há casos ainda mais extremos, envolvendo pessoas que tinham informação privilegiada — ou que podiam influenciar diretamente aquilo em que estavam a apostar.

“Apostei em mim. Literalmente”, reconheceu Laurie Buckhout, candidata republicana à Câmara dos Representantes pela Carolina do Norte.

Apostou quase mil dólares na própria eleição

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Buckhout, apoiada por Donald Trump, disputa com o democrata Don Davis um lugar num dos círculos eleitorais mais competitivos da Carolina do Norte.

Mas decidiu não esperar pelos eleitores.

Depois de anunciar a candidatura, comprou contratos no valor de menos de mil dólares relacionados com a sua própria vitória.

Quando a operação foi descoberta, reconheceu o erro.

“Apostei em mim. Literalmente. Foi um erro estúpido”, afirmou.

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A Kalshi aplicou-lhe uma multa de 2.589,96 dólares — cerca de 2.200 euros — e suspendeu-a da plataforma durante três anos.

O problema é evidente: um candidato possui informação sobre sondagens internas, financiamento ou decisões de campanha que os restantes investidores podem desconhecer e, sobretudo, tem capacidade para influenciar o próprio resultado.

As regras da Kalshi proíbem precisamente pessoas com capacidade direta para decidir ou influenciar determinado acontecimento de negociarem contratos relacionados com esse resultado.

E não foi a única

Outros candidatos já foram apanhados em situações semelhantes.

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Em abril, a Kalshi revelou ter punido Matt Klein, Ezekiel Enriquez e Mark Moran por negociarem contratos relacionados com as próprias campanhas.

Moran foi ainda mais longe: antes de anunciar a candidatura ao Senado pela Virgínia, apostou num mercado que perguntava quem se candidataria a cargos políticos em 2026. Depois anunciou que seria candidato.

Os três acabaram suspensos durante cinco anos, com multas que variaram entre algumas centenas e mais de seis mil dólares.

George Santos apostou numa decisão que dependia dele próprio

Mas provavelmente nenhum caso mostra melhor o problema do que o do antigo congressista republicano George Santos.

Em fevereiro, Santos começou a apostar sobre uma pergunta bastante peculiar: estaria ele presente no discurso de Donald Trump sobre o Estado da União?

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Inicialmente, comprou contratos que apostavam na sua presença no valor de 6.695,94 dólares.

Depois publicou no X uma mensagem perguntando aos seguidores se deveria aparecer no Congresso com um fato discreto ou um fato coberto de brilhantes.

O preço dos contratos que apontavam para a presença de Santos disparou de 15 para 70 cêntimos. Santos vendeu a posição e obteve um lucro de 3.448 dólares nessa operação.

A história ainda estava longe de terminar.

O mau tempo levou ao cancelamento do voo que tinha comprado para Washington e, posteriormente, também surgiram problemas com a alternativa de comboio.

A Commodity Futures Trading Commission (CFTC), regulador federal destes mercados, concluiu posteriormente que Santos fez declarações enganosas e omitiu informação relevante enquanto negociava contratos relacionados com a sua própria presença no evento.

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No total, as operações associadas ao mercado renderam-lhe 17.839 dólares, segundo informações divulgadas posteriormente.

A Kalshi acabou por aplicar-lhe uma multa de 71.356 dólares e tornou Santos no primeiro utilizador permanentemente banido da plataforma.

Um mercado que explodiu em poucos meses

Os casos surgem numa altura em que os mercados de previsão atravessam um crescimento extraordinário.

Plataformas como Kalshi e Polymarket permitem comprar contratos cujo preço representa, em teoria, a probabilidade de determinado acontecimento ocorrer.

Um contrato negociado a 40 cêntimos pode, por exemplo, representar aproximadamente uma probabilidade de 40%. Se o acontecimento se concretizar, o contrato vencedor passa a valer um dólar.

E os volumes envolvidos já são enormes.

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Segundo uma análise do Pew Research Center, Kalshi e Polymarket movimentavam conjuntamente menos de cinco mil milhões de dólares por mês em setembro de 2025. Em abril deste ano, esse valor aproximava-se dos 24 mil milhões.

Quando uma aposta começa a mexer na própria realidade

É aqui que aparece o problema mais difícil.

Os defensores destes mercados argumentam que milhares de pessoas colocando dinheiro nas próprias previsões podem produzir estimativas mais eficientes do que métodos tradicionais.

Mas isso pressupõe que quem participa esteja a tentar antecipar um acontecimento — e não a criá-lo.

Um estudo divulgado esta quarta-feira pela Anti-Corruption Data Collective acrescenta outra preocupação: depois de analisar mais de 11 mil mercados políticos, os investigadores concluíram que apostas inferiores a mil dólares conseguiram provocar alterações significativas nas probabilidades apresentadas em muitos mercados. Kalshi e Polymarket contestam as conclusões e argumentam que preços incorretos tendem a ser rapidamente corrigidos pelos restantes investidores.

Com as eleições intercalares de novembro a aproximarem-se, a questão ganhou dimensão política. Autoridades eleitorais e reguladores estaduais receiam que probabilidades apresentadas nestas plataformas possam ser confundidas com sondagens ou utilizadas para criar uma falsa perceção de que determinado candidato está à frente.

A diferença pode parecer pequena, mas é fundamental.

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Uma coisa é apostar sobre quem vai ganhar uma eleição.

Outra é o próprio candidato colocar dinheiro no resultado.

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