Por Sylvia Bozzo, Marketing Manager do Imovirtual
Nunca tivemos tantas ferramentas para procurar casa. Filtros cada vez mais detalhados, mapas, alertas em tempo real, histórico de preços, recomendações personalizadas, dados de mercado e, mais recentemente, inteligência artificial tornaram a pesquisa mais rápida, informada e ajustada às preferências de cada utilizador. Encontrar imóveis que correspondem ao que procuramos tornou-se significativamente mais simples. Mas isso não significa que escolher onde queremos viver tenha acompanhado a mesma evolução.
A tecnologia resolveu uma parte importante do problema. Perante milhares de imóveis disponíveis, permite organizar informação, eliminar opções incompatíveis com determinados critérios e aproximar o utilizador da oferta potencialmente mais relevante. Hoje, quem procura casa consegue definir com grande precisão aquilo que pretende em termos de preço, localização, tipologia ou características do imóvel e receber resultados cada vez mais próximos dessas preferências.
O verdadeiro desafio começa quando passamos da pesquisa para a decisão. Uma casa não é escolhida apenas através de um conjunto de critérios objetivos. O orçamento é cada vez mais determinante principalmente no mercado desequilibrado que temos hoje, assim como a localização ou a área, mas a decisão incorpora também o momento de vida, os planos familiares, a relação com a zona, a proximidade às redes pessoais e profissionais e até fatores difíceis de antecipar numa pesquisa digital. Duas casas aparentemente semelhantes podem representar escolhas completamente diferentes para a mesma pessoa.
É precisamente neste ponto que a evolução da inteligência artificial e da personalização coloca uma questão relevante ao setor imobiliário. Quanto melhor conhecemos o utilizador, maior é a capacidade de eliminar ruído e apresentar-lhe opções relevantes. No entanto, personalizar não pode significar decidir por ele, nem transformar aquilo que já sabemos sobre as suas preferências numa fronteira que limite aquilo que ainda pode descobrir.
Se um algoritmo aprender exclusivamente com pesquisas anteriores, existe o risco de tornar a experiência demasiado previsível, mostrando sobretudo aquilo que confirma escolhas já demonstradas. No imobiliário, porém, a descoberta continua a fazer parte da decisão. Uma localização inicialmente fora do radar, uma tipologia diferente ou um imóvel que não correspondia exatamente aos primeiros critérios podem revelar-se alternativas relevantes quando existe informação suficiente para as avaliar.
Por isso, acredito que a tecnologia deve reduzir a complexidade sem reduzir a escolha. O seu valor está em ajudar a organizar o mercado, contextualizar informação, tornar diferentes alternativas comparáveis e permitir que cada pessoa ajuste as suas prioridades à medida que compreende melhor aquilo que procura.
Esta evolução traz também uma responsabilidade acrescida para as plataformas imobiliárias. Quanto mais sofisticada se torna a tecnologia, mais importantes se tornam a transparência, a diversidade da oferta e a confiança na experiência. O objetivo não deve ser conduzir o utilizador para uma determinada escolha, mas proporcionar-lhe informação e ferramentas que lhe permitam chegar à sua própria decisão de forma mais consciente.
O futuro da experiência imobiliária será inevitavelmente mais tecnológico. A inteligência artificial permitirá compreender melhor as intenções, antecipar necessidades e eliminar parte da fricção que ainda existe na procura. Mas o sucesso dessa evolução não deverá ser medido apenas pela rapidez com que encontramos um imóvel ou pela precisão de uma recomendação. Deverá ser medido pela qualidade das decisões que conseguimos ajudar a construir.
Porque encontrar casa pode continuar a tornar-se cada vez mais fácil, mas escolher a casa certa continuará a ser profundamente pessoal. A melhor tecnologia no imobiliário não será aquela que escolhe por nós, mas aquela que nos dá melhores condições para reconhecer a escolha certa quando a encontramos.





