Vladimir Putin tem dois “arsenais nucleares”. Um é composto por milhares de ogivas capazes de provocar uma destruição sem precedentes. O outro não precisa de explodir, funciona todos os dias e pode manter outros países ligados à Rússia durante décadas.
É desta forma que a ‘Newsweek’ descreve, numa análise publicada esta quinta-feira, o alcance internacional da indústria nuclear civil russa, transformada num dos instrumentos de influência mais resistentes do Kremlin numa altura em que o Ocidente procura isolar Moscovo devido à guerra na Ucrânia.
No centro dessa estratégia está a Rosatom, gigante estatal que constrói centrais, fornece combustível e tecnologia, disponibiliza especialistas e, em alguns projetos, chega a financiar e controlar as próprias infraestruturas.
E apenas nos últimos dias surgiram três exemplos da dimensão dessa influência.
A Turquia, membro da NATO, manifestou interesse em construir novas centrais nucleares com a Rússia. O Irão recebeu propostas russas para uma série de pequenos reatores e o Cazaquistão assinou com a Rosatom o contrato para a construção da futura central nuclear de Balkhash.
Três países com relações geopolíticas muito diferentes, mas com uma coisa em comum: tecnologia nuclear russa a ganhar espaço nos respetivos sistemas energéticos.
Uma relação que pode durar 60 anos
O petróleo e o gás podem ser vendidos, substituídos ou sujeitos a embargos. Uma central nuclear é uma relação bastante mais difícil de romper.
A Rússia pode colocar tecnologia, engenheiros, combustível, financiamento e assistência técnica no coração da infraestrutura crítica de outro país, criando uma ligação que pode prolongar-se durante várias décadas.
É precisamente essa dependência que torna a Rosatom particularmente valiosa para Moscovo.
O modelo varia de país para país. No Cazaquistão, por exemplo, a empresa russa deverá projetar, fornecer equipamentos, construir e colocar em funcionamento a central de Balkhash, continuando depois a disponibilizar combustível e conhecimentos técnicos. A infraestrutura será, contudo, entregue a uma empresa cazaque.
Na Turquia, a relação vai muito mais longe.
A central nuclear de Akkuyu deverá produzir, quando estiver plenamente operacional, mais de 10% das necessidades de eletricidade do país — energia suficiente, segundo a ‘Newsweek’, para abastecer toda a cidade de Istambul.
Mas Ancara não é atualmente proprietária do projeto.
A Rosatom detém 100% da empresa responsável por Akkuyu através de um modelo de construção, propriedade e operação. A sua subsidiária TVEL deverá ainda fornecer combustível durante os 60 anos de vida útil prevista dos reatores.
No Egito, a central de El Dabaa conta, por sua vez, com um empréstimo russo de 25 mil milhões de dólares, cerca de 21,5 mil milhões de euros, que deverá financiar 85% do projeto.
Um gigante que o Ocidente tem dificuldade em sancionar
A dimensão internacional da Rosatom ajuda a explicar o problema enfrentado pelos países ocidentais.
Segundo dados do Center for Strategic and International Studies (CSIS), em fevereiro existiam pelo menos 20 unidades de reatores russos em construção ativa em sete países estrangeiros, entre os quais a Turquia, membro da NATO, a Hungria, membro da União Europeia, e a China.
A própria Rosatom afirma deter mais de um terço do mercado mundial de serviços de enriquecimento de urânio e quase um quinto do fornecimento mundial de combustível nuclear.
O Departamento de Energia dos EUA estima, por sua vez, que a Rússia representa cerca de 44% da capacidade mundial de enriquecimento.
É uma posição difícil de substituir rapidamente.
Washington e Londres já sancionaram responsáveis e várias subsidiárias da Rosatom, associando-as, entre outras atividades, à manutenção do arsenal nuclear russo, à produção de componentes militares e a tecnologias de dupla utilização.
A empresa-mãe, contudo, escapou até agora ao tipo de sanções abrangentes aplicadas a outros pilares da economia russa.
Europa continua dependente
Em julho, a Comissão Europeia confirmou que a Rosatom continuava fora da lista de sanções da União Europeia.
Bruxelas reconheceu que substituir o combustível nuclear russo é um problema mais complexo, sobretudo porque vários Estados-membros continuam dependentes desse fornecimento.
Mesmo os EUA deixaram uma porta aberta.
A proibição da importação de urânio russo de baixo enriquecimento, aprovada em 2024, permite exceções até 2027 quando não exista uma alternativa viável ou quando as importações sejam consideradas de interesse nacional.
A energia nuclear tornou-se assim num dos setores onde cortar relações com Moscovo pode representar também um problema para quem aplica as sanções.
Mas a máquina nuclear russa também tem problemas
Isso não significa que a Rosatom seja imune à pressão ocidental.
A central de Akkuyu é um dos melhores exemplos. O primeiro dos quatro reatores deveria inicialmente ter começado a funcionar em 2023, mas o projeto sofreu sucessivos atrasos.
Sanções financeiras ocidentais bloquearam cerca de dois mil milhões de dólares destinados à construção e a Siemens recusou fornecer componentes elétricos essenciais, obrigando a Rússia a procurar equipamentos alternativos na China.
O próprio diretor-geral da Rosatom, Alexey Likhachev, reconheceu que estas dificuldades aumentaram os custos e provocaram atrasos.
Na Hungria, a central Paks II oferece outro exemplo. Quando o Governo de Viktor Orbán entregou o projeto à Rosatom, em 2014, os dois novos reatores deveriam entrar ao serviço em 2025 e 2026. O primeiro betão só foi colocado em fevereiro deste ano.
Budapeste assinou entretanto um acordo com a Westinghouse, dos EUA, para fornecer combustível às centrais russas já existentes no país a partir de 2028.
Uma carteira internacional de 206 mil milhões de dólares
Apesar dos obstáculos, o negócio internacional da Rosatom continua a crescer.
A carteira de encomendas no estrangeiro aumentou 2,9% no último ano, atingindo 206,2 mil milhões de dólares — cerca de 177 mil milhões de euros —, segundo o relatório anual da empresa citado pela Newsweek.
É precisamente aqui que reside a força geopolítica desta indústria.
Depois de um país investir milhares de milhões numa central nuclear russa, abandonar o projeto torna-se extremamente difícil. Há eletricidade para produzir, investimento para recuperar, combustível para garantir e infraestruturas que terão de funcionar durante décadas.
Mesmo países que politicamente pretendam distanciar-se de Moscovo podem continuar a ter razões práticas para negociar com a Rússia.
As 4.400 ogivas e o arsenal que não explode
A comparação ajuda a perceber a dimensão do paradoxo.
O Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI) estima que Moscovo disponha de cerca de 4.400 ogivas no seu arsenal militar, mais do que qualquer outro Estado. Rússia e EUA concentram, em conjunto, aproximadamente 83% de todas as armas nucleares armazenadas no mundo.
Essas armas garantem a Moscovo a derradeira capacidade de dissuasão: obrigam Washington e a NATO a calcular as consequências de qualquer confronto direto com a Rússia.
A Rosatom exerce uma influência diferente.
Em vez de obrigar outros países a manterem a Rússia por perto devido ao medo daquilo que Moscovo poderá fazer, dá-lhes razões para manterem relações com o Kremlin devido àquilo que a Rússia lhes pode fornecer.
É por isso que, conclui a análise da Newsweek, o “arsenal nuclear” que nunca explode poderá continuar a ser um dos instrumentos de poder mais valiosos de Moscovo durante as próximas décadas.



















