Explicador. O “buraco” nas sanções à Rússia fica entre praias e resorts de luxo: é assim que mercadorias chegam a Moscovo

Entre os produtos encontram-se peças para aeronaves, componentes eletrónicos e bens de dupla utilização, ou seja, equipamentos que podem servir tanto para fins civis como militares

Francisco Laranjeira

Praias de areia branca, águas turquesa, resorts de luxo e mais de dois milhões de turistas por ano. As Maldivas são um dos destinos de férias mais conhecidos do mundo, mas por detrás da imagem de paraíso tropical estará a funcionar uma inesperada rota comercial que ajuda a Rússia a contornar as sanções impostas depois da invasão da Ucrânia.

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Documentos analisados pelo ‘The Wall Street Journal’, citados pelo ‘El Mundo’, e entrevistas com responsáveis ocidentais indicam que centenas de milhões de dólares em mercadorias restritas ou destinadas a entidades sancionadas passaram pelo aeroporto de Malé.

Entre os produtos encontram-se peças para aeronaves, componentes eletrónicos e bens de dupla utilização, ou seja, equipamentos que podem servir tanto para fins civis como militares.

A escala das Maldivas continua muito abaixo das principais rotas utilizadas pela Rússia para contornar as sanções. China, Turquia e Emirados Árabes Unidos representam, em conjunto, cerca de 15 mil milhões de dólares por ano em importações russas restritas.

Mas o caso das Maldivas revela até onde Moscovo está disposta a procurar brechas no sistema internacional de sanções.

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Mercadoria chega e duas horas depois parte para Moscovo

O mecanismo é relativamente simples.

Todas as manhãs, um avião comercial da Aeroflot aterra no Aeroporto Internacional de Malé. Intermediários locais, em colaboração com empresas de logística ligadas à Rússia, tratam do desalfandegamento de mercadorias provenientes dos EUA, Europa e China.

Os produtos são depois colocados em aviões da companhia russa que partem para Moscovo cerca de duas horas mais tarde.

Já em território russo, algumas destas mercadorias acabam nas mãos de empresas abrangidas por sanções, entre as quais a S7 Airlines e subsidiárias de manutenção que enfrentam dificuldades para obter peças de substituição para a frota.

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“Isto demonstra a existência de canais eficazes muito distantes dos suspeitos do costume”, explica Pavlo Shkurenko, investigador de sanções da Escola de Economia de Kiev.

O Governo das Maldivas e a empresa estatal que administra o aeroporto não responderam aos pedidos de comentário referidos na investigação.

Microchips que também podem ser usados em mísseis

É a natureza de algumas das mercadorias que torna a rota particularmente sensível.

Entre os carregamentos identificados encontram-se microchips que podem ser utilizados em equipamentos civis, mas também em sistemas sofisticados de orientação de mísseis.

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Há ainda instrumentos óticos necessários em satélites que podem ser usados para monitorizar tropas inimigas e parafusos e rebites aeroespaciais de elevada resistência, aplicáveis tanto em aviões comerciais como em caças ou foguetões de longo alcance.

São os chamados bens de dupla utilização, precisamente uma das categorias que as sanções ocidentais procuram impedir que chegue à indústria russa.

De 7 milhões para mais de 630 milhões de dólares

Os números tornam o caso ainda mais invulgar.

As estatísticas aduaneiras oficiais das Maldivas mostram exportações diretas praticamente inexistentes para a Rússia entre 2022 e 2025: apenas 2.300 dólares em atum e 25 dólares em folhetos informativos.

Mas os dados comerciais russos compilados pela Import Genius apresentam uma realidade muito diferente.

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Segundo estes registos, as importações russas provenientes das Maldivas — um país praticamente sem base industrial — passaram de cerca de sete milhões de dólares em 2021 para mais de 630 milhões em 2022, ano em que começou a invasão em grande escala da Ucrânia.

Em 2024, a Rússia ainda terá importado cerca de 160 milhões de dólares em mercadorias através das Maldivas. A Import Genius considera que o número poderá, inclusive, subestimar o comércio real, uma vez que Moscovo começou a restringir o acesso aos seus dados comerciais.

O peso dos turistas russos

Há também uma relação económica que torna o problema particularmente delicado para Malé.

Os russos são o segundo maior grupo de turistas estrangeiros nas Maldivas, atrás apenas dos chineses. Um conflito diplomático com Moscovo poderia, portanto, ter consequências para uma economia fortemente dependente do turismo e que ainda recupera do impacto provocado pela pandemia.

Ao mesmo tempo, o negócio da carga aérea está a crescer. Em julho, a empresa estatal que administra o aeroporto anunciou um recorde de 126 toneladas de mercadorias movimentadas num único dia. A Aeroflot representou 12% do tráfego de carga de saída durante o primeiro semestre deste ano.

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Documentos mudam nas Maldivas

A investigação revela ainda como poderá funcionar a passagem das mercadorias pelo arquipélago.

Quando uma carga chega inicialmente às Maldivas, os documentos identificam a empresa exportadora e o comprador declarado. Depois entram em cena empresas locais que tratam da mercadoria dentro do próprio aeroporto.

Segundo os documentos analisados, empresas como a Freight Care e a Go Investment intervêm na documentação e fazem a carga seguir diretamente pela pista, sem que esta chegue a sair do aeroporto ou seja formalmente registada como uma importação para as Maldivas.

Como permanece em trânsito, fica sujeita a verificações alfandegárias mínimas.

Antes da partida para Moscovo é emitida uma nova guia aérea, na qual deixa de constar o nome do vendedor original.

Num dos exemplos identificados, uma empresa alemã vendeu em maio de 2024 cerca de 9.000 euros em bombas, baterias, correias e outros componentes a uma empresa do Quirguistão.

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A mercadoria seguiu de Düsseldorf para Malé num avião da Emirates. Dias depois, foi colocada num voo da Aeroflot para Moscovo.

Na segunda documentação de transporte já não existia qualquer referência à empresa alemã nem à origem dos produtos. O destinatário indicado passou a ser um importador russo localizado em Krasnoyarsk, na Sibéria.

Ocidente pressiona Maldivas

Os EUA e a Europa estão agora a pressionar as autoridades das Maldivas para fecharem esta rota.

Segundo uma fonte citada na investigação, o Governo local está consciente do problema e procura encontrar uma solução. Uma das dificuldades será a escassez de funcionários alfandegários: a carga em trânsito raramente é sujeita a inspeções físicas e os controlos dependem sobretudo da documentação apresentada.

Hussain Waheed, responsável da Freight Care, confirmou que a empresa movimentou mercadorias em trânsito por Malé com destino à Rússia, mas negou ter participado conscientemente no envio de produtos destinados à produção de armamento.

“Não apoiamos nenhuma guerra”, afirmou.

Mais de quatro anos depois do início da invasão em grande escala da Ucrânia, a rota das Maldivas mostra a dificuldade de fechar todas as portas ao comércio russo: quando uma é bloqueada, Moscovo procura outra — mesmo que fique entre praias de areia branca, águas transparentes e resorts de luxo.

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