“Vai tornar-se uma guerra de gelo”: o inverno pode mudar tudo na Ucrânia e levar o conflito para uma nova fase

Os números apresentados por Volodymyr Zelensky ajudam a perceber o equilíbrio no terreno. Segundo o presidente ucraniano, desde o início de 2026 a Rússia ocupou 990 quilómetros quadrados de território, enquanto as forças de Kiev recuperaram o controlo de 820 quilómetros quadrados

Francisco Laranjeira

Mais de quatro anos e meio depois do início da invasão russa, a guerra na Ucrânia está a sofrer uma transformação. Os exércitos continuam a combater ao longo de cerca de 1.200 quilómetros de frente, mas nenhum dos lados consegue alcançar um avanço decisivo. Enquanto isso, outra batalha ganha importância: destruir a capacidade económica, energética e industrial do adversário.

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Os números apresentados por Volodymyr Zelensky ajudam a perceber o equilíbrio no terreno. Segundo o presidente ucraniano, desde o início de 2026 a Rússia ocupou 990 quilómetros quadrados de território, enquanto as forças de Kiev recuperaram o controlo de 820 quilómetros quadrados.

A diferença é de apenas 170 quilómetros quadrados.

Zelensky acredita que a Ucrânia poderá chegar ao final do ano com tantos quilómetros quadrados recuperados como aqueles que a Rússia conseguiu conquistar em 2026. Os números foram divulgados por Kiev e não significam que ambos os países controlem extensões semelhantes de território no conjunto da guerra: referem-se apenas aos ganhos e perdas registados desde janeiro.

A declaração do presidente ucraniano é corroborada por outras fontes ucranianas e, em parte, pelos mapas disponíveis sobre a evolução da frente. A ‘Reuters’ confirmou, por exemplo, que Kiev anunciou em agosto a recuperação de 745 quilómetros quadrados numa operação no sudeste do país, embora tenha ressalvado que algumas das áreas reivindicadas continuavam classificadas como zonas disputadas pelo projeto de monitorização DeepState.

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Armando Jiménez San Vicente, professor de Relações Internacionais da Universidade Francisco de Vitoria, considera que os números mostram uma alteração importante.

“Pela primeira vez nestes seis meses podemos falar de um avanço da Ucrânia”, afirma ao ’20 Minutos’, salientando que Kiev conseguiu recuperar território e, simultaneamente, provocar problemas à economia russa.

Mas isso não significa que a Rússia tenha perdido a iniciativa.

A barreira que Moscovo continua sem conseguir ultrapassar

Um dos principais objetivos russos continua a ser o chamado “cinturão de fortalezas” de Donetsk.

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Trata-se de uma extensa linha defensiva formada em torno de Kostiantynivka, Druzhkivka, Kramatorsk e Sloviansk, combinando cidades, estradas, posições fortificadas e obstáculos naturais. É uma das estruturas fundamentais da defesa ucraniana no Donbass e Moscovo tenta há meses enfraquecê-la.

A pressão mantém-se. Esta semana, Vladimir Putin afirmou que as forças russas conquistaram 270 quilómetros quadrados em Donetsk apenas durante agosto e continuam a avançar em direção a Sloviansk e Kramatorsk.

Ao mesmo tempo, os avanços ucranianos dos últimos meses estão longe de representar uma viragem decisiva.

Cada aldeia ou quilómetro recuperado exige operações prolongadas e provoca elevadas perdas humanas. Jiménez compara a situação atual a uma guerra de desgaste semelhante, em alguns aspetos, à Primeira Guerra Mundial.

“A libertação deste território está a cobrar um preço tremendo tanto da Ucrânia como da Rússia”, explica o especialista ao ’20 Minutos’.

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É precisamente esta dificuldade em alterar significativamente a linha da frente que está a empurrar a guerra para outro lugar.

Kiev leva a guerra às refinarias russas

A Ucrânia intensificou nos últimos meses os ataques com drones contra refinarias, depósitos de combustível, instalações militares, sistemas de defesa aérea e centros logísticos dentro da Rússia.

Alguns desses ataques acontecem cada vez mais longe da fronteira.

O objetivo ultrapassa a destruição física de uma refinaria ou de um depósito. Ao obrigar Moscovo a proteger infraestruturas energéticas espalhadas pelo território russo, Kiev procura também dispersar os sistemas de defesa aérea que poderiam estar concentrados junto à frente de combate.

Jiménez chama-lhe a “frente profunda”.

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“Pela primeira vez, a Ucrânia consegue atacar sistematicamente o coração económico da atividade russa”, explica.

Putin reconheceu esta semana os danos provocados pelos ataques ucranianos às refinarias, embora tenha garantido que as defesas russas estão a melhorar.

Moscovo está, contudo, a fazer exatamente o mesmo do outro lado da fronteira.

A Rússia continua a lançar ataques massivos de drones e mísseis contra cidades e infraestruturas ucranianas, com particular atenção ao sistema energético.

E é aqui que entra o fator que poderá tornar-se decisivo nos próximos meses.

A corrida para sobreviver ao inverno

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A aproximação do inverno poderá transformar a energia numa das armas centrais do conflito.

Segundo Jiménez, a Rússia tentará degradar a rede elétrica ucraniana ao ponto de criar pressão económica e social suficiente para obrigar Kiev a aceitar negociações e eventuais concessões territoriais.

A Ucrânia procurará fazer o inverso: continuar a atingir refinarias, instalações petrolíferas e outras infraestruturas para aumentar os custos económicos da guerra dentro da própria Rússia.

“O inverno será definitivamente o período em que os atores estarão muito mais tensos”, antecipa o professor, que considera existir uma pequena janela para negociações no final do outono.

Há ainda outro problema para Kiev: a defesa aérea.

A Ucrânia continua fortemente dependente dos sistemas Patriot para intercetar determinados mísseis balísticos russos. Segundo o especialista ouvido pelo ’20 Minutos’, seriam necessários cerca de 300 intercetores, numa altura em que os EUA têm também de responder às necessidades militares criadas pelo conflito com o Irão.

Putin, por seu lado, voltou esta semana a ameaçar intensificar os ataques contra a infraestrutura energética ucraniana antes do inverno.

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Depois de quatro anos e meio de guerra, nenhum dos lados parece, portanto, próximo de conseguir uma vitória decisiva através de uma grande ofensiva terrestre.

Os quilómetros continuam a contar. Mas cada vez mais contam também as refinarias que continuam a produzir, as centrais elétricas que permanecem ligadas, os mísseis que ainda existem nos arsenais e a capacidade das duas economias para suportar mais um inverno de guerra.

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