Ataques russos, radiação e milhares em bunkers: Finlândia realiza maior exercício de defesa civil na Europa desde a II Guerra Mundial

Depois de décadas de não alinhamento militar, a Finlândia aderiu à NATO na sequência da invasão em grande escala da Ucrânia, reforçando a integração do país na estrutura de defesa ocidental

Francisco Laranjeira

Ataques com mísseis vindos da Rússia, ciberataques que deixam uma cidade sem eletricidade ou água, níveis perigosos de radiação e milhares de pessoas obrigadas a procurar proteção em bunkers subterrâneos. Não é uma guerra real, mas é precisamente para essa possibilidade que a Finlândia está a treinar.

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Mais de 2.000 pessoas, entre voluntários e estudantes, participam em Kuopio, no centro do país, naquele que é apresentado como o maior exercício de proteção civil realizado na Europa desde o fim da II Guerra Mundial, segundo avança a ‘Euronews’.

Num enorme abrigo escavado na rocha, protegido por portas concebidas para resistir a ataques nucleares ou biológicos, conscritos finlandeses vestidos com fatos de proteção e máscaras respiratórias treinam a medição dos níveis de radiação.

Centenas de pessoas passam a noite em catres num espaço subterrâneo que, em tempos normais, funciona como pavilhão desportivo.

Mísseis russos e ciberataques no cenário

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O exercício coloca os participantes perante uma situação extrema.

No cenário imaginado pelas autoridades, infraestruturas críticas de Kuopio são atingidas por ciberataques, provocando perturbações no abastecimento de eletricidade e água. Ao mesmo tempo, existe a ameaça de um ataque com mísseis proveniente da vizinha Rússia.

O objetivo é simples: descobrir como reagiriam autoridades e população se tudo isto acontecesse realmente.

A preocupação ganhou uma dimensão diferente desde a invasão russa da Ucrânia. A fronteira entre a Finlândia e a Rússia tem mais de 1.300 quilómetros, estendendo-se do Báltico ao Círculo Polar Ártico.

Depois de décadas de não alinhamento militar, a Finlândia aderiu à NATO na sequência da invasão em grande escala da Ucrânia, reforçando a integração do país na estrutura de defesa ocidental.

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Um bunker para 7.000 pessoas

A experiência ucraniana é uma das referências para o exercício.

O maior abrigo de Kuopio tem capacidade para cerca de 7.000 pessoas. Na Ucrânia, pelo contrário, milhões de habitantes aprenderam desde 2022 que, perante um ataque, podem ter apenas alguns minutos para encontrar proteção numa estação de metro, garagem subterrânea ou outro local disponível.

Asko Muhonen, coronel do Exército finlandês na reserva e responsável pela organização do exercício, considera que uma das lições da guerra é precisamente a necessidade de existirem abrigos facilmente acessíveis.

Nem todos precisam de conseguir resistir a um ataque nuclear: o fundamental é oferecerem algum grau de proteção e estarem suficientemente próximos para que a população consiga alcançá-los rapidamente.

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Dmytro Untila sabe o que significa não ter essa preparação.

O estudante ucraniano, atualmente na Universidade de Kuopio, estava em casa, em Odessa, quando os primeiros mísseis russos atingiram a cidade em 24 de fevereiro de 2022.

Sem um abrigo onde se proteger, refugiou-se no átrio do edifício.

Uma preparação semelhante à que está agora a ser dada aos finlandeses teria sido preciosa na Ucrânia, reconhece, “porque ninguém imaginava que isto pudesse acontecer”.

Drones sobre linhas elétricas e ciberataques

A ameaça não se resume, contudo, a uma invasão convencional.

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Responsáveis ocidentais acusam a Rússia de desenvolver uma campanha de sabotagem e perturbação na Europa, envolvendo incêndios, ataques contra infraestruturas de água e energia e operações com drones.

Na região de Kuopio, a empresa elétrica Savon Voima registou um aumento significativo dos ciberataques desde a invasão da Ucrânia e desde que deixou de comprar biocombustível russo.

No ano passado, técnicos encontraram pelo menos dez autocolantes colocados em locais considerados particularmente vulneráveis da infraestrutura energética. Foram registadas situações semelhantes noutras empresas finlandesas, embora não se saiba quem os colocou.

Também foram avistados drones sobre linhas de alta tensão.

“Se houvesse uma explosão naquele ponto, podia destruir uma barragem inteira”, alertou Juha Räsänen, diretor-executivo da Savon Voima.

As autoridades finlandesas, contudo, introduzem uma importante nota de cautela. O Serviço de Segurança e Informações investigou um “vasto conjunto de relatos” e afirma não ter encontrado nada de preocupante. Muitas observações de drones terão origem em situações quotidianas e alguns dos objetos suspeitos identificados junto de infraestruturas estarão relacionados com trabalhos normais de levantamento topográfico.

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Preparados para sobreviver 72 horas

Como nenhuma infraestrutura consegue estar protegida contra todas as ameaças, a estratégia finlandesa passa também por preparar cada cidadão para sobreviver autonomamente durante uma crise.

A recomendação é que as pessoas consigam passar pelo menos 72 horas sem depender dos serviços normais, incluindo numa situação em que falhe a eletricidade ou a água deixe de ser potável.

A defesa do país, explica Asko Muhonen, não assenta apenas nas Forças Armadas. Depende também da “mentalidade” da população e da disposição dos cidadãos para assumirem responsabilidades pela segurança coletiva.

A Finlândia manteve o serviço militar obrigatório mesmo depois do colapso da União Soviética, algo que continua a marcar a preparação da sociedade para uma eventual crise.

“É o nosso dever servir e proteger este país, como outros fizeram antes de nós. É por isso que temos independência”, afirma Jyry Pietikainen, um conscrito de 23 anos que aprendeu a gerir o abrigo de Kuopio durante a noite.

Memórias de uma guerra que não desapareceu

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A preparação finlandesa tem também raízes históricas profundas.

Nas guerras travadas contra a União Soviética, a Finlândia perdeu cerca de 11% do seu território e mais de 400 mil pessoas tiveram de abandonar as suas casas.

Alguns sobreviventes ainda recordam os bombardeamentos.

Risto Mönkkönen, hoje com 95 anos, guarda num pedaço de papel as datas em que Kuopio foi bombardeada e os nomes das vítimas. Em criança, correu com o pai para um abrigo no momento em que uma bomba matou cinco amigos deste.

“Não consigo esquecer”, conta.

Aili Toivanen, de 92 anos, foi obrigada a abandonar a casa duas vezes durante as guerras. Quando Vladimir Putin ordenou a invasão da Ucrânia, em 2022, voltou a sentir o medo de ter de fugir pela terceira vez.

Até as crianças treinam

No exercício de Kuopio, a preparação começa cedo. Entre os milhares que entraram nos abrigos estão alunos do ensino básico e estudantes universitários.

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“As crianças precisam de saber isto, porque podem ter de agir sozinhas. Os adultos nem sempre podem ajudar”, explica Amanda Hill, de 11 anos, cuja turma passou o dia a ter aulas dentro do abrigo.

Para os responsáveis pelo exercício, preparar-se para o pior não significa acreditar que uma guerra é inevitável. Significa garantir que o país consegue reagir caso aconteça.

Jyry Pietikainen resume essa atitude com uma ironia tipicamente finlandesa: “Somos finlandeses, por isso temos uma certa visão pessimista da vida.”

Depois, abandona a brincadeira: “Mas a história mostra o que pode acontecer com a Rússia.”

Asko Muhonen deixa um último conselho sobre Moscovo: “Não acreditem no que dizem, observem o que fazem”.

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