Uma orca ataca um urso polar, despedaça-o e transforma-o em alimento. Para Vladimir Putin, esta imagem da natureza — apesar de não existirem casos documentados de orcas a caçar ursos polares — pode servir para explicar às crianças russas o mundo em que vivem e até por que razão o país invadiu a Ucrânia.
A insólita analogia foi feita pelo presidente russo durante um encontro com professores, quando um docente relatava uma viagem ao Polo Norte.
“Conseguem imaginar? Há orcas que comem estes ursos como se fossem peixinhos. Atacam em grupo e bum! Despedaçam-nos”, afirmou Putin, antes de chegar à conclusão que pretendia transmitir: “É a cadeia alimentar.”
E acrescentou que esta realidade deveria ser explicada às crianças para que compreendam “o mundo em que vivemos” e por que razão a Rússia está a conduzir aquilo a que o Kremlin continua a chamar “operação militar especial” — a invasão da Ucrânia.
A declaração, relatada pelo ‘El País’ e também pela agência ‘ANSA’, seria apenas mais uma das invulgares intervenções do líder russo não fosse o momento em que aconteceu: a Rússia acaba de iniciar um novo ano letivo marcado por um reforço significativo da componente militar e ideológica nas escolas.
Há também um problema com a própria história contada por Putin. Especialistas citados pelo The Insider afirmam que nunca foi documentado na natureza um ataque de orcas a ursos polares. Nos últimos meses têm circulado vídeos produzidos por inteligência artificial que mostram precisamente esses confrontos fictícios.
Metade da disciplina passa a ser treino militar
A partir deste ano letivo, o treino militar ganha muito mais peso no currículo de milhões de alunos russos.
Na disciplina “Fundamentos de Segurança e Defesa da Pátria”, metade do tempo de ensino passa a estar destinado a treino militar básico, contra cerca de 20% anteriormente.
As aulas incluem contacto com diferentes tipos de armamento, princípios de disciplina militar, medicina de emergência em cenário de combate e aprendizagem relacionada com drones. Algumas atividades incluem ainda exercícios realizados em campos de treino.
A mudança abrange adolescentes e aprofunda um processo de militarização do ensino que começou a acelerar depois da invasão em grande escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022.
O objetivo já não passa apenas por ensinar aos alunos como reagir a situações de emergência. A antiga disciplina dedicada à segurança quotidiana foi progressivamente transformada numa matéria em que a defesa nacional e a preparação militar assumem um papel central.
Veteranos da Ucrânia entram nas salas de aula
A componente militar não está isolada da narrativa política sobre a guerra.
Outra disciplina, “Conversas sobre o que importa”, introduzida depois do início da invasão, pretende transmitir conceitos como patriotismo, responsabilidade cívica e os chamados “valores espirituais e morais tradicionais russos”.
Segundo o ‘El País’, os alunos podem ter encontros com veteranos que combateram na Ucrânia e aulas dedicadas a temas militares e patrióticos.
O currículo inclui conteúdos com designações como “Tudo pela frente! Tudo pela vitória!”, numa referência que recupera linguagem associada à mobilização soviética durante a Segunda Guerra Mundial.
Ao mesmo tempo, o ensino da história russa ganha maior peso.
A orientação seguida pelo Kremlin procura apresentar a Rússia como uma civilização própria e reforçar uma leitura da história nacional centrada na continuidade do Estado, nas vitórias militares e na confrontação com ameaças externas.
Um novo livro para as crianças dos territórios ocupados
Essa batalha pela memória chega também às zonas da Ucrânia ocupadas pela Rússia.
A partir deste mês, crianças entre o quinto e o sétimo ano nesses territórios começam a utilizar um novo manual intitulado “História do Donbass e da Novorossiya”.
O ministro russo da Educação, Sergei Kravtsov, apresentou o livro como uma história “unificada” e ligada ao currículo histórico russo, afirmando que contém informação “objetiva” em contraste com aquilo que classificou como mentiras presentes nos manuais ucranianos.
O manual será utilizado nas escolas dos territórios ucranianos ocupados e anexados unilateralmente pela Rússia.
A alteração junta-se a uma revisão mais ampla dos livros escolares promovida pelas autoridades russas desde o início da guerra.
O El País destaca o papel de Vladimir Medinsky, antigo ministro da Cultura e atual conselheiro presidencial, na construção dessa narrativa histórica. Os novos manuais têm sido criticados por historiadores e opositores por minimizarem ou reinterpretarem episódios controversos da União Soviética e apresentarem os conflitos travados por Moscovo através da perspetiva oficial do Kremlin.
Da escola para as Forças Armadas
A militarização chega também às universidades.
Segundo o ‘El País’, instituições de ensino superior receberam indicações para incentivarem estudantes a assinarem contratos com as Forças Armadas, numa altura em que Moscovo procura manter o recrutamento necessário para sustentar uma guerra que já dura há mais de quatro anos.
O jornal espanhol relata o caso de uma universidade na região de Khanty-Mansi, onde professores terão sido incentivados a abordar alunos com dificuldades académicas, apresentando-lhes vantagens caso aceitassem assinar contratos militares.
O contexto é particularmente sensível porque frequentar o ensino superior a tempo inteiro permite, em princípio, adiar o serviço militar obrigatório.
A pressão para garantir novos efetivos acontece apesar de Putin ter rejeitado esta semana os rumores sobre uma nova mobilização militar, classificando-os como falsos. A Rússia continua, porém, a depender fortemente de contratos voluntários e incentivos financeiros para alimentar as suas forças na Ucrânia.
A escola russa entra assim no quinto ano letivo desde o início da invasão com uma transformação cada vez mais visível: mais treino militar, contacto com drones e armamento, maior peso da narrativa histórica oficial e aulas destinadas a transmitir patriotismo e os valores defendidos pelo Kremlin.
E foi precisamente perante professores que Putin encontrou uma imagem para explicar às próximas gerações a sua visão do mundo: uma cadeia alimentar onde os mais fortes atacam os mais fracos — ainda que, no exemplo escolhido pelo Presidente russo, a cena entre orcas e ursos polares nunca tenha sido observada na natureza.



















