Mais de 260 municípios espanhóis preparam concentrações e manifestações esta quarta-feira, Dia de Ceuta, numa jornada marcada pela solidariedade com a cidade autónoma e pela crise migratória e social que continua a afetar o território. Em Ceuta, haverá uma manifestação própria, enquanto PP e Vox promovem mobilizações e o protesto chega também a Bruxelas.
Ceuta continua longe de regressar à normalidade e a crise que atravessa a cidade autónoma vai esta quarta-feira, 2 de setembro, para as ruas de várias cidades espanholas. A data, que coincide com o Dia de Ceuta, será marcada por uma multiplicidade de concentrações e manifestações convocadas por instituições municipais, associações de moradores e partidos políticos, com diferentes mensagens e reivindicações, mas com um ponto em comum: a demonstração de apoio à cidade autónoma.
A iniciativa de maior alcance é promovida pela Federação Espanhola de Municípios e Províncias (FEMP), que apelou aos municípios espanhóis para que realizem concentrações diante das respetivas câmaras municipais às 20:00 locais, numa demonstração de solidariedade e apoio a Ceuta. A mobilização poderá envolver mais de 260 municípios, embora a forma concreta dos atos dependa da adesão e organização de cada autarquia.
Em simultâneo, outras organizações decidiram avançar com iniciativas próprias, algumas das quais coincidem no local e no horário com a convocatória institucional. O Vox apelou aos seus apoiantes para participarem nas concentrações junto das câmaras municipais, mas com uma mensagem política distinta da adotada pela FEMP: “Não à invasão. Defenda Ceuta. Defenda a Espanha”.
A sobreposição das convocatórias significa que, em várias localidades, poderão juntar-se pessoas mobilizadas por diferentes organizações e sob argumentos distintos. A coincidência no calendário não significa, por isso, que todos os participantes ou entidades envolvidas partilhem a mesma leitura política da crise de Ceuta ou defendam as mesmas soluções.
Ceuta terá uma manifestação própria
Na própria cidade autónoma, a mobilização terá um formato diferente das concentrações promovidas pela FEMP. A Federação Provincial das Associações de Moradores de Ceuta (FPAV) convocou uma manifestação para esta quarta-feira, com início marcado para as 19:00 locais, 18:00 em Lisboa, nas Muralhas Reais.
A marcha seguirá até à Praça dos Reis, em frente ao edifício da Delegação do Governo, onde está prevista a leitura de um manifesto. A organização apresenta a iniciativa como uma mobilização pacífica e procura colocá-la à margem de divisões ideológicas ou religiosas.
A convocatória foi divulgada sob os lemas “Ceuta não se vende, Ceuta se defende” e “O povo salva o povo”, numa tentativa de apresentar a manifestação como uma resposta da sociedade civil à situação vivida na cidade.
Também a associação Foro Ceuta Siglo XXI promove uma manifestação conjunta, integrando a mobilização prevista na cidade autónoma e contribuindo para uma jornada que terá diferentes expressões, tanto em Ceuta como no território continental espanhol.
Mais de 260 municípios são chamados a manifestar solidariedade
Fora de Ceuta, a principal mobilização decorrerá às 20:00 locais, 19:00 em Lisboa, em frente às câmaras municipais que aderiram à convocatória da FEMP.
A federação municipalista dirigiu o apelo aos municípios de todo o país, procurando transformar o Dia de Ceuta numa jornada nacional de solidariedade com a cidade autónoma. Nos últimos dias, várias autarquias anunciaram a sua participação, entre elas Múrcia, Teruel e São Sebastião dos Reis.
Na província de Cádiz, também foram anunciadas concentrações em diferentes localidades, incluindo Cádiz, Algeciras, Jerez de la Frontera, El Puerto de Santa María e Los Barrios.
A dimensão territorial da iniciativa faz com que o protesto deixe de estar circunscrito a Ceuta e passe a ter expressão em diferentes pontos de Espanha, num momento em que a situação na cidade continua a gerar forte debate político e social.
Vox junta-se às concentrações com uma mensagem diferente
A convocatória da FEMP será acompanhada por uma mobilização política do Vox, que apelou aos seus simpatizantes para que participem nos atos previstos junto das câmaras municipais.
O partido utiliza, contudo, uma mensagem própria, centrada na questão migratória e na defesa da soberania espanhola: “Não à invasão. Defenda Ceuta. Defenda a Espanha”.
A participação do Vox faz com que algumas das concentrações municipais possam reunir cidadãos que respondem a convocatórias diferentes. De um lado, a FEMP apresenta a iniciativa como uma demonstração institucional de solidariedade com Ceuta; do outro, o Vox associa a mobilização às suas posições sobre imigração e defesa das fronteiras espanholas.
Assim, apesar de a data e alguns dos locais coincidirem, as mobilizações não constituem uma única manifestação organizada por uma só entidade.
Associações de moradores também alteram planos para participar
A mobilização de 2 de setembro não parte apenas de instituições municipais e partidos políticos. Algumas associações decidiram adaptar iniciativas que já tinham previstas para fazer coincidir os seus protestos com a jornada nacional de apoio a Ceuta.
É o caso da Associação de Moradores Assistente Arjona, de Sevilha, que decidiu antecipar para esta quarta-feira um protesto que estava inicialmente marcado para 3 de setembro. A alteração teve como objetivo juntar a iniciativa à concentração prevista para o mesmo dia diante da Câmara Municipal de Sevilha.
A decisão mostra como a data se tornou num ponto de convergência para diferentes movimentos da sociedade civil, que procuram aproveitar a mobilização nacional para aumentar a participação nos seus próprios atos.
A mobilização chega também a Bruxelas
A jornada de apoio a Ceuta não ficará limitada a Espanha. Também em Bruxelas estão previstas concentrações junto das instituições europeias.
O Partido Popular (PP) convocou uma concentração para as 12:00 locais de 2 de setembro, na Place du Luxembourg, junto ao Parlamento Europeu. A formação convidou as restantes forças políticas a participar no ato, apresentando-o como uma demonstração de solidariedade com Ceuta.
O Vox anunciou igualmente uma concentração no mesmo local e à mesma hora. As duas formações políticas convergem, assim, no espaço e no momento escolhidos para a mobilização na capital belga, embora as iniciativas sejam promovidas separadamente.
A presença em Bruxelas acrescenta uma dimensão europeia à jornada, transferindo para junto do Parlamento Europeu uma parte do debate sobre a situação de Ceuta e sobre a resposta política à crise que afeta a cidade autónoma.
PSOE e partidos de esquerda contestam a forma como a FEMP convocou a mobilização
Apesar do apoio à solidariedade com Ceuta, a convocatória da FEMP também provocou críticas dentro da própria federação municipalista.
Os grupos do PSOE, IU-Compromís-Comuns-Podemos, ERC e Junts na FEMP divulgaram um comunicado conjunto no qual questionaram a decisão da presidenta da organização, María José García-Pelayo, de avançar com o chamamento sem um acordo prévio dos órgãos de governo da federação.
As formações não rejeitam a necessidade de demonstrar solidariedade com Ceuta, mas contestam o processo utilizado para lançar a iniciativa. Na sua perspetiva, uma mobilização desta natureza deveria ter sido previamente discutida e aprovada por consenso dentro da estrutura municipalista.
O desacordo teve consequências concretas em algumas autarquias. Em Jaén, município governado pelo PSOE, a Câmara anunciou que não participaria na concentração, justificando a decisão com o facto de a convocatória ter sido realizada sem contar com os socialistas. Ainda assim, a autarquia manifestou apoio aos cidadãos e às instituições de Ceuta.
Também o PSOE de Castilla-La Mancha criticou a forma como a iniciativa foi promovida e defendeu a necessidade de uma declaração institucional consensual sobre a situação vivida na cidade autónoma.
Uma jornada com várias convocatórias e diferentes reivindicações
A quarta-feira, 2 de setembro, será, assim, marcada por uma mobilização de grande dimensão territorial, mas sem uma organização única nem uma mensagem política uniforme.
A FEMP promove concentrações institucionais às 20:00 locais diante das câmaras municipais; o Vox apela à participação nesses mesmos espaços com uma mensagem centrada na imigração e na defesa de Ceuta; associações de moradores organizam manifestações próprias; a FPAV e o Foro Ceuta Siglo XXI conduzem uma marcha na própria cidade autónoma; e PP e Vox levam a mobilização até Bruxelas.
Em Ceuta, a concentração principal começa às 19:00 locais, 18:00 em Lisboa, nas Muralhas Reais, seguindo depois até à Praça dos Reis. Nos restantes municípios aderentes, os atos estão previstos para as 20:00 locais, 19:00 em Lisboa, junto às câmaras municipais.
A jornada acontece num contexto em que Ceuta continua a enfrentar uma situação descrita como uma emergência humanitária e social, enquanto a crise permanece no centro do confronto político espanhol. A mobilização desta quarta-feira pretende transformar o Dia de Ceuta numa demonstração pública de apoio à cidade, mas também evidencia as profundas diferenças existentes entre partidos e organizações quanto à interpretação da crise e à resposta que deve ser adotada.
Com centenas de municípios envolvidos e manifestações previstas tanto em Ceuta como noutras cidades espanholas e em Bruxelas, o 2 de setembro transforma-se numa das maiores jornadas de mobilização em torno de Ceuta, colocando novamente a cidade autónoma no centro do debate político e social espanhol.














