O candidato a Presidente do Brasil apoiado pelo Partido Liberal, Flávio Bolsonaro, realiza domingo o seu primeiro grande ato de campanha na orla da praia de Copacabana, berço político no Rio de Janeiro.
Flávio pretende personificar a imagem do pai, Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliária, utilizando símbolos fundadores do movimento bolsonarista para mobilizar a sua base, e com desafio de conquistar o eleitorado feminino, é o que avaliam especialistas ouvidos pela Lusa.
Para a cientista política Luciana Santana, o senador de 45 anos chega competitivo à disputa, consolidado como principal nome do campo bolsonarista e segundo colocado nas sondagens de voto, embora ainda atrás do Presidente, Lula da Silva, apoiado pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
“Ele chega numa posição competitiva, mas ainda assimétrica em relação ao Lula”, afirmou a professora da Universidade Federal de Alagoas, destacando que os levantamentos mais recentes mantêm Lula na liderança.
O desafio, segundo Santana, é transformar uma base bolsonarista já consolidada numa maioria eleitoral, ampliando a coaligação social e política, além dos eleitores que já se identificam com o movimento.
A escolha de Copacabana reforça essa estratégia, avalia, já que o local se tornou um dos principais espaços de mobilização do bolsonarismo.
Luciana Santana cita ainda o facto de a campanha do candidato planear uma passagem por Juiz de Fora, cidade de Minas Gerais, onde Jair Bolsonaro sofreu um atentado em 2018.
“Dá pra ver uma tentativa bem clara de reconectar o Flávio à memória política do pai, aos símbolos fundadores do bolsonarismo”, disse Santana, para quem a campanha terá de equilibrar herança e autonomia.
Já o cientista político Alexandre Bandeira, chefe do Grupo Brasília de Consultoria Política, considera que Flávio chega ao início oficial da campanha após enfrentar “muitos ataques, muitas intempéries” e problemas internos, mas ainda como um candidato competitivo.
“Não há nenhuma dúvida de que Flávio vai personificar Bolsonaro nessa campanha eleitoral”, afirmou Bandeira, acrescentando que a questão central será saber “o quanto de Bolsonaro a população brasileira está disposta a abraçar, aderir e votar nas urnas”.
A tentativa de reproduzir a força política do pai ocorre, contudo, num cenário diferente do de 2022, quando Jair Bolsonaro era simultaneamente Presidente, candidato e principal liderança do movimento.
Para Luciana Santana, o bolsonarismo tornou-se mais institucionalizado e Flávio precisa administrar uma estrutura que envolve o PL, governadores, parlamentares, a madrasta Michelle Bolsonaro e diferentes correntes da direita.
O próprio perfil de Flávio e de Jair também é diferente, segundo a especialista, que vê no senador uma liderança mais institucionalizada e integrada à lógica partidária e parlamentar, enquanto o ex-Presidente construiu uma liderança mais personalizada e baseada no confronto direto.
“O discurso de Jair Bolsonaro é muito mais extremado, ele é muito mais ideológico, menos económico”, disse Alexandre Bandeira, defendendo que Flávio precisará falar sobre emprego, rendimento, alimentação e violência para conquistar os eleitores independentes.
Outro obstáculo está na relação com o eleitorado feminino, segmento no qual Flávio apresenta elevada rejeição, segundo as sondagens de voto, e que também esteve no centro da disputa pela escolha do candidato a vice-presidente.
Nesse sentido, os dois analistas ouvidos pela Lusa consideram que a madrasta e candidata ao Senado pelo Distrito Federal Michelle Bolsonaro terá um papel relevante na campanha de Flávio, após os dois reatarem laços depois meses de brigas.
Apesar da tensão, já foi sinalizada uma possível reconciliação. Ainda assim, Michelle avisou que a sua participação presencial na campanha do enteado será limitada.
“Michelle é provavelmente um dos ativos mais importantes pra aproximar o bolsonarismo do eleitorado feminino”, avaliou Luciana Santana, acrescentando que a relação entre os dois expôs tensões sobre a participação das mulheres no PL.
Flávio escolheu como seu ‘vice’ um nome do próprio movimento, o deputado federal Alfredo Gaspar, após fracassarem as negociações para atrair mulheres de partidos de centro como Podemos e Progressistas.
Segundo Luciana Santana, a ausência de uma coligação nacional reduz o tempo de televisão de Flávio, embora a estrutura do PL e a sua presença digital mitigue parte desse impacto.
“O problema maior de não ter partidos aliados seja menos de comunicação e mais político: coligação também significa prefeito, governador, candidato estadual, estrutura”, afirmou.
A escolha de Alfredo Gaspar também poderá ser usada pela campanha para explorar politicamente as denúncias relacionadas com o caso do Instituto Nacional do Seguro Social, já que o deputado foi relator da comissão parlamentar de inquérito sobre o tema.
Ao mesmo tempo, o ‘vice’ tornou-se alvo de uma acusação abuso sexual de uma menor, o que ele nega, para além de uma investigação sobre emendas parlamentares, segundo Luciana Santana, ampliando os flancos defensivos da candidatura.
A candidatura de Flávio vive também o impacto de controvérsias envolvendo o Banco Master e o financiamento do projeto cinematográfico “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro.
“Até agora, o Flávio preservou um núcleo eleitoral significativo apesar das controvérsias”, afirmou Luciana Santana, acrescentando que a rejeição elevada, sobretudo entre mulheres, será um indicador importante para a campanha.
Flávio também terá de disputar espaço com outros três candidatos de direita, numa fragmentação que, para os analistas políticos ouvidos pela Lusa, reduz na primeira volta a fatia de votos disponível ao candidato apoiado pelo PL.
Para Alexandre Bandeira, essas candidaturas ainda têm dificuldade em se apresentar como uma alternativa independente ao bolsonarismo, permanecendo concentradas no campo da direita e próximas de Flávio.














