Há quem defenda que, nas pistas ou nos negócios, tudo se resume a chegar primeiro. Nelson Pereira discorda. Entre uma carreira que o levou de consultor a CTO e, mais tarde, ao board da Noesis, e um hobby entre capacetes, boxes e bandeiras axadrezadas, foi consolidando uma convicção que atravessa toda a conversa: «Não vale tudo para ganhar». Dois mundos, a mesma forma de competir (e estar)
GRELHA DE PARTIDA
Nasceu na Guarda, mas não hesita quando lhe perguntam de onde é: «Digo que sou de Coimbra». A explicação está na história da própria família — o pai era militar e estava destacado na Guarda quando nasceu. Aos cinco anos, a família mudou-se para Coimbra, onde ficou a mãe, onde vive um irmão que é hoje professor universitário, e onde Nelson realizou todo o seu percurso escolar e académico. «Às vezes, o sítio onde nascemos não nos define», diz.

Foi em casa que nasceu o gosto pela velocidade que, mais tarde, o levaria às pistas. Não considera uma «paixão de família». O pai nunca teve qualquer ligação ao desporto automóvel mas reconhece que herdou dele o prazer de guiar depressa. O irmão escolheu outro caminho para a adrenalina, tirando o brevet de piloto de avião aos 16 anos. Nelson escolheu o chão e o asfalto das pistas e apaixonou-se pelo karting. Praticá-lo a sério, era outra questão. Em Coimbra praticamente não existiam condições para a modalidade, com o kartódromo mais próximo (Milagres) a ficar em Leiria, o que implicaria deslocações frequentes. Sempre deu muita importância aos estudos e queria manter um bom desempenho escolar, pelo que percebeu depressa que as duas coisas não eram compatíveis. Foi ele próprio quem decidiu abdicar, nessa altura, de uma eventual carreira no desporto automóvel e hoje.
Formou-se em Engenharia Informática na Universidade de Coimbra — «sou da área em que trabalho e considero isso uma felicidade» — e, terminado o curso, via apenas dois destinos possíveis: Lisboa ou o estrangeiro. Escolheu a capital e entrou na Optimus, no arranque da operadora que a Sonae lançava para concorrer com a Portugal Telecom/TMN e a Telecel, hoje Vodafone. Foram anos de pressão e de conquista de mercado, marcados por um espírito que o acompanharia para sempre: «havia sempre a sensação de que éramos os últimos a chegar e que tínhamos de fazer algo diferente para conquistar espaço». Seguiu-se a OniWay, projecto ambicioso de uma futura operadora de telecomunicações, mas que falharia por sucessivos adiamentos da licença da ANACOM. O projecto morreu, mas a lição sobre lidar com a frustração ficou.

«Apesar disso, estive sempre envolvido em projectos muito intensos e gosto desse ambiente», resume. «Sinto-me bem a trabalhar com objectivos exigentes, prazos definidos e lançamentos, em que não há tempo para procurar a perfeição absoluta, mas é preciso entregar um bom resultado na data prevista.»
WARM UP LAP
Depois de uma curta passagem pela consultora francesa Altran, aceitou o convite de Alexandre Rosa (o actual CEO) e Eduardo Vilaça para entrar na Noesis, então essencialmente uma empresa de IT Staffing. Começou a trabalhar como consultor na Vodafone em projectos de Software Change and Configuration Management —hoje DevOps — mas rapidamente se envolveu nas discussões estratégicas sobre o futuro da casa. Defendeu, contra parte dos accionistas, a aposta na qualidade de software, área ainda pouco valorizada em Portugal apesar de já consolidada lá fora. «Entrámos no mercado como underdogs», recorda, numa altura em que a Novabase e multinacionais como a Accenture dominavam o sector.

A validação chegou ao fim de três ou quatro anos de crescimento gradual, quando a empresa ganhou o concurso da ZON para os serviços de qualidade de software, batendo concorrentes de maior dimensão. Para Nelson, a explicação está na especialização: «tínhamos equipas dedicadas exclusivamente à qualidade de software», ao contrário de rivais que distribuíam os mesmos profissionais por várias frentes. É uma convicção que recusa qualquer modelo generalista: «nunca acreditei que alguém que muda constantemente de área consiga tornar-se verdadeiramente sénior».
ZONA DE ULTRAPASSAGEM
A primeira volta num kart aconteceu em miúdo em Tortosendo, perto da Covilhã, «uma pista muito pequena (que ainda existe!), mas percebi logo que adorava aquilo». Mais tarde, já em Lisboa, surgiu o primeiro campeonato a sério, organizado internamente na Optimus pelo então director de IT Rui Paiva (mais tarde, fundador da WeDo Technologies), com provas em Évora, Palmela e Leiria. Terminou em terceiro lugar, «destemido, talvez até demasiado», entrando nas curvas sempre no limite, mais entusiasmo do que técnica. A técnica viria depois, tal como, na Noesis, a especialização viria depois da intuição inicial.

Seguiu-se o K4A (Karting for All), campeonato mais exigente. A estreia foi modesta e, à terceira prova, um forte saída de pista partiu-lhe três costelas, afastando-o da competição durante três meses. Chegou a pensar se valeria a pena regressar. Voltou, e fechou a época no top 10. Pouco depois surgiu o SA250, categoria mais potente, disputada também por equipas: a da Noesis, composta por colegas da empresa, viria a conquistar o título por equipas logo no primeiro ano. Na temporada seguinte, já em karts de 42 cavalos capazes de atingir 160 km/h, viveu aquela que descreve como uma das suas épocas mais bem-sucedidas, vencendo mais de metade das corridas.
«Quando estou em pista consigo desligar completamente das preocupações do trabalho», explica, mas recusa qualquer ideia de competição sem regras: numa temporada, recebeu o prémio de Gentleman Driver pelo respeito demonstrado em pista, e recorda um episódio em que um toque de corrida, filmado e mal interpretado nas redes sociais, quase manchou a amizade com outro piloto — só desfeito quando este próprio veio a público esclarecer que não tinha existido qualquer intenção. «Nunca vale a pena passar por cima das pessoas para atingir um objectivo», resume.
PITSTOP

A competitividade, no seu caso, também se aprende em casa. Nelson conta, com um sorriso, o dia em que levou o filho a um treino de karting e, ao perceber que o rapaz se aproximava rapidamente dos seus próprios tempos, «puxou pela experiência» para não se deixar ultrapassar. Uma brincadeira entre pai e filho que revela, ainda assim, até onde vai o seu instinto competitivo: «se alguém me pode ganhar, quero obrigá-lo a fazê-lo pelo mérito». É a mesma velocidade herdada do pai, agora transmitida ao filho, e a mesma ética que insiste em levar para dentro do kart: competir com intensidade, mas nunca a qualquer preço.
BANDEIRA AXADREZADA
Ao longo de quase três décadas de casa, a Noesis cresceu de empresa de colocação de recursos a player europeu de tecnologia. Às áreas de qualidade de software juntaram-se o desenvolvimento low-code através da OutSystems, a Data Analytics e Inteligência Artificial, as Enterprise Solutions e o Middleware. Em 2020, a empresa foi vendida na totalidade ao grupo espanhol Altia, decisão tomada para ultrapassar as limitações de financiamento do mercado português, preservando a gestão e a identidade portuguesas. Seguiu-se a internacionalização: Reino Unido, Irlanda, Holanda, Suécia, Estados Unidos da América, Brasil e, mais recentemente, Emirados Árabes Unidos e Omã. Sobre o seu próprio percurso, Nelson diz que «nunca houve um plano para chegar a director, CTO ou administrador. Os cargos foram surgindo naturalmente, de uma forma orgânica».
A visita de um grupo de estudantes de uma universidade sueca foi motivo para Nelson lhes contar o seu primeiro campeonato a sério, quando terminou em 22.º lugar entre 25 pilotos, e como decidiu estudar em vez de desanimar — vídeos, formações online, telemetria. «Há uma técnica, e essa técnica aprende-se», diz, e é exactamente essa convicção que aplica hoje à empresa, ao lembrar que, há vinte anos, seria impensável a Noesis competir de igual para igual com a Accenture ou a Deloitte. Hoje já o faz.

O futuro que ambiciona para a Noesis passa por um crescimento sustentado e diversificado. Sobre a Inteligência Artificial, Nelson não hesita: «continuo a acreditar que o conhecimento e a capacidade humana são insubstituíveis». Não vê a tecnologia como uma ameaça, mas como uma ferramenta: uma tarefa que antes demorava 40 horas e passa a demorar 20 é, para si, «uma excelente notícia». O verdadeiro risco está nas empresas cujo modelo de negócio assenta apenas na venda de horas de trabalho, e não na especialização e no conhecimento.
É essa mesma lógica que aplica à escassez de talento, outro dos temas que mais o ocupa. Em vez de a encarar como um travão ao desenvolvimento da empresa, a Noesis respondeu com a internacionalização, criando Centros de Excelência no Brasil, um país com mais de 200 milhões de habitantes e uma escala impossível de replicar em Portugal, na Irlanda e nas várias regiões portuguesas onde está presente. «Nenhum país conseguirá responder sozinho às necessidades do mercado global», resume, defendendo que a colaboração internacional, tal como a partilha de conhecimento dentro das equipas, faz parte do futuro da empresa. A ambição para os próximos anos passa por atingir os 100 milhões de euros de facturação, sustentada precisamente nessa diversificação geográfica dos mercados e do talento.
Uma pergunta final. Qual o piloto preferido? A resposta surge rapidamente e sem hesitações: Ayrton Senna, «sempre foi e continuará a ser». Como o piloto brasileiro, Nelson Pereira acredita na busca da excelência e na importância do detalhe, convicto de que, na vida como na competição, a forma como se chega à meta é tão importante como o resultado.

















