«30 quilómetros com as pernas, 10 com a cabeça, dois com o coração e 200 [195] metros com as lágrimas nos olhos.» A metáfora usada para definir os diferentes estágios da Maratona foi presença constante na conversa com Basílio Simões.

Percorremos o passado, o presente e as perspectivas futuras de um dos pioneiros da engenharia física em Portugal, enquanto revelamos também a face menos visível (do espelho) de um dos primeiros business angels do país que encara a gestão e a vida como uma maratona, onde o segredo não está apenas na velocidade, mas na capacidade de manter o foco até cruzar a meta.
PARTIDA
O percurso de José Basílio Simões começa em Vizela, onde nasceu, na altura ainda concelho de Guimarães. Antes «daquelas lutas» que emanciparam a cidade, recorda. Mas foi em Coimbra, para onde se mudou aos 11 anos, que o seu carácter se moldou. Descreve a cidade dos estudantes como um local de «tranquilidade e qualidade de vida» ímpares, onde conseguiu equilibrar a liderança de projectos de escala global com uma existência familiar plena (é pai de quatro filhos).
Estudou Engenharia Física, um curso que na altura era uma novidade absoluta. Sempre teve uma aversão ao isolamento da investigação académica pura, como ele próprio explica sobre a sua motivação, «gostava de Física, mas gostava essencialmente de Engenharia, de fazer coisas». Licenciou-se em Engenharia Física e doutorou-se em Física Tecnológica. Posteriormente, foi professor da Universidade de Coimbra durante mais de 25 anos.
Em 1990, foi um dos co-fundadores da ISA (Intelligent Sensing Anywhere). Num tempo em que a internet era uma curiosidade de laboratório e a telemetria parecia ficção científica, o engenheiro e um grupo de amigos criaram uma empresa focada no controlo remoto e na monitorização, que se tornou um caso de sucesso mundial. A ISA especializou-se na gestão de activos críticos, monitorizando reservatórios de gás e consumos para gigantes como a BP, Shell, Repsol ou Total. A tecnologia, desenvolvida em Coimbra, passou também a gerir não apenas fluxos de petróleo e gás, mas também sinais vitais na saúde e a fazer gestão de recursos hídricos.

O reconhecimento internacional chegou em 2012, quando entrou para a bolsa (NYSE Alternext), tornando-se a primeira PME nacional a alcançar tal feito. No entanto, para um verdadeiro empreendedor como ele, o sucesso de um ciclo é apenas o prólogo do seguinte. Após a venda do negócio de oil and gas a um fundo americano, iniciou um processo de spin-out que daria origem a um ecossistema de novas empresas.
«Uma vez empreendedor, para sempre empreendedor». Esta premissa levou-o a fundar a VPS (Virtual Power Solutions) em 2014, focada na eficiência energética de edifícios, e a Energia Simples em 2015, que chegou a ser a maior comercializadora independente de energia em Portugal. Mas foi a evolução natural destes projectos que culminou no grupo Cleanwatts e, mais propriamente, na Cleanwatts Digital. A missão da empresa era clara e ambiciosa: levar energia renovável aos clientes como um serviço, com zero investimento inicial. Basílio Simões e a sua equipa foram pioneiros ao criar, em 2021, a primeira comunidade de energia em Portugal, em Miranda do Douro. Hoje, a empresa funciona como o «cérebro tecnológico» do grupo, desenvolvendo sistemas operativos baseados em Inteligência Artificial (IA) para gerir activos complexos, desde centrais solares a carregadores de veículos eléctricos.
Pralelamente à gestão directa, assumiu o papel de Business Angel, integrando a Investors Portugal, ajudando outros empreendedores a «voar». Investindo em projectos que envolvam Big Data, IA ou tecnologia aplicada, está envolvido em «abrir portas à distância» (Homeit) ou «cacifos inteligentes» (Bloq.it).
30 KM
Se o trabalho na Cleanwatts Digital exige visão de futuro, a corrida, o outro lado do espelho de Basílio Simões, exige uma disciplina quase monástica. Recorda-se de, muito jovem, contar passos num pinhal para simular distâncias, inspirado pela vitória de Carlos Lopes nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984 (lembra-se de ser acordado pelo «meu avô a dizer, às tantas horas da madrugada, que o Carlos Lopes tinha ganho»). A corrida «a sério» chegou após os 50 anos. Enquanto esperava que os filhos mais novos terminassem os treinos de atletismo, começou também a dar voltas ao campo. O que era um passatempo transformou-se numa paixão avassaladora. Começou com uma prova de 10 km na São Silvestre de Coimbra e transformou-se, rapidamente, num vício saudável. Hoje, com 12 maratonas no currículo, está prestes a completar o prestigiado circuito das Marathon Majors, faltando-lhe apenas Londres para fechar o ciclo.
A ligação entre as sapatilhas e a gestão é, para Basílio Simões, absoluta. «A disciplina não é só dos ritmos, é da alimentação, do foco. Isso tudo, na minha vida empresarial, é uma Maratona», diz. A preparação para uma prova destas exige cerca de 800 quilómetros de treino em três meses. É no asfalto, durante os treinos longos, que resolve problemas complexos e, por exemplo, foi aí que nasceu o projeto «100 Aldeias», focado em combater a pobreza energética no interior de Portugal. Chega a dizer que «durante muito tempo, o projecto foi mais conhecido que a própria Cleanwatts Digital.»
Basílio Simões admite, com um riso sentido, que «o trabalho atrapalha muito o treino». Conciliar reuniões e a gestão de um grupo em expansão com os treinos exige sacrifícios. No entanto, é exactamente essa disciplina que valoriza. A corrida é hoje uma ferramenta de gestão de stress e um laboratório de ideias. « É uma forma de reduzir o stress», diz, admitindo que «há muitos problemas que resolvo a correr».

Para o engenheiro, a fronteira entre o atleta e o gestor é ténue. Vê na Maratona a metáfora perfeita para a vida empresarial. «Exige disciplina, foco e resiliência», afirma. Tal como nos negócios, é a mente que comanda quando o corpo quer desistir. É a resiliência mental que faz a diferença, aplicando esta lógica na sua liderança e acreditando na consistência. Como ele afirma: «Não estamos aqui para sucessos episódicos. É preciso ter essa capacidade de sobreviver a muitos [altos e baixos]».
A disciplina da corrida reflecte-se também na gestão de tempo e de prioridades. Assim como num plano de treinos não se pode ignorar a recuperação, na gestão de uma empresa não se pode negligenciar a saúde da organização. Privilegia a criação de bom ambiente e a confiança mútua. «Ninguém consegue nada sozinho», afirma, destacando a importância de se rodear de pessoas melhores do que ele próprio. Esta filosofia de partilha permitiu-lhe reter talentos chave ao longo de décadas, com colaboradores que saltam de um projeto para outro com ele.
40 KM
Para os próximos tempos, os objectivos são claros. No plano pessoal, a meta está em Londres e Sidney (já considerada por muitos como a sétima prova dos Majors). No lado profissional, o foco é «desromper» o mercado da energia, promovendo um modelo descentralizado de micro-redes e armazenamento por baterias, permitindo que a energia seja mais barata, limpa e resiliente. Fiel à sua filosofia de que «nós somos aquilo que partilhamos», José Basílio Simões continua a apostar na criação de equipas fortes, pois sabe que, tanto na estrada como nos negócios, ninguém alcança a meta sozinho.
42 KM ATÉ À META
Quando faltam um pouco menos de 200 metros para o final da entrevista, e num último sprint, deixa escapar um desejo, socorrendo-se do exemplo de Inglaterra.
O mercado inglês tornou‑se «o mais desenvolvido em termos de energia», impulsionado por anos de domínio dos Big Six e pela ascensão de pequenos challengers que, através de «energias renováveis e tecnologia”, começaram a desafiar os incumbentes. A Octopus Energy, que «chegou a número cinco, comprou o número dois e hoje é líder», ou a OVO Energy, mostram como inovação, monitorização e melhor serviço ao cliente podem transformar um sector inteiro.
Tal como aconteceu no Reino Unido, também aqui se deu um passo decisivo com o spin‑out da Cleanwatts Digital — «um movimento exactamente idêntico» ao que estas empresas pioneiras fizeram com as suas plataformas tecnológicas. E é essa trajectória que Basílio Simões deseja ver ganhar escala: “O que eu gostava nos próximos cinco anos era mostrar que essa transição acontecia aqui também.»

A visão é clara: um mercado energético irreconhecível face ao passado, construído «de baixo para cima», com produção local, armazenamento distribuído e redes interligadas que tornam o sistema «mais harmonioso, mais estável e mais resiliente». Um futuro onde a energia é «mais barata e mais limpa», suportado por tecnologia acessível, regulação favorável e uma urgência ambiental que já não permite esperar.
«Gostava de ver isto acontecer.» Em Portugal, em Espanha, e em todo o mercado ibérico — uma verdadeira revolução energética que finalmente coloca a inovação ao serviço das pessoas.
Ao reflectir sobre o ritmo acelerado do mundo moderno e do mercado energético, Basílio deixa um aviso: «Quem ficar a descansar vai ser ultrapassado». Assim, seja a planear a próxima maratona ou a desenhar a arquitectura de uma nova micro-rede inteligente, o engenheiro físico «que gosta de fazer coisas» mantém a convicção de que o prazer (e segredo) está na jornada, onde nos devemos «ir divertindo pelo caminho», mesmo que este percurso possa ter pouco mais de 42 quilómetros e compreenda mais de 800 de treino.
E, assim, aos 42.195 metros, cruzamos a meta.
Este artigo foi publicado na edição de Março (n.º 240) da Executive Digest.






