Do outro lado do espelho: o que um Carocha, uma prancha de skate e Portugal ensinaram a Felix Krüger sobre liderança

Descubra (d)o outro lado do espelho de Felix Krüger, CEO da Volkswagen Group Digital Solutions Portugal

João Silva Gil

Existem líderes que chegam à gestão através de um percurso linear, desenhado ao pormenor. Mas esse não é o caso do nosso convidado. O líder da Volkswagen Group Digital Solutions (VWGDS) Portugal fala de liderança, tecnologia e família com o mesmo entusiasmo com que descreve uma manobra de skate, um Carocha desmontado numa garagem ou uma peça de madeira acabada de cortar.

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CURIOSIDADE

Felix Krüger nasceu na Suábia, no Sudoeste da Alemanha, «uma região muito focada em engenharia, manufactura e precisão. Crescemos com isso à nossa volta.» A paixão pelos automóveis nasceu cedo. Cresceu a ver protótipos da Porsche ou Mercedes-Benz a circularem nas estradas da região e a tentar adivinhar os modelos escondidos sob a pintura de camuflagem. Para além dos carros, recorda da infância a curiosidade que tinha sobre tudo o que o rodeava. «Quando um rádio avariava, desmontava-o logo para perceber como funcionava. Hoje penso que tive sorte em sobreviver», brinca. «Não fazia ideia do que era voltagem ou electricidade.»

EMPATIA

Aos 15 anos, a vida deu uma volta inesperada. O pai, professor, aceitou um convite para dar aulas na Namíbia. Felix, o filho mais novo, foi com ele. A mãe juntou-se mais tarde, mas o irmão e a irmã ficaram na Alemanha. Pela primeira vez, a família separava-se. «Foi provavelmente a maior mudança da minha vida.» Durante três anos viveu uma realidade completamente diferente. O basquetebol em terras africanas aproximou-o de realidades muito distintas da sua. «Tinha amigos dos bairros de lata que me convidavam para suas casas e partilhavam comigo o pouco que tinham.» Uma experiência que continua a influenciar a sua forma de encarar os desafios pois «ainda hoje penso nesses momentos para colocar as coisas em perspectiva.» Num país ainda marcado pelo pós-apartheid, aprendeu lições que continua a transportar para a vida profissional. «Vi pessoas com muito menos do que nós e, ainda assim, muitas vezes mais felizes.» E foi também aí que desenvolveu uma forte consciência da importância da empatia. «Percebi muito cedo que não podemos olhar para as pessoas apenas através do dinheiro, do estatuto ou da posição social.»

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Felix Krürger, CEO do Volkswagen Group Digital Solutions
Fotografia: Paulo Alexandrino

DESAFIO

O percurso académico esteve longe de ser linear. Quando regressou de África, as diferenças linguísticas e curriculares obrigaram-no a repetir dois anos. «Foi um desastre», reconhece. Optou depois pelo serviço social em vez do militar, trabalhando com jovens imigrantes num centro juvenil. Seguiu-se um modelo de ensino dual, que alternava períodos na universidade e na empresa. A experiência levou-o entre Heidenheim, uma pequena cidade alemã, e Seattle, nos Estados Unidos. «Durante uma parte do ano estava numa cidade minúscula na Alemanha. Na outra estava em Seattle a trabalhar numa tecnológica.» Ainda antes de terminar o curso surgiu uma oportunidade numa consultora. Aceitou o desafio, escreveu a tese sobre o projecto e acabou contratado em 2006. Aos 28 anos já liderava equipas. Apesar da rápida progressão, sabia que não queria ficar para sempre em consultoria. «É excelente para aprender porque experimentamos muitos sectores diferentes. Mas eu sabia que, quando chegasse a fase da família, queria passar para o outro lado da mesa.» Desta forma, seguiram-se cargos de liderança no universo Mercedes-Benz e, mais tarde, na MAN, onde assumiu funções de vice-presidente de Serviços Digitais. Até que, em 2024, recebeu um telefonema que mudaria novamente o rumo da sua vida.

PERTENÇA

Estava de férias quando recebeu uma chamada. «Queres ir para Portugal?» Nunca tinha visitado o país. Mas a resposta surgiu rapidamente. «A minha mulher disse logo que sim.» A missão era liderar a VWGDS Portugal e reforçar a integração da operação portuguesa na estrutura global do grupo. O país acabou por o conquistar. «Nunca me senti tão em casa como aqui.» Destaca sobretudo a dimensão humana dos portugueses e a disponibilidade para ajudar. E confessa que «às vezes os portugueses não percebem o quão especial é a vossa cultura.»

FAMÍLIA

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A família continua a ser o centro da vida de Felix. Depois de uma vida passada entre diferentes países, aprendeu que «casa» não é um lugar, mas sim as pessoas que o acompanham. «Para mim, casa é onde estão a minha mulher e os meus filhos.» Cresceu numa família muito unida. Filho de um professor e de uma profissional ligada a uma organização de combate ao cancro, viu também os irmãos seguirem percursos distintos — um na construção civil, outra na medicina. Os pais mudaram-se recentemente para Portugal para estarem mais próximos dele, numa fase em que a mãe enfrenta problemas de saúde. «Eles cuidaram de mim a vida toda. Agora sou eu que cuido deles.» É na família que encontra a estabilidade de que precisa. «É importante saber que existe sempre um lugar onde podemos cair e alguém nos ajuda a levantar.»

Fotografia: Paulo Alexandrino
Fotografia: Paulo Alexandrino

 

 

 

 

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E DO OUTRO LADO DO ESPELHO?

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A paixão pelos carros clássicos começou cedo. Aos 18 anos comprou um Volkswagen Carocha e começou imediatamente a desmontá-lo. «O problema é que depois percebi que restaurar um carro custa muito dinheiro.» O projecto acabou por ficar parado na garagem do pai durante mais de uma década. Mas, mais do que os carros, sempre lhe interessou perceber o que se esconde por baixo do capot. «Os carros modernos são muito software. Os clássicos ainda são mecânica pura.»

Outra paixão é a carpintaria, talvez por representar o oposto do mundo digital em que trabalha. «Na madeira, se cortas mal, está cortado. Não há volta a dar. Aqui tenho algo físico nas mãos. Vejo e sinto o resultado.»

Mas é no skate que encontra a metáfora perfeita para a vida e para a liderança. Descobriu o desporto na Namíbia e praticou-o durante anos, antes de fazer uma longa pausa. Recentemente, voltou a subir para a prancha. «O skate ensina-nos a falhar. Vais cair vezes sem conta, mas não consegues aprender sem isso.» Uma filosofia que transporta para o mundo empresarial. «As pessoas têm medo de errar. Mas o importante não é evitar o erro, é aprender com ele.» Hoje partilha essa paixão com a filha. «Ela cai, chora, fica zangada comigo… mas depois quer tentar outra vez.»

CONFIANÇA

A Volkswagen Group Digital Solutions é um dos principais hubs tecnológicos do Grupo alemão, com operações em Portugal, Alemanha e Índia, reunindo mais de seis mil colaboradores. A partir de Lisboa e do Porto, desenvolve software, soluções de Inteligência Artificial e plataformas digitais para apoiar a transformação da indústria automóvel. Mas Felix prefere falar da empresa como uma equipa e não como uma estrutura hierárquica. «As pessoas são a empresa. Não o contrário.» Defende uma liderança baseada na confiança, na autonomia e na capacidade de experimentar.

Felix Krürger, CEO da Volkswagen Group Digital Solutions
Fotografia: Paulo Alexandrino

«Só existe inovação verdadeira quando damos espaço às pessoas para tentarem.» E isso implica aceitar o erro. «Se as pessoas têm medo de errar, deixam de inovar.» Ao longo da carreira habituou-se a construir pontes entre culturas diferentes. «O meu papel foi muitas vezes criar pontes entre a eficiência alemã e a criatividade portuguesa.» Hoje considera Portugal como um dos grandes centros de talento tecnológico da Europa. «Muita gente pensa que as empresas vêm para cá apenas por custos. Isso é um erro enorme. O verdadeiro valor está no talento.»

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LEGADO

Quando fala de legado, não refere núme­ros nem resultados financeiros. Fala de cultura. «Gostava que a empresa manti­vesse sempre a curiosidade, a agilidade e o espírito de equipa.» Acredita que muitas organizações crescem e acabam por perder precisamente aquilo que as tornou especiais. «O perigo começa quando as empresas se acomodam.» Por isso continua a insistir na importância de aprender constantemente. «Tenho 46 anos e continuo a sentir que preciso de aprender todos os dias.»

No fundo, é a mesma curiosidade que acompanha Felix Krüger desde criança: a vontade de perceber como as coisas funcionam, seja num rádio desmontado, num carro clássico, numa peça de ma­deira ou numa nova manobra de skate.

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