As embalagens que encontramos diariamente nos supermercados, restaurantes, hotéis e compras online vão mudar profundamente nos próximos anos. A União Europeia começa esta quarta-feira a aplicar um novo regulamento que introduzirá gradualmente regras destinadas a reduzir resíduos, aumentar a reciclagem e promover a reutilização.
As primeiras alterações serão discretas, mas o calendário culminará em 2030 com mudanças facilmente reconhecíveis pelos consumidores: fruta e legumes em pequenas quantidades deixarão de poder ser vendidos em embalagens de plástico, desaparecerão várias embalagens individuais nos restaurantes e os hotéis deixarão de disponibilizar automaticamente os pequenos frascos descartáveis de champô, gel ou sabonete.
Segundo o ’20 Minutos’, trata-se de uma transformação que fabricantes e distribuidores descrevem como uma das maiores mudanças na gestão das embalagens das últimas três décadas.
As regras aplicam-se em toda a União Europeia, incluindo Portugal.
Primeiro chegam novos rótulos
Um dos primeiros sinais visíveis será uma nova rotulagem das embalagens, destinada a facilitar a identificação dos diferentes materiais.
Está prevista uma gama que poderá chegar a 24 rótulos diferentes, cuja versão definitiva deverá ficar concluída até ao final deste ano.
Até dentro do mesmo material existirão distinções. No vidro, por exemplo, poderão existir identificações diferentes para vidro incolor, colorido, verde ou âmbar.
A mudança chegará depois aos próprios recipientes de recolha seletiva. A partir do próximo ano, estes deverão apresentar os mesmos símbolos utilizados nas embalagens, permitindo ao consumidor perceber com maior precisão onde deve colocar cada material.
O sistema poderá, contudo, trazer alguma confusão. Fontes do setor citadas pelo 20 Minutos alertam que não existirão tantos contentores como categorias de materiais, pelo que vários símbolos terão de aparecer associados ao mesmo recipiente.
Embalagens terão de ser recicláveis
Outra mudança começa já esta quarta-feira, embora seja menos percetível para quem compra os produtos.
As embalagens colocadas no mercado passam a estar sujeitas ao princípio de que devem ser recicláveis, embora os critérios e metas concretos sejam progressivamente definidos e reforçados até 2030.
O regulamento introduz também a chamada “responsabilidade alargada do produtor”, baseada no princípio do poluidor-pagador.
Na prática, pretende-se que quem coloca uma embalagem no mercado assuma responsabilidades ao longo de todo o seu ciclo de vida, desde a escolha dos materiais até à recolha, reciclagem ou reutilização.
Para a indústria, a dimensão da transformação é significativa e existem ainda dúvidas que terão de ser esclarecidas pela Comissão Europeia nos próximos meses.
Em 2027 poderá levar o seu recipiente para buscar comida
Para os consumidores, as mudanças começam a tornar-se muito mais visíveis a partir de 2027.
Nesse ano, hotéis, restaurantes e cafés terão de permitir que os clientes levem os seus próprios recipientes para transportar comida preparada no estabelecimento.
Um ano depois, em 2028, esses estabelecimentos terão também de disponibilizar uma opção em recipiente reutilizável para quem pretenda levar a refeição.
Também em 2028 está prevista outra alteração curiosa: os saquinhos de chá e de outras infusões terão de ser compostáveis.
O setor aguarda ainda esclarecimentos sobre se a mesma obrigação será aplicada às cápsulas de café.
2030 traz as maiores mudanças
É em 2030 que muitas das embalagens atualmente banais poderão começar a desaparecer.
Os supermercados deixarão de poder vender fruta e legumes com peso inferior a 1,5 quilos embalados em plástico, dentro das condições previstas pelo regulamento.
Também serão eliminados os anéis de plástico utilizados para agrupar determinadas embalagens de bebidas.
Os sacos de plástico extremamente finos, com menos de 15 mícrones, deixarão igualmente de poder ser distribuídos, salvo determinadas exceções relacionadas com higiene alimentar ou materiais compostáveis.
Adeus às saquetas individuais nos restaurantes
As mudanças chegarão igualmente às mesas dos restaurantes.
Em 2030 serão proibidas várias embalagens individuais destinadas ao consumo dentro dos estabelecimentos.
A medida deverá atingir as pequenas doses de molhos, açúcar, sal, leite e outros condimentos que atualmente são colocadas nas mesas ou entregues juntamente com as refeições.
Existem, contudo, questões ainda por esclarecer. Uma delas é o azeite, uma vez que outras regras europeias já tinham promovido a utilização de recipientes individuais ou invioláveis em determinadas circunstâncias.
E os pequenos champôs dos hotéis?
Também os tradicionais pequenos frascos de champô, gel ou sabonete disponibilizados nos quartos de hotel serão afetados.
A partir de 2030, os hotéis deixarão de poder fornecê-los automaticamente como artigos de cortesia de utilização única.
O regulamento admite, contudo, que possam ser disponibilizados quando forem expressamente pedidos pelo hóspede.
A mudança deverá favorecer alternativas reutilizáveis, como os dispensadores que já se encontram em muitos estabelecimentos.
Caixas gigantes nas compras online também ficam limitadas
A UE quer ainda combater outra situação familiar a muitos consumidores: receber uma caixa enorme para transportar um produto muito mais pequeno.
A partir de 2030, o espaço vazio dentro de determinadas embalagens não poderá representar mais de 50% da sua capacidade.
O objetivo é reduzir a quantidade de cartão e outros materiais utilizados no comércio eletrónico e no transporte de mercadorias.
Uma transformação que ainda levanta dúvidas
Para fabricantes e distribuidores, adaptar-se às novas regras será um processo complexo.
Uma das dúvidas prende-se com a definição de quem é efetivamente responsável por determinada embalagem durante todo o seu ciclo de vida, sobretudo no caso das marcas próprias dos supermercados.
O setor manifesta também preocupação com os custos das embalagens reutilizáveis e com a disponibilidade de plástico reciclado suficiente para cumprir as futuras exigências europeias.
Já a Greenpeace considera que Bruxelas ficou aquém do necessário. A organização ambiental classifica o regulamento como uma “oportunidade perdida” e considera insuficientes as metas previstas para a redução dos plásticos.
Apesar das críticas e das questões ainda por resolver, o calendário está traçado. O regulamento começa a produzir efeitos esta quarta-feira e irá progressivamente alterar a forma como os produtos são embalados, vendidos, transportados e descartados em toda a União Europeia.
Para os consumidores, a transformação poderá parecer lenta. Mas, até 2030, várias coisas hoje absolutamente banais — da saqueta de açúcar no café ao pequeno frasco de champô no hotel ou ao saco de fruta envolvido em plástico no supermercado — poderão já pertencer ao passado.


















