Piscinas cheias, escorregas aquáticos junto ao mar, pessoas em boias, jet skis, jovens a jogar voleibol e praias lotadas. As imagens divulgadas pela televisão estatal da Coreia do Norte poderiam parecer pertencer a um destino turístico do Mediterrâneo, mas foram gravadas em Wonsan, no grande resort que Kim Jong-un quer transformar numa montra turística do país.
Inaugurada em 2025, a zona turística de Wonsan-Kalma foi concebida para receber cerca de 20 mil hóspedes e inclui hotéis, um parque aquático e aproximadamente quatro quilómetros de costa.
Segundo o ’20 Minutos’, que recupera agora imagens transmitidas pela televisão estatal ‘KCTV’, milhares de pessoas foram mostradas a aproveitar as instalações durante o verão, num cenário cuidadosamente apresentado pelas autoridades como um destino de férias moderno e sofisticado.
E há uma curiosidade na origem do projeto: uma das inspirações para o desenvolvimento turístico da região terá sido Benidorm, em Espanha.
Uma “Benidorm” na Coreia do Norte
Wonsan, cidade portuária e capital da província de Kangwon, tem uma ligação pessoal a Kim Jong-un. O líder passou naquela região parte da infância e vários períodos de verão, e a zona é tradicionalmente utilizada como destino de férias pela elite do país.
Mas nem sempre as praias estiveram associadas a escorregas e turistas.
A região também serviu de cenário a exercícios militares, incluindo operações com tanques e unidades de artilharia posicionados na areia e a disparar em direção ao mar.
Nos últimos anos, Pyongyang procurou dar à zona uma imagem completamente diferente.
O objetivo passou a ser transformar Wonsan num grande destino turístico de praia, com hotéis, espaços de lazer e infraestruturas capazes de receber milhares de visitantes.
Segundo a informação citada pelo 20 Minutos, antes do início da construção, em 2017, uma delegação de responsáveis políticos e arquitetos da Coreia do Norte deslocou-se a Benidorm para conhecer o modelo turístico da cidade espanhola e estudar elementos que poderiam ser aplicados em Wonsan.
Hotéis, parque aquático e quatro quilómetros de praia
O resultado é uma zona turística de grandes dimensões junto ao mar.
As imagens transmitidas pela KCTV mostram piscinas com grande afluência, escorregas aquáticos, praias cheias, pessoas em boias e visitantes a andar de jet ski.
O complexo inclui também vários hotéis e estende-se ao longo de cerca de quatro quilómetros de litoral.
Pyongyang apresenta Wonsan-Kalma como um destino turístico de primeira classe e uma demonstração da capacidade do país para desenvolver grandes infraestruturas de lazer.
Mas o acesso de turistas estrangeiros continua limitado.
Rússia e China na mira do turismo
A Coreia do Norte tem dado alguns sinais de que pretende utilizar o resort também para aprofundar relações com os países que lhe são politicamente mais próximos.
Turistas russos já visitaram a região e a infraestrutura de transportes foi reforçada para facilitar o acesso ao complexo.
Foi construída uma estação ferroviária turística destinada especificamente a servir Wonsan-Kalma, ligando a zona turística e as praias ao aeroporto.
Segundo a agência estatal KCNA, citada pelo 20 Minutos, a estação dispõe de salas de espera, balcões de informação e outras instalações concebidas para aumentar o conforto dos visitantes.
A China poderá constituir outro mercado importante.
As ligações aéreas e ferroviárias entre os dois países foram restabelecidas este ano, depois de mais de seis anos de suspensão, e uma delegação de alto nível do Partido Comunista Chinês visitou Wonsan em julho acompanhada por Kim Jong-un.
Analistas citados pelo Korea Times consideram que a melhoria das infraestruturas poderá ser um sinal de preparação para uma abertura turística mais ampla, embora o resort continue longe de funcionar como um destino internacional convencional.
Uma montra de luxo num dos países mais fechados do mundo
É precisamente esse contraste que torna Wonsan-Kalma particularmente significativo.
A Coreia do Norte procura apresentar através do resort uma imagem de modernidade, lazer e prosperidade, recorrendo a hotéis, praias e grandes instalações recreativas como montra para o exterior.
Essa imagem contrasta, porém, com as denúncias recorrentes sobre as condições laborais existentes no país.
Organizações internacionais, incluindo as Nações Unidas, têm documentado a utilização de sistemas de trabalho forçado na Coreia do Norte. O 20 Minutos recorda que as chamadas “brigadas de choque”, mobilizadas para grandes projetos de construção, têm sido associadas a condições precárias, jornadas prolongadas e remunerações muito reduzidas.
Wonsan-Kalma representa, assim, duas imagens muito diferentes da Coreia do Norte.
Para Pyongyang, é uma demonstração de desenvolvimento e uma possível porta para atrair visitantes estrangeiros. Para quem olha de fora, é também um dos exemplos mais curiosos da estratégia de Kim Jong-un: construir um gigantesco destino de férias num dos países mais isolados do planeta — tendo como uma das inspirações uma das capitais do turismo de massas espanhol.



















