A crescente escassez de mão de obra na Rússia está a obrigar várias regiões a procurar trabalhadores estrangeiros para responder às necessidades de diferentes setores da economia. No entanto, um autarca russo veio agora admitir que nem todos os países estão disponíveis para aceitar as condições oferecidas. O presidente da câmara de Oremburgo, cidade localizada nos Urais, afirmou que os trabalhadores da Coreia do Norte recusam deslocar-se para a Rússia por considerarem demasiado baixo o salário mensal de cerca de 55 mil rublos, o equivalente a aproximadamente 630 euros. As declarações surgem numa altura em que Moscovo continua a recorrer a trabalhadores estrangeiros para colmatar a falta de mão de obra agravada pela guerra na Ucrânia e pelas alterações demográficas registadas nos últimos anos.
Segundo o El Español, Albert Yumadilov explicou que a autarquia tentou recorrer a trabalhadores norte-coreanos, mas que estes não aceitaram as condições salariais oferecidas. “Os trabalhadores da Coreia do Norte não aceitam um salário de 55 mil rublos (630 euros). Lá, os salários são duas ou três vezes superiores”, afirmou numa entrevista ao portal russo Mediazona. Apesar disso, o autarca elogiou a produtividade dos cidadãos norte-coreanos, descrevendo-os como trabalhadores extremamente eficientes. “Claro que são mais eficientes, vi-o com os meus próprios olhos, são autênticos robôs. Mas simplesmente não podemos pagar esses salários”, declarou. Face a esta situação, o município optou por contratar 31 trabalhadores oriundos do Senegal para desempenharem funções ligadas à limpeza urbana e aos serviços municipais. Os primeiros dez chegaram em abril e está prevista a chegada de mais quatro trabalhadores nas próximas semanas. Yumadilov mostrou-se satisfeito com os resultados, afirmando que os novos funcionários trabalham inclusivamente aos sábados e domingos, algo que, segundo disse, não acontecia anteriormente.
O responsável municipal acrescentou ainda que algumas regiões russas mantêm acordos específicos com a Coreia do Norte para o fornecimento de mão de obra, embora Oremburgo não esteja abrangida por esses programas. Ainda assim, as declarações do autarca suscitaram dúvidas entre especialistas, que consideram pouco credível que os salários praticados dentro da Coreia do Norte sejam efetivamente superiores aos oferecidos na Rússia. Vários analistas defendem que o custo elevado da contratação de trabalhadores norte-coreanos resulta sobretudo da intervenção de intermediários e de outras despesas associadas ao seu recrutamento, e não propriamente da remuneração recebida pelos próprios trabalhadores.
Durante vários anos, a Rússia foi um dos principais destinos da mão de obra proveniente da Coreia do Norte. Segundo o portal oposicionista russo Meduza, até 2018 Moscovo emitia mais de 10 mil vistos de trabalho por ano para cidadãos norte-coreanos. No entanto, as sanções impostas pelas Nações Unidas obrigaram posteriormente a Rússia a interromper esse processo, proibindo a contratação destes trabalhadores. Essa situação alterou-se depois da invasão em larga escala da Ucrânia. Em 2025, o Serviço Russo da BBC noticiou que as autoridades russas tinham retomado o recrutamento de cidadãos norte-coreanos, recorrendo desta vez a vistos de estudante para contornar as restrições impostas pela ONU.
Diversas organizações internacionais e investigações independentes têm denunciado as condições em que estes trabalhadores vivem na Rússia. Segundo o artigo, muitos permanecem sob vigilância constante de agentes dos serviços de segurança norte-coreanos e apenas recebem o salário quando regressam ao seu país de origem, situação frequentemente descrita por organizações de direitos humanos como um regime próximo de trabalho forçado. Ao mesmo tempo, embora o salário médio oficial na Rússia tenha atingido os 100.360 rublos (cerca de 1.143 euros) em 2025, os rendimentos variam significativamente entre regiões. Em Moscovo, o salário médio ultrapassou os 198 mil rublos (cerca de 2.266 euros), enquanto em São Petersburgo rondou os 128.929 rublos (1.472 euros). No extremo oposto encontra-se a região da Inguchétia, onde a média salarial não ultrapassou os 46.648 rublos (533 euros). A região de Chukotka registou o salário médio mais elevado do país, com cerca de 208.456 rublos (2.375 euros). Ainda assim, especialistas recordam que o salário mediano é bastante inferior ao salário médio devido à elevada desigualdade de rendimentos existente na Rússia, cujo índice de Gini atingiu 0,422 em 2025.
Peter Ward, investigador do Instituto Sejong e especialista na economia norte-coreana, mostrou-se particularmente cético em relação às declarações do autarca russo. Em declarações ao NK News, afirmou que Pyongyang parece ter um “excelente departamento de relações públicas” para promover os seus trabalhadores a valores tão elevados. O especialista admite que alguns profissionais altamente qualificados ligados ao setor tecnológico, à indústria militar ou a quadros do Partido possam beneficiar de remunerações superiores, sobretudo quando se incluem habitação e géneros alimentares. Contudo, sublinha que “o salário do trabalhador norte-coreano médio está muito mais próximo dos 1.400 won do que dos 1.400 euros”, sendo que 1.400 won representam menos de um euro. Na sua análise, os valores cobrados refletem sobretudo aquilo que os intermediários acreditam que os empregadores russos estão dispostos a pagar e também o risco associado ao controlo de trabalhadores destacados para um país distante.
Ward considera ainda que esta realidade demonstra uma relação marcada pelo oportunismo entre ambas as partes. “As pessoas envolvidas nesta relação estão ocupadas a tentar enganar-se mutuamente”, afirmou, descrevendo a situação como um exemplo de falta de confiança e de visão estratégica. Para o investigador, esta realidade contrasta com o discurso oficial que apresenta a cooperação entre Moscovo e Pyongyang como uma parceria sólida e duradoura.
Também Chris Monday, investigador especializado na economia russa da Universidade Dongseo, aconselha prudência na interpretação das declarações do autarca de Oremburgo. Segundo explicou ao NK News, Albert Yumadilov estava provavelmente a repetir informações que ouviu, e não a relatar experiências diretas sobre o funcionamento do sistema de contratação de trabalhadores norte-coreanos. O investigador recorda que uma parte significativa dos salários pagos aos trabalhadores destacados para o estrangeiro é retida pelo Estado norte-coreano e pelos intermediários responsáveis pelo recrutamento, o que aumenta substancialmente o custo suportado pelos empregadores russos.
Na prática, refere o especialista, contratar trabalhadores norte-coreanos pode sair bastante mais caro do que recorrer a mão de obra proveniente de países como Índia, Bangladesh, Vietname, Paquistão ou Etiópia. “Parece que os intermediários norte-coreanos estão a enganar os russos. Sabem que a Rússia está numa situação complicada e precisa de trabalhadores. Sabem que podem exigir mais. Putin tem poucas opções”, afirmou. Acrescenta ainda que outro dos fatores que poderá justificar os valores elevados é a intenção de evitar transmitir a imagem de que a Coreia do Norte atravessa uma situação económica desesperada.
Segundo a interpretação apresentada pelo artigo, é provável que Albert Yumadilov não estivesse a referir-se apenas ao salário líquido recebido pelos trabalhadores, mas sim ao custo global da contratação. No final do ano passado, recrutar um trabalhador norte-coreano representava um encargo superior a dois mil euros por pessoa, incluindo viagens aéreas, vistos, seguros e comissões pagas aos intermediários. Entre essas entidades figuram instituições de ensino russas, como o Colégio Sodeystvie, que registavam formalmente estes cidadãos como estudantes em estágio, permitindo assim contornar as restrições impostas pelas Nações Unidas.
Os próprios intermediários russos envolvidos nestes processos recomendavam que os trabalhadores norte-coreanos recebessem remunerações mensais entre 875 e 1.137 euros. Estes valores coincidem com estimativas apresentadas pelo Instituto Coreano para a Unificação Nacional (KINU), sediado em Seul. Em contrapartida, o custo total da contratação de trabalhadores provenientes da Índia, Bangladesh, Vietname, Paquistão ou Etiópia seria, em muitos casos, inferior a metade.
O KINU refere igualmente que o aumento da procura russa por trabalhadores da Coreia do Norte acabou por beneficiar também os cidadãos norte-coreanos empregados na China, cujos salários mensais terão aumentado de cerca de 280 euros durante a pandemia para aproximadamente 440 euros. O instituto estima ainda que cerca de 40 mil norte-coreanos trabalham atualmente na Rússia, um número compatível com os mais de 36 mil vistos emitidos pelas autoridades russas para cidadãos daquele país ao longo do último ano. Quase todos esses vistos foram concedidos oficialmente para fins educativos, um mecanismo que, segundo diversas investigações, continua a ser utilizado como forma de contornar as sanções internacionais e permitir a entrada de trabalhadores norte-coreanos em território russo.














