TML : Uma nova plataforma para mover Lisboa

De autoridade de transportes a plataforma tecnológica: a transformação digital da mobilidade em Lisboa

Executive Digest

Há poucos anos, viajar de transporte público na Área Metropolitana de Lisboa significava lidar com um sistema profundamente fragmentado: 16 operadores distintos, mais de 7.700 tipologias tarifárias e apenas cerca de 30% do território coberto por um passe intermodal. Para quem se deslocava diariamente, isso traduzia-se numa experiência complexa, pouco intuitiva e desigual, dependente do concelho onde se vivia ou trabalhava. Hoje, essa realidade mudou radicalmente, e a transformação tem um nome – navegante® – e uma instituição por trás dela: a Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML).

Carlos Humberto de Carvalho, presidente da TML, explica que a entidade deixou de se definir apenas pela sua função regulatória enquanto autoridade de transportes. «Hoje, somos também responsáveis pelo desenvolvimento e gestão de soluções digitais que tornam o sistema de transportes mais simples, integrado e acessível para milhões de pessoas», afirma. Essa mudança de identidade reflecte-se na própria estrutura interna da organização, onde a área de Sistemas Inteligentes de Transporte (ITS) se tornou uma das maiores e mais estratégicas, responsável por gerir o sistema navegante® e garantir a interoperabilidade entre todos os operadores da região. Para o presidente, esta transformação resultou de «inovação tecnológica, do conhecimento das nossas equipas e de um foco permanente nas necessidades das pessoas».

O maior desafio deste processo, reconhece Carlos Humberto de Carvalho, não foi propriamente tecnológico, mas político e organizacional: conseguir alinhar 18 municípios, múltiplos operadores e diferentes entidades em torno de uma visão comum para a mobilidade metropolitana. Isso implicou não só integração de sistemas, mas também harmonização de regras de negócio e a articulação entre organizações com culturas e formas de trabalhar distintas. O resultado foi a criação de duas tipologias de passe, municipal e metropolitano, válidas em 100% do território e em todos os operadores e modos de transporte, substituindo um mosaico de regras dispersas por uma experiência unificada para o passageiro. Depois desta transformação estrutural, a TML avançou para uma fase de digitalização de serviços, simplificando processos e criando novas soluções que tornam a utilização dos transportes mais rápida e cómoda.

Esta lógica de integração tem, segundo o presidente, um objectivo comum a todas as soluções desenvolvidas: colocar o utilizador no centro da mobilidade. Através do Sistema navegante®, a TML criou plataformas e serviços partilhados por todos os operadores, o que se traduz em tarifas mais simples e económicas, maior cobertura territorial e um acesso mais equitativo a oportunidades de emprego, educação, saúde e lazer. Ao mesmo tempo, a partilha de informação entre operadores permite uma gestão mais eficiente das redes e uma resposta mais rápida a alterações operacionais. São benefícios que, para o utilizador comum, se traduzem simplesmente em viagens mais previsíveis e menos burocráticas.

A APP NAVEGANTE® como porta de entrada única

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Um dos pilares mais visíveis desta transformação é a app navegante®, que Carlos Humberto de Carvalho descreve como um verdadeiro hub de mobilidade. Na prática, isso significa concentrar num único ponto de acesso praticamente tudo o que o utilizador precisa para se deslocar: «já permite adquirir um cartão navegante® e recebê-lo em casa, carregar passes em cerca de um minuto, consultar informação sobre a rede e acompanhar os transportes em tempo real», detalha. A aplicação permite ainda activar benefícios como a gratuitidade para jovens até aos 24 anos, com carregamento do respectivo passe feito de forma totalmente digital, até ao final da validade do cartão. A ambição da TML, segundo o presidente, é que esta plataforma se torne cada vez mais completa, consolidando-se como a principal via de entrada para a mobilidade em toda a Área Metropolitana de Lisboa.

Nesse sentido, a introdução do navegante® mobile, que dispensa o cartão físico, surge como um passo natural desta evolução. Ao permitir que o título de transporte esteja disponível directamente no telemóvel, a TML elimina a necessidade do cartão físico para muitos utilizadores, tornando o processo mais simples, cómodo e sustentável, ao mesmo tempo que aproxima o sistema lisboeta das melhores práticas internacionais em matéria de bilhética digital e reduz custos operacionais associados aos suportes físicos.

A par disto, a aposta na informação em tempo real representa, na visão de Carlos Humberto de Carvalho, «um salto muito importante para todo o ecossistema da mobilidade». O benefício é duplo: para o passageiro, traduz-se em maior previsibilidade e redução da incerteza no planeamento de cada viagem; para os operadores e para a própria TML, representa uma ferramenta de gestão mais poderosa, que permite acompanhar o funcionamento da rede, identificar constrangimentos mais rapidamente, ajustar a operação sempre que necessário e tomar decisões com base em dados objectivos, em vez de suposições.

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Também o pagamento directo com cartão bancário ou outros meios de pagamento digitais faz parte desta lógica de simplificação. Segundo o presidente, esta opção «elimina barreiras de acesso ao transporte público, sobretudo para utilizadores ocasionais, turistas e visitantes», dispensando a necessidade de adquirir previamente um título específico, sem nunca comprometer a integração tarifária nem a facilidade de utilização do sistema como um todo.

Questionado sobre como garante que estas soluções respondem simultaneamente às necessidades de utilizadores e operadores, Carlos Humberto de Carvalho refere um trabalho contínuo de auscultação junto de ambas as partes: sessões de auscultação, processos participativos, workshops de design thinking e contacto permanente com os diferentes intervenientes. A isto soma-se uma articulação diária com os operadores da região, de forma a garantir que as soluções tecnológicas desenvolvidas são interoperáveis, robustas e acrescentam valor real à operação. É este equilíbrio, sublinha, entre visão tecnológica, conhecimento operacional e proximidade aos utilizadores, que tem permitido o sucesso da transformação digital da mobilidade metropolitana.

Sustentabilidade em prática

Se a dimensão digital é a face mais visível da transformação, a reorganização operacional foi igualmente profunda. Com a criação da Carris Metropolitana, a TML substituiu um cenário de informação, regras de negócio e níveis de serviço dispersos por 12 operadores diferentes por uma rede única, com identidade própria, procedimentos harmonizados, modelo tarifário comum e padrões consistentes de conforto e qualidade de serviço. Hoje, essa rede rodoviária metropolitana assegura a operação municipal em 15 concelhos e as ligações intermunicipais em toda a Área Metropolitana de Lisboa, garantindo uma experiência «muito mais simples, coerente e previsível» para quem viaja, independentemente do concelho onde inicia ou termina a sua deslocação.

No capítulo da sustentabilidade, o navegante® Empresas surge como um dos produtos mais estratégicos da TML para apoiar organizações comprometidas com a descarbonização. O programa permite que as empresas ofereçam o passe navegante® aos colaboradores como benefício de mobilidade, incentivando a substituição do automóvel nas deslocações casa-trabalho-casa e beneficiando, em simultâneo, de um enquadramento fiscal vantajoso, com vantagens na tributação do lucro tributável para quem apoia os trabalhadores na utilização do transporte público. Carlos Humberto de Carvalho sublinha que já mais de 560 empresas aderiram à iniciativa, o que, na sua leitura, comprova que «este modelo responde às necessidades do tecido empresarial e constitui uma ferramenta eficaz para promover uma mobilidade mais sustentável». Para o presidente da TML, trata-se de um produto que «gera valor para todos»: para as empresas, que reforçam a sua estratégia de sustentabilidade e responsabilidade social, cumprindo critérios ESG; para os colaboradores, que passam a contar com um apoio concreto que melhora a sua qualidade de vida; e para as cidades, que beneficiam de menos congestionamento, menos emissões e maior utilização do transporte público.

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Um modelo a caminho de escala nacional

O interesse que as soluções da TML têm despertado noutras regiões do País abre uma nova frente de reflexão sobre o futuro do sector. Carlos Humberto de Carvalho não fala de replicar mecanicamente o modelo lisboeta, mas de construir algo mais amplo e interoperável: «o importante é contribuir para que exista uma maior interoperabilidade entre sistemas e uma visão nacional da mobilidade digital», afirma, apontando para um cenário em que os cidadãos possam utilizar os transportes públicos de forma cada vez mais simples, integrada e consistente em todo o território português; e não apenas na área metropolitana da capital.

Quanto ao futuro próximo, o presidente da TML identifica um conjunto de tecnologias que deverão marcar a próxima fase do sector: uso intensivo de dados, inteligência artificial, plataformas digitais integradas, bilhética desmaterializada e sistemas de informação em tempo real. Estas ferramentas, na sua perspectiva, permitirão «uma gestão mais inteligente das redes, uma melhor previsão da procura, maior personalização dos serviços e uma experiência cada vez mais fluida» para quem utiliza os transportes públicos diariamente.

A estratégia da TML, conclui Carlos Humberto de Carvalho, passa por continuar a investir nestas áreas, reforçando a integração entre operadores, promovendo a inovação e utilizando a tecnologia como instrumento para tornar a mobilidade «mais simples, eficiente, inclusiva e sustentável». Num sector em constante transformação, a aposta de Lisboa assenta numa ideia simples, mas exigente de concretizar: a tecnologia só tem valor real quando serve, de facto, quem se desloca todos os dias pela cidade e pela região.

Este artigo faz parte do Caderno Especial “Mobilidade urbana/ smart cities”, publicado na edição de Julho (n.º 244) da Executive Digest.

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