Portugal mantém a tendência de queda no Índice de Perceção da Corrupção (CPI), de acordo com o relatório anual, divulgado esta terça-feira, da Transparency International. Os resultados de 2025 são os piores de sempre, ultrapassando a 43ª posição do ano anterior, estando agora no 48º lugar, com 56 pontos, e pior registo de sempre.
Segundo o presidente da direção da Transparência Internacional Portugal (TIP), José Fontão, parece haver uma correlação entre o que o índice traduz e “esta degradação das instituições, este crescimento de atores políticos mais populistas e que atacam as instituições tal como elas estão”.
Para avaliar a ligação entre o setor político e esta queda nacional neste ranking, contactámos o politólogo Bruno Ferreira da Costa, que identificou “três pilares que sustentam o diminuir essa confiança e a própria perceção de corrupção no país”.
Segundo o especialista em ciência política, “o primeiro está relacionado com os baixos níveis de confiança nos atores políticos”. “Todos os dados internacionais apontam que Portugal, em contexto comparado, tem uma avaliação dos atores políticos – partidos e dirigentes – é mais baixa. Portanto, há um grau de desconfiança muito grande”, apontou. “Obviamente, essa desconfiança sobre as decisões dessas instituições é maior. O nível de confiança dos portugueses nas instituições – Governo, Parlamento, tribunais… – é muito baixo e é natural que haja uma ligação com os processos de tomada de decisão. Essa é uma ligação profunda sobre a questão da corrupção”.
“A corrupção remete muito para a atividade política ou atividade empresarial e não a pequena corrupção ou troca de favores”, referiu Bruno Ferreira da Costa, docente de Ciência Política da Universidade da Beira Anterior.
“No que toca aos dirigentes políticos, é transversal. Verificamos isso nas sondagens dos principais dirigentes políticos, que normalmente surgem um ou dois acima da nota positiva”, reforçou.
“O segundo fator tem a ver com o crescimento de uma agenda populista e demagógica. Isto não está associado a apenas um partido, é algo transversal. Este discurso tem outra ação na arena mediática sobre o funcionamento do país. Com este discurso, estão sinalizados casos que retratam a ineficácia, os compadrios do funcionamento do sistema político e as ligações aos empresários. Veja-se o caso de Luís Montenegro com o caso Spinumviva. Isto passou a estar muito presente no discurso político”, indicou o especialista.
Por último, Bruno Ferreira da Costa destacou o papel dos media nesta perceção negativa. “A partir do momento que é um discurso recorrente dos atores políticos, são replicados, como não podia deixar de ser, nos media. Há uma procura muito grande de revelação de casos que colocam em causa a honra e bom nome, são temas que estão presentes, em particular nas redes sociais”, frisou o politólogo.
Face ao cenário, tem havido vontade política para combater ativamente esta perceção da corrupção dos portugueses, assim como o restituir da confiança? “Não me parece que haja uma agenda clara e transformadora para mudar esta visão dos cidadãos. Temos no entanto de ressalvar que uma coisa é a perceção da corrupção, outra são os casos ou condenados efetivamente por corrupção”, lembrou.
“No segundo caso, temos valores muito baixos, ou seja, e isso pode alimentar toda a narrativa. As pessoas têm uma perceção alta [da corrupção], mas não verificam que essa perceção é concretizada por investigação ou condenação dos acusados. Desconfiam ainda mais”, disse Bruno Ferreira da Costa.
“O sistema não está a conseguir efetivamente identificar estes casos e condenar aqueles que transgridem determinadas regras”, sustentou.
“Como esta agenda foi tomada por uma determinada força política, parece que há um receio também de outras forças políticas, mais moderadas, de tocarem nestes tópicos. Isto leva a que não haja um pacto reformista porque sempre que alguém se aproxima deste discurso acabam por sinalizar que há uma proximidade ao Chega. O facto de o Chega ter ocupado o espaço mediático de sinalizar esta luta faz com que não haja compromisso nem vontade de atacar essa perceção”, concluiu o especialista.














