Guerra híbrida chega ao espaço: Rússia terá intercetado comunicações de dezenas de satélites estratégicos europeus

De acordo com o ‘Financial Times’, estas interceções — que não tinham sido anteriormente divulgadas — podem ter permitido a Moscovo aceder a dados sensíveis transmitidos por satélites civis e governamentais

Francisco Laranjeira

As autoridades de segurança europeias acreditam que dois satélites russos terão intercetado comunicações de pelo menos uma dezena de satélites estratégicos que operam sobre a Europa, levantando receios sobre espionagem, interferência e até sabotagem em órbita. As suspeitas recaem sobre os veículos espaciais russos Luch-1 e Luch-2, que, nos últimos anos, realizaram manobras consideradas invulgares junto de satélites europeus críticos.

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De acordo com o ‘Financial Times’, estas interceções — que não tinham sido anteriormente divulgadas — podem ter permitido a Moscovo aceder a dados sensíveis transmitidos por satélites civis e governamentais, bem como recolher informação suficiente para, em cenários extremos, manipular as suas trajetórias ou comprometer o seu funcionamento.

Aproximações prolongadas a satélites estratégicos

Desde o início da invasão russa da Ucrânia, há três anos, os satélites Luch têm acompanhado com maior intensidade os sistemas espaciais europeus, num contexto de crescente tensão entre o Kremlin e o Ocidente. As autoridades militares e civis monitorizam há vários anos estes veículos, que realizaram múltiplas aproximações a satélites geoestacionários essenciais para a Europa, o Reino Unido, bem como vastas áreas de África e do Médio Oriente.

Os dados orbitais e observações a partir da Terra indicam que os satélites russos permaneceram próximos dos seus alvos durante semanas consecutivas. Desde o seu lançamento, em 2023, o Luch-2 ter-se-á aproximado pelo menos 17 satélites europeus, muitos deles utilizados para comunicações comerciais, governamentais e, em alguns casos, militares.

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Suspeitas de espionagem de sinais e falhas de encriptação

Segundo o major-general Michael Traut, responsável pelo comando espacial das Forças Armadas alemãs, existe a convicção de que os satélites russos estão envolvidos em operações de inteligência de sinais, mantendo-se deliberadamente próximos dos satélites de comunicação ocidentais. Um alto responsável dos serviços de informação europeus afirmou que os Luch terão procurado posicionar-se dentro do estreito feixe de dados transmitido entre estações terrestres e satélites.

Esse cenário é particularmente preocupante porque muitos dos satélites europeus mais antigos não dispõem de sistemas avançados de encriptação, tornando vulneráveis dados críticos, incluindo comandos enviados a partir da Terra. Segundo o ‘Financial Times’, esta fragilidade pode abrir caminho a futuras interferências ou tentativas de controlo remoto por parte de agentes hostis.

Risco de manipulação orbital e sabotagem indireta

Embora seja improvável que os satélites Luch consigam, por si só, destruir ou desativar outros satélites, os especialistas alertam que a informação recolhida pode permitir à Rússia compreender em detalhe o funcionamento destes sistemas. Com acesso à chamada “ligação de comando”, Moscovo poderia, em teoria, imitar operadores terrestres e enviar comandos falsos, alterando ligeiramente a órbita dos satélites ou provocando desalinhamentos graves.

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Essas manobras poderiam resultar na perda de controlo, em colisões ou até na reentrada descontrolada na atmosfera. Além disso, o mapeamento detalhado da utilização dos satélites pode facilitar ataques híbridos menos visíveis, como operações de interferência eletrónica ou ciberataques a infraestruturas terrestres associadas.

Guerra híbrida e crescente militarização do espaço

As atividades suspeitas no espaço coincidem com uma intensificação da chamada guerra híbrida russa na Europa, que já incluiu atos de sabotagem como o corte de cabos submarinos de energia e telecomunicações. As autoridades europeias receiam agora que o espaço se torne mais uma frente ativa deste tipo de conflito.

O ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, alertou recentemente que as redes de satélite são um ponto crítico das sociedades modernas, sublinhando que ataques a estes sistemas podem paralisar países inteiros. Para Berlim, as ações russas no espaço representam uma ameaça estrutural que deixou de poder ser ignorada.

Novos satélites russos reforçam receios

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Analistas independentes confirmam que os satélites Luch passaram meses estacionados junto de satélites geoestacionários europeus. Atualmente, o Luch-2 encontra-se próximo do Intelsat 39, um satélite de grande dimensão que presta serviços à Europa e a África. Dados de empresas especializadas indicam que os satélites russos têm seguido padrões consistentes, aproximando-se repetidamente dos mesmos operadores, muitos deles ligados à NATO.

Entretanto, a Rússia lançou recentemente dois novos satélites, Cosmos 2589 e Cosmos 2590, que aparentam possuir capacidades semelhantes às dos Luch. Um deles está a aproximar-se da órbita geoestacionária, situada a cerca de 35 mil quilómetros da Terra, o que reforça os receios de uma intensificação do reconhecimento espacial russo.

Fragmentação levanta dúvidas sobre o Luch-1

O Luch-1 poderá, no entanto, já não estar operacional. No final de janeiro, telescópios terrestres observaram uma pluma de gás a emanar do satélite, seguida de sinais de fragmentação parcial. Especialistas apontam para um problema relacionado com o sistema de propulsão, que terá deixado o satélite a girar de forma descontrolada.

Apesar disso, as autoridades europeias consideram que os dados recolhidos ao longo dos últimos anos pelos satélites Luch continuam a representar um risco significativo para a segurança espacial do continente.

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