“O desequilíbrio das relações comerciais entre a Europa e a Ásia é a principal ameaça à indústria têxtil e, particularmente, do vestuário em Portugal. As exportações de maio do têxtil e vestuário foram “empurradas” para baixo por causa do vestuário de tecido, nomeadamente do formal, muito por causa dos preços da concorrência asiática”, avança o Jornal de Notícias.
“Não se admite que na Europa 85% de toda a roupa consumida tenha proveniência asiática”, lamenta César Araújo, presidente da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção (ANIVEC). A associação denunciou esta situação à Representação Permanente de Portugal junto da União Europeia.
A indústria têxtil tinha 136 mil trabalhadores em 2019, dos quais 89 mil ligados ao vestuário, segundo dados do CENIT e INE.
Atualmente, a indústria europeia é fortemente dependente do mercado interno. A maioria do que se produz é exportado para outros países da Europa, o que significa que a subida do mercado asiático pode destruir a cadeia de produção europeia e, com ela, a de Portugal. No entanto, é isso que está a acontecer, adianta o presidente da ANIVEC: “Existe um conjunto de empresas oportunistas que estão a explorar o mercado europeu porque a Europa não quer ver e tem que rapidamente pôr fim a esta concorrência selvagem”.
Em maio, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística, as exportações de vestuário atingiram os 58,4 milhões de euros, uma quebra de, sensivelmente, 40%, face aos 84,7 milhões de euros, registados no período homólogo.
A região Norte é responsável por 68% dos produtos têxteis nacionais e 78% dos produtos de vestuário, segundo a ANIVEC, citada pelo JN.
A Dielmar apresentou o pedido de insolvência na passada sexta-feira, colocando 300 empregos em risco. Segundo comunicado da empresa de vestuário liderada por Ana Paula Rafael, a Dielmar “sucumbiu à pandemia da covid-19”. Assim, depois de entrar em período de férias no final do mês passado, a gestão considerou não ter condições para manter o pagamento de salários a partir de agosto, mesmo com o apoio do lay-off.
No entanto, como lembra o Expresso, antes da Dielmar,” outras empresas de têxteis do vestuário passaram por dificuldades neste último ano e meio devido à pandemia de covid-19. Há cerca de um ano, ainda antes das piores vagas de coronavírus no país, o Expresso reportava a situação difícil vivida pelas trabalhadoras da Azincon, que fazia camisas para a Inditex, dona da Zara”.
De março de 2020 a agosto do mesmo ano, 133 mulheres viveram quatro fases diferentes: lay-off, regresso ao trabalho, “férias forçadas” e, por fim, o despedimento. As trabalhadoras só conheceram a situação em agosto – depois de estarem semanas sem trabalhar, sem conseguir contactar os patrões e sem receber – quando começaram a receber as cartas de despedimento onde era comunicada a declaração de insolvência da empresa têxtil.
Há semanas, foi a vez do grupo MoreTextile, constituído pelas empresas Coelima, António Almeida & Filhos e JMA Felpos, cair por terra. Em julho, como refere o Expresso, “foi a vez da empresa de serviços partilhados do grupo, António Almeida & Filhos, declarar insolvência, depois de rejeitadas três propostas de compra”.
Para Mário Jorge Machado, presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), “O setor têxtil [português] é um caso de sucesso a nível mundial” devido ao enorme crescimento que tinha antes da pandemia, especialmente com as exportações que são a maior parte do negócio, no entanto, o empresário reconhece, em entrevista ao Expresso, “que tudo mudou com a chegada da covid-19”.














