É através da inovação que incorpora nos seus produtos, serviços e modelos de negócio que o Grupo consegue antecipar o futuro. Em entrevista à Executive Digest, Cláudia Figueira, Innovation manager do Grupo Nabeiro, explica como é que o Centro de Inovação, a Diverge, constitui uma aposta clara na criação de valor para a empresa.
O Centro de Inovação do Grupo Nabeiro, a Diverge, foi criado para responder aos desafios propostos de uma empresa que investe no futuro?
O Centro de Inovação do Grupo Nabeiro é uma aposta clara na criação de valor e sustentabilidade da empresa. É através da inovação que incorpora nos produtos, serviços e modelos de negócio que o Grupo consegue antecipar o futuro. Esta aposta faz parte de uma estratégia traçada há 10 anos e que se formalizou com a constituição da Diverge, o Centro de Inovação do Grupo, onde uma equipa capacitada para um processo end-to-end innovation tem espaço para divergir, correr riscos e voltar a encontrar caminhos. Esta cultura, já enraizada no ADN do Grupo Nabeiro, faz da Diverge, uma equipa de Wayfinders.
A que se dedica esta equipa multidisciplinar?
A Diverge, é constituída por uma equipa multidisciplinar que assegura a execução do processo de inovação transversalmente à empresa. Começo por referir a área Innovation Intelligence and Thinking. É através do exercício constante da intersecção de modelos de observação do consumidor, construção de radares de vigilância de mercado e tecnologia, análise de insights e megatendências que construímos cenários e identificamos territórios de oportunidade. São estas oportunidades, que nos permitem identificar novos produtos, serviços ou modelos de negócio que queremos explorar. Tão importante como criar novos caminhos é partilhá-los. E isso leva-me a outra área da Diverge que se dedica à Cultura de Inovação.
Todas as oportunidades são partilhadas internamente, tanto via estudos que publicamos periodicamente como nas sessões de partilha de novo conhecimento para as quais convidamos toda a organização. Este processo estruturado em que toda a organização é convidada a contribuir, permite-nos gerir a incerteza do futuro e acelerar o processo de inovação. Por outras palavras, a Diverge trabalha transversalmente com todas as áreas do Grupo. Começa por identificar novas oportunidades através da área de Innovation Intelligence and Thinking, envolve a organização no processo de inovação, desenvolve as actividades de investigação científica bem como executa o desenvolvimento de novos produtos até à sua industrialização. O mesmo acontece na gestão de todo o processo de implementação de novos modelos de negócios ou serviços numa relação próxima com as unidades de negócio. Somos muito orientados ao mercado, daí transformarmos ideias em produtos e serviços com vida comercial.
Como transforma ideias em produtos e serviços com vida comercial?
O exercício de Inovação no contexto de uma marca de grande consumo é um constante e desafiante exercício de antevisão e antecipação do futuro. Se por um lado, temos que garantir e alimentar o “business as usual”, o negócio presente que liberta receitas, por outro lado, temos de ter a capacidade de desenhar um pipeline de inovação. Temos uma equipa capacitada para este desafio, multidisciplinar, capaz de acompanhar o processo do insight à ideia, da necessidade à oportunidade, da construção da proposta de valor à entrega do modelo de negócio. A aplicação de princípios Agile, Lean Product e Design Thinking, em círculos curtos de iteracção, tanto com os consumidores como com as áreas de negócio permitem-nos reduzir a incerteza de todas as fases de inovação e transformar ideias em produtos ou serviços.
A Diverge trabalha transversalmente com todas as áreas do Grupo, suportando a estratégia de inovação assente no modelo de inovação da Delta, o MIND. O que é este modelo?
O MIND é o nosso modelo de inovação, criado e desenhado pela Diverge, tem por missão criar valor, novo conhecimento e estimular a inovação transversalmente. É um modelo com várias fases que nos permite identificar insights e traçar cenários futuros.
Acrescento que o modelo é colaborativo e descentralizado, pois está disponível a todos os colaboradores. Isto é, todos têm oportunidade de participar no processo de inovação. Todos os anos seleccionamos as melhores ideias de negócio dos colaboradores para serem validadas como valor acrescentado a lançar no mercado. É através dos Programas de Inovação, geridos pela Diverge que validamos estas ideias e convocamos os diferentes stakeholders a contribuir na construção de novos produtos e serviços.
Este é um modelo “customer centric” que põe à prova o espírito empreendedor dos colaboradores. Eu diria mais… cria valor para o mercado, empresa e colaborador, porque o capacita com diferentes competências. A prova disso é o lançamento de produtos no mercado, como o Croffee, Go Chill e Slow Coffee, fruto deste modelo. Temos ainda uma série de projectos em fase de aceleração.
Em relação ao portefólio de desenvolvimento, que exemplos gostariam de destacar?
Cada projecto tem a sua especificidade, complexidade e mérito. Na verdade, contamos já com um variado portefólio de inovação que, como equipa de Wayfinders nos permitiu derivar em muitas direcções para depois convergir e encontrar novos caminhos, novas soluções que agregam valor aos produtos de formas distintas. Contudo, gostaria de destacar um projecto em particular, que surgiu de um insight e de uma pró-actividade da equipa de engenharia do Centro de Inovação. Estou a falar do RISE, o novo sistema de extracção que desafia a gravidade, pois o café é extraído da base da chávena para o topo. A ideia surge da necessidade de trazer o momento de consumo de café para o patamar de uma experiência sensorial superlativa. A necessidade de fechar a refeição, o lanche ou mesmo o break do dia com uma explosão de sensações e emoções. Tudo começou assim… E porque não, exaltarmos todas as características do café e provocarmos uma nova experiência sensorial através de uma nova e disruptiva forma de extracção?
O projecto envolveu toda a equipa da Diverge e todas as suas valências, desde a engenharia e design de produto, à investigação científica e à área de Innovation Intelligence and Thinking. O desafio tecnológico foi enorme, colocando a capacidade de resiliência e superação da equipa à prova em todas as fases de testes e validação do conceito e sua produtização. Reforçou fortemente o espírito de equipa e a paixão por criar algo novo. Este projecto é especial porque nos trouxe muitos novos findings, novo conhecimento. O projecto também contou com uma forte vertente de investigação, tendo sido desenhados estudos químicos, físicos e de neurociência e validação com consumidores.
O conceito RISE e o primeiro produto deste sistema, o QoffeeQar II, foram apresentados no Web Summit onde conseguimos recolher um impacto muito positivo juntos de consumidores nacionais e internacionais.
Hoje, contamos com uma tecnologia proprietária com intensa geração de propriedade intelectual, que dará origem a novos produtos e experiências de consumo de café em contextos nunca desenvolvidos. Estamos entusiasmados e focados nesta linha de desenvolvimento.
A aposta estratégica do Grupo na inovação pretende acompanhar o que se faz a nível internacional em tempos de inovação?
Sim, sem dúvida. Desde sempre que estamos incluídos no ecossistema de inovação internacional: seja através da academia e de projectos com universidades internacionais, seja via desenvolvimento de novos produtos com parceiros internacionais, startups ou fornecedores, seja porque o radar de vigilância é feito à escala global.
Estamos presentes em feiras e eventos internacionais, conscientes da importância da vigilância constante do mercado global. Participamos activamente em grandes eventos como é exemplo o Web Summit… Isto é, mais do que acompanhar, estamos inseridos no ecossistema internacional.
Os mercados internacionais são um eixo de crescimento para o Grupo, e para nós é natural e orgânica a aproximação a mercados não nacionais. Aliás, a própria estratégia de gestão de PI actua num contexto tecnológico global, prestando particular atenção às geografias de impacto do Grupo.
O reconhecimento internacional também já é visível pela atribuição do Prémio Innovation Leader Impact Award 2019 para o MIND, pela Innovation Leader em São Francisco e em 2020, o Silver Award para Melhor Gabinete de Propriedade Intelectual, recebido em Paris pelo Innovation&IP Forum and Awards.
Que balanço fazem do programa de empreendedorismo, o DisrUPtion?
O DisrUption foi o primeiro Programa de Inovação Aberta do Grupo Nabeiro. Teve um balanço muito positivo e veio reafirmar o nosso compromisso no apoio às startups. Durante cinco meses, as seis startups seleccionadas tiveram oportunidade de trabalhar directamente com as diferentes unidades de negócio do Grupo, orientadas por mentores internos e advisors externos. Todo o processo foi muito enriquecedor. As startups tiveram a possibilidade de validar o seu modelo de negócio e adaptar a sua proposta de valor para a realidade do Grupo Nabeiro.
No final foram seleccionadas para execução de piloto quatro startups após o pitch: a Starkdata, a Grand Carob, a Detox in a Box. Actualmente, estamos a desenvolver o projecto piloto já com o modelo de negócio adaptado à cadeia de valor do Grupo Nabeiro e continuamos muito entusiasmados com estes projectos. O programa deu-nos a possibilidade de contactar com inúmeras startups, com as quais colaboramos fora do âmbito do programa. É o caso da Classihy com a qual já desenvolvemos alguns projectos de apoio à restauração no contexto da pandemia.
A Delta é reconhecida pelo forte contributo para o avanço tecnológico, científico e social do País. Qual a responsabilidade da Diverge?
A Diverge, como Centro de Inovação do Grupo Nabeiro, dá corpo à estratégia de protecção de PI da Novadelta garantindo o alinhamento e efectivando a sua estratégia de inovação. Foi esse o caminho que levou a Novadelta a posicionar-se no top das empresas mais inovadoras. Foi inclusive, a primeira empresa a aparecer no ranking geral das empresas portuguesas com maior número de pedidos de registo de patentes do Instituto Nacional de Propriedade Industrial em 2019.
Esta aposta em Gestão de Propriedade Industrial é fundamental para proteger o desenvolvimento de soluções inovadoras que antecipem possibilidades futuras e sobretudo que evidenciem a qualidade do café Delta. Assim podemos considerar que estas patentes, nacionais e internacionais são fruto dos desafios do avanço tecnológico e associadas a questões ambientais que exigem novas soluções para o nosso ecossistema de produtos e serviços.
Hoje já contamos com um portefólio de 38 patentes europeias concedidas, um forte contributo para o avanço científico, tecnológico e social do País.
A inovação é um dos pilares estratégicos do Grupo. Quais são os principais desafios para o futuro?
O desafio constante é ter a capacidade de antecipar o futuro, adaptando-nos às alterações estruturais e/ou conjunturais do ecossistema em que nos inseri- mos, respondendo às tendências e oferecendo ao mercado, produtos e serviços que consigam surpreender e que sejam relevantes para os nossos consumidores.
Este artigo faz parte do Especial “Inovação”, publicado na edição de Março (n.º 180) da Executive Digest.














