
Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros
A eletrificação é, sem dúvida, um dos pilares da transição energética. A substituição de combustíveis fósseis por eletricidade renovável em setores como os transportes, a climatização dos edifícios e parte da indústria é essencial para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. No entanto, uma questão cada vez mais relevante emerge no debate energético europeu e nacional: será prudente apostar todas as fichas na eletrificação, ou será necessário um sistema mais diversificado e resiliente?
Os defensores da eletrificação destacam, e bem, as enormes vantagens de tecnologias como as bombas de calor, os veículos elétricos e a crescente produção de eletricidade a partir de fontes renováveis. Contudo, a transição energética não depende apenas da quantidade de energia produzida e consumida, mas também do momento em que essa energia é necessária.
Imagine-se uma manhã fria de inverno. Milhões de famílias ligam simultaneamente os sistemas de aquecimento, carregam veículos elétricos e utilizam os seus equipamentos domésticos habituais. Paralelamente muita atividade industrial e de serviços com consumo elétrico, é iniciada. Nesses momentos, a rede elétrica enfrenta verdadeiros “picos de procura”, comparáveis às horas de ponta no trânsito rodoviário. O desafio não consiste apenas em produzir energia suficiente ao longo do ano, mas em garantir que existe capacidade para responder a esses períodos de maior exigência.
Estudos recentes, analisando a evolução do aquecimento residencial em vários países europeus, mostram que uma forte expansão das bombas de calor poderá aumentar significativamente a procura elétrica de ponta. Este fenómeno não resulta de um consumo excessivo ao longo do ano, mas do facto de muitos equipamentos funcionarem simultaneamente nos dias mais frios e, agora, com as alterações climáticas, nos dias mais quentes também.
Importa sublinhar que esta constatação não constitui uma crítica às bombas de calor. Pelo contrário, estas tecnologias são fundamentais para descarbonizar o setor do aquecimento. O que os resultados evidenciam é que a transição energética requer mais do que uma solução única. As características dos edifícios, os climas regionais, os custos da eletricidade e a capacidade das infraestruturas variam significativamente entre regiões e países.
É neste contexto que a biomassa sustentável surge como um complemento relevante. Enquanto as bombas de calor dependem da eletricidade, sistemas de aquecimento baseados em biomassa podem fornecer calor renovável sem aumentar significativamente a carga elétrica nos momentos críticos. Esta complementaridade permite reduzir a pressão sobre a rede e aumentar a segurança do abastecimento energético.
A lógica é simples: sistemas energéticos complexos tornam-se mais robustos quando combinam diferentes tecnologias. Tal como um investidor prudente diversifica a sua carteira de investimentos para reduzir riscos, também um sistema energético ganha resiliência quando integra múltiplas soluções renováveis. A coexistência de bombas de calor, biomassa, armazenamento térmico, energia solar, eólica e outras tecnologias oferece maior flexibilidade para responder a diferentes circunstâncias.
Existem já exemplos concretos desta abordagem. Em várias cidades europeias estão a ser desenvolvidos sistemas híbridos que combinam biomassa, recuperação de calor, armazenamento térmico e bombas de calor. Estes projetos demonstram que as tecnologias não precisam de competir entre si; pelo contrário, podem colaborar para aumentar a eficiência global do sistema energético.
A discussão não se limita, porém, ao setor do aquecimento. O princípio da diversificação aplica-se a todo o sistema energético. Frequentemente, algumas tecnologias são apresentadas como soluções definitivas e outras como opções secundárias. A experiência recente mostra que essa visão simplista não corresponde à realidade. As energias solar e eólica dependem naturalmente das condições meteorológicas, mas também de tecnologias consideradas “firmes” como, por exemplo, em muitos países europeus, a energia nuclear, que enfrenta limitações quando secas prolongadas ou temperaturas elevadas reduzem a disponibilidade de água para arrefecimento das centrais, como ocorreu muito recentemente neste verão em França, Hungria e Bulgária.
A principal lição é que nenhuma tecnologia é perfeita nem totalmente independente dos recursos naturais. A verdadeira robustez energética resulta da combinação inteligente de diferentes fontes, do armazenamento de energia, das interligações entre redes e da capacidade de adaptar o consumo às condições do sistema.
Ao mesmo tempo, a transição energética não pode esquecer uma dimensão frequentemente negligenciada: o acesso à energia. Em muitas regiões do mundo, a prioridade não é consumir menos energia, mas sim garantir acesso a serviços energéticos fiáveis e acessíveis que permitam melhorar as condições de vida, apoiar a educação, os cuidados de saúde e o desenvolvimento económico. A descarbonização e a expansão do acesso à energia devem, por isso, avançar em paralelo.
Em conclusão, a resposta à pergunta inicial parece clara: não, a transição energética não deve basear-se apenas na eletrificação. A eletrificação será certamente um elemento central das próximas décadas, mas o seu sucesso dependerá da articulação com outras soluções renováveis e de uma visão integrada do sistema energético. Mais do que escolher entre eletrões ou outras formas de energia renovável, o verdadeiro objetivo é construir um sistema capaz de fornecer energia limpa, acessível e fiável em qualquer circunstância. A diversidade, e não a dependência de uma única tecnologia, será provavelmente a chave para uma transição energética bem-sucedida.




