Os refrigerantes dietéticos e “zero” são uma escolha comum para quem procura reduzir o consumo de açúcar. A ausência de calorias é frequentemente apresentada como uma vantagem, mas médicos e nutricionistas alertam que estes produtos não são isentos de riscos. O caso recente do rapper Fat Joe, que revelou beber entre 30 a 40 latas de Diet Pepsi por dia, trouxe novamente para debate a questão: quanto é demasiado quando falamos de refrigerantes sem açúcar?
Segundo Vanessa Rissetto, nutricionista e cofundadora da Culina Health, o primeiro passo é perceber os ingredientes que substituem o açúcar. “Os adoçantes artificiais são produzidos em laboratório, enquanto alguns de base vegetal têm origem natural, mas todos são processados”, afirmou. Entre os mais utilizados estão o aspartame, cerca de 200 vezes mais doce do que o açúcar; a sucralose, derivada do açúcar mas não metabolizada como tal; a sacarina, um dos mais antigos substitutos; e o acessulfame de potássio, muitas vezes misturado com outros adoçantes para melhorar o sabor. Já opções vegetais como a stevia e o fruto-do-monge são preferidas por alguns consumidores, por parecerem mais naturais e com menor impacto no microbioma intestinal.
Contudo, os especialistas sublinham que nenhuma destas substâncias pode ser considerada saudável. Adam Perlman, diretor clínico da Pendulum Therapeutics, explicou que “certos adoçantes, como a sucralose ou a sacarina, têm sido associados a alterações nas bactérias intestinais que podem influenciar a forma como o corpo gere o açúcar no sangue”. Rissetto acrescenta que esta interferência pode reduzir a sensibilidade à insulina, dificultando o controlo da glicemia e aumentando o risco de desenvolver diabetes tipo 2. Além disso, a alteração da flora intestinal pode prejudicar o metabolismo da glucose e potenciar processos inflamatórios, considerados mecanismos centrais em doenças cardiovasculares.
O impacto não se limita ao metabolismo. O consumo elevado de refrigerantes dietéticos está associado a maior probabilidade de aumento de peso, doenças cardíacas e acidentes vasculares cerebrais. “A exposição prolongada a adoçantes e aditivos pode danificar o revestimento dos vasos sanguíneos, elevar os triglicerídeos, baixar o colesterol HDL (‘bom’) e contribuir para a hipertensão e aterosclerose”, detalhou Rissetto. Estas alterações, segundo os especialistas, comprometem a saúde vascular e elevam o risco de doença arterial e enfarte.
Outro aspeto relevante é o efeito destes refrigerantes no apetite e no comportamento alimentar. Apesar de não conterem calorias, os adoçantes artificiais ativam os recetores de sabor doce, criando uma expectativa energética que não é satisfeita. “Isto pode aumentar os sinais de fome e levar ao consumo de mais alimentos açucarados ou ricos em hidratos de carbono”, explicou Rissetto. A nutricionista destacou ainda o papel da dopamina, hormona associada ao prazer, que é libertada quando se consome algo doce. “Se não houver ingestão calórica, o ciclo de recompensa fica incompleto, levando muitas vezes à procura de mais alimentos.”
Além destas consequências, a acidez dos refrigerantes sem açúcar pode contribuir para erosão dentária, enquanto a cafeína presente em muitas destas bebidas está associada a insónia, ansiedade e dores de cabeça. O gás e os adoçantes podem ainda provocar desconforto abdominal e inchaço em pessoas mais sensíveis.
Perante estes riscos, os especialistas recomendam moderação. “Trate o refrigerante sem açúcar como uma bebida ocasional, não como fonte principal de hidratação. Um por dia pode ser aceitável para a maioria das pessoas, mas o ideal será limitar o consumo a algumas vezes por semana, alternando com água, água com gás ou bebidas não adoçadas”, aconselhou Rissetto. Perlman concorda e acrescenta que o consumo excessivo deve ser visto como um fator de risco, não apenas como um hábito inofensivo.














