Processos Casa Pia e Maddie McCann surgem nos ficheiros Epstein

O processo Casa Pia é mencionado nos chamados “Epstein Files”, o conjunto de documentos tornados públicos pelo Departamento de Justiça norte-americano, através de uma denúncia enviada às autoridades dos Estados Unidos que pedia a investigação de uma eventual ligação entre Jeffrey Epstein e um alegado esquema de abuso sexual de crianças em Portugal

Pedro Gonçalves
Fevereiro 4, 2026
16:54

O processo Casa Pia é mencionado nos chamados “Epstein Files”, o conjunto de documentos tornados públicos pelo Departamento de Justiça norte-americano, através de uma denúncia enviada às autoridades dos Estados Unidos que pedia a investigação de uma eventual ligação entre Jeffrey Epstein e um alegado esquema de abuso sexual de crianças em Portugal envolvendo cidadãos milionários norte-americanos.

A referência consta de um email datado de julho de 2019, cujo assunto era simplesmente “Jeffrey Epstein”. A mensagem alertava para o conteúdo de um documentário então recentemente estreado na Netflix sobre o desaparecimento de Madeleine McCann, onde surgiam declarações relacionadas com o escândalo da Casa Pia.

Segundo o texto da denúncia, no documentário são recordadas suspeitas de abusos sexuais cometidos num orfanato português e mencionada a presença de “milionários americanos” que viajariam para Portugal em jatos privados com o objetivo de explorar sexualmente menores.

O autor do email escreve: “Na temporada 1, episódio 3, jornalistas portugueses lembram o escândalo que ocorreu uns anos antes sobre abuso de crianças num orfanato português (…) Um jornalista diz mesmo que é um facto conhecido que milionários americanos estavam a voar para Portugal em jatos privados para abusar sexualmente destas crianças”. A mensagem termina com a indicação: “Esta informação pode ser do vosso interesse”.

Não é conhecido se as autoridades norte-americanas terão investigado esta possível ligação, mas o email integra agora a documentação oficial associada ao caso Epstein.

Declarações de Felícia Cabrita citadas no documentário
As afirmações referidas na denúncia dizem respeito a declarações da jornalista Felícia Cabrita, que surge no documentário a relatar ter encontrado provas de ligações entre cidadãos norte-americanos abastados e a instituição.

No filme, a jornalista afirma que, desde a década de 1960, esses indivíduos “se deslocavam a Portugal, obviamente, com a conivência de elementos de topo da Casa Pia, e que faziam com estas crianças o que bem entendiam”.

O documentário, contudo, foi alvo de críticas por apresentar poucas novidades e por não esclarecer pontas soltas do caso Madeleine McCann. Ainda assim, um espectador considerou que aquelas referências poderiam justificar uma comunicação às autoridades.

Única menção direta à Casa Pia nos documentos
De acordo com os registos divulgados, esta é a única referência explícita ao processo Casa Pia dentro dos ficheiros Epstein, embora Portugal surja noutras passagens da documentação.

As menções dizem sobretudo respeito a registos de voos associados ao avião privado de Epstein, conhecido como “Lolita Express” — uma alusão ao romance de Vladimir Nabokov. Entre as escalas registadas encontra-se a ilha de Santa Maria, nos Açores.

A bordo do aparelho viajaram várias figuras públicas, incluindo o próprio Jeffrey Epstein, a sua companheira Ghislaine Maxwell — atualmente a cumprir uma pena de 20 anos de prisão por cumplicidade nos crimes do financeiro —, o ex-presidente norte-americano Bill Clinton, o ator Kevin Spacey e outras celebridades.

Os documentos incluem ainda uma segunda referência a Portugal, desta vez relacionada com o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do Partido Socialista, Luís Amado.

O nome do ex-governante surge numa lista de 15 personalidades estrangeiras que um remetente não identificado sugeria que Epstein deveria contactar para encontros. Confrontado pela SIC, Luís Amado desvalorizou a associação, classificando o caso como “ridículo” e assegurando “nunca ter visto” Epstein “na vida”.

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