O silêncio também é uma barreira

Nem todas as necessidades são visíveis. E nem todas as pessoas se sentem seguras para as revelar.

Maria João MorgadoMaria João MorgadoBusiness Support Lead, StravilliaVer todos os artigos
Maria João Morgado
Maria João MorgadoBusiness Support Lead, StravilliaSetembro 20, 2026 8:18

Quando falamos de acessibilidade, ainda pensamos numa rampa, num elevador, numa casa de banho adaptada ou num lugar de estacionamento. São elementos indispensáveis, mas esta imagem diz muito sobre a forma como continuamos a olhar para a deficiência e para a inclusão: procuramos aquilo que conseguimos ver.

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A experiência ensinou-me que muitas das barreiras mais difíceis não são físicas. São as que fazem uma pessoa questionar se deve pedir ajuda, pensar duas vezes antes de dizer que precisa de uma adaptação ou recear ser olhada de forma diferente.

Há pessoas com necessidades permanentes ou temporárias que não são imediatamente identificáveis. Há condições de saúde que podem exigir uma pausa adicional, um horário diferente, a adaptação de um equipamento ou outra mudança simples no trabalho. E nem todas têm um atestado que traduza a sua condição numa percentagem de incapacidade. Isso não torna a necessidade menos real.

A legislação é essencial para proteger direitos e estabelecer obrigações. Mas a experiência de uma pessoa numa organização não cabe numa percentagem. Uma empresa inclusiva tem de ser capaz de olhar para a pessoa antes de olhar para o documento que apresenta.

Isto não significa que todas as adaptações sejam possíveis. A acomodação tem de ser razoável e proporcional e há funções, circunstâncias e exigências de segurança que colocam limites. O importante é que a primeira resposta não seja automaticamente “tem direito?”, mas antes “o que podemos fazer?”.

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Existe ainda outra barreira, mais silenciosa: o medo de falar. Um colaborador pode viver durante anos com uma dificuldade sem a revelar porque receia ser visto como menos disponível, menos produtivo ou menos preparado para assumir responsabilidades. Pode encontrar soluções sozinho, acumular desgaste ou aceitar que trabalhar lhe exige um esforço adicional que os colegas desconhecem.

Quando isto acontece, a organização também perde: a possibilidade de encontrar uma solução simples, confiança, produtividade e, no limite, aquela pessoa.

É por isso que considero perigoso interpretar a ausência de pedidos de adaptação como prova de que uma empresa não tem problemas de acessibilidade. Por vezes, o silêncio significa apenas que ninguém se sente suficientemente seguro para pedir.

Construir essa segurança exige mais do que boas intenções. São necessários canais confidenciais, chefias preparadas para ouvir e responder, critérios claros e uma cultura em que pedir uma adaptação não seja entendido como pedir um privilégio.

Ao longo da minha experiência no desporto paralímpico, aprendi que autonomia e inclusão não significam eliminar todas as dificuldades. Significam criar condições para que cada pessoa possa participar e demonstrar aquilo de que é capaz sem enfrentar barreiras desnecessárias. No trabalho não deveria ser diferente.

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Uma organização acessível não é aquela que presume conhecer todas as necessidades. É aquela que cria condições para que alguém possa dizer “preciso disto para trabalhar melhor” e saiba que esse pedido será ouvido, avaliado com respeito e respondido com critérios objetivos.

Isto exige também que deixemos de pensar nas “pessoas com deficiência” como um grupo homogéneo e separado dos restantes colaboradores. As necessidades e as experiências são diferentes, e muitas não são visíveis.

Talvez a pergunta que devêssemos fazer às empresas seja simples: se amanhã um colaborador que sempre consideraram não ter qualquer necessidade particular disser que precisa de uma adaptação para continuar a desempenhar bem o seu trabalho, o que acontece a seguir?

Se a resposta não for clara, a organização ainda tem trabalho a fazer em matéria de acessibilidade.

Porque incluir não é apenas abrir a porta. É garantir que, depois de entrar, cada pessoa tem condições reais para participar.

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