Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros
Pois é, mais uma vez as matérias-primas/materiais críticos. Já aqui abordei várias vezes esta questão de um ponto de vista genérico e até uma vez no que se refere à relação dos materiais críticos com questões geoestratégicas e geopolíticas específicas (ex. https://executivedigest.sapo.pt/opiniao/tera-sido-por-isto/ 11 dez 2024).
Agora, à medida que o tempo vai passando e que a China vem reforçando as suas forças armadas e o seu poderio económico e vai ameaçando, cada vez mais, o domínio da zona do indo-pacífico, com realce para as ameaças a Taiwan, está na altura de voltar a abordar de novo este tema, à luz das mais recentes informações.
Segundo dados da Comissão Europeia/Bloomberg referentes à dependência da Europa dos recursos chineses, temos a seguinte lista de materiais fornecidos pela China à Europa em 2024 (referindo apenas os casos >50%):
- Terras raras pesadas (energia nuclear, ecrãs, fibras ópticas) – 100%
- Magnésio (ligas para a indústria aeroespacial e automóvel) – 97%
- Terras raras leves (catalisadores, magnetos, motores de avião) – 85%
- Lítio (baterias, cerâmica, produtos farmacêuticos) – 79%
- Gálio (semicondutores, LEDs, painéis solares) – 71%
- Escândio (indústria aeroespacial, sistemas de produção de energia elétrica) – 67%
- Bismuto (ligas de baixo ponto de fusão, produtos farmacêuticos e cosméticos) – 65%
- Vanádio (ligas de aço, ferramentas, indústria aeroespacial) – 62%
Por aqui podemos depreender a enorme dependência da Europa. E aqui fica mais um dado também recente: a China foi responsável por 99% do processamento global de terras raras pesadas em 2024 e detém cerca de 49% das reservas mundiais. O que afunila ainda mais a questão.
Relativamente às exportações de terras raras por parte da China, este país implementou, em 2 de abril passado, um novo regime de licenças que obriga as empresas estrangeiras a solicitar autorização para exportar algumas dessas terras raras e até os magnetos derivados (componentes essenciais de motores elétricos, aerogeradores etc.), invocando razões de segurança nacional. Este tipo de controlo tem impacto significativo em setores altamente dependentes destes materiais. E em qualquer altura as cadeias de abastecimento podem ser afetadas por novas medidas.
Face a tudo isto existem políticas europeias que apontam para um crescimento da exploração mineira a nível europeu. Uma das possíveis abordagens é a mineração em mar profundo, uma área em que o nosso país poderia vir a dar cartas, como será fácil de entender do ponto de vista geográfico.
Dizem os entendidos que quando se fala de mar profundo se aponta para profundidades superiores a 200 metros. E que normalmente a mineração no fundo do mar é uma atividade que se desenvolve por volta dos 4000 metros, onde se pode encontrar cobre, cobalto, manganês, ferro, níquel, ouro e lítio. Usa-se um processo de raspagem por máquinas especialmente desenvolvidas para isso, onde estão os nódulos polimetálicos que se foram depositando ao longo das épocas. Estes nódulos podem ser aspirados, fazendo-se depois a separação entre o metal e o sedimento, sendo este último posteriormente devolvido ao oceano.
Porém estes nódulos podem servir de base para certas formas de vida marinha, pelo que é necessário ter os devidos cuidados, de forma a não haver uma destruição irreversível do fundo do mar, o que não se coaduna com os esforços de conservação e proteção do ambiente. Pode inclusive haver libertação de CO2 armazenado nos sedimentos. Num estudo recente publicado na conceituada revista Nature, com base em dados de um teste real de extração realizado em 1979, é referido que a vida marinha dessas profundezas pode levar décadas a recuperar totalmente do impacto da extração.
Acresce o facto de a maior parte do mar não pertencer a ninguém e de, por isso, a sua exploração dever ser regulamentada, pois trata-se de um património comum, cujos benefícios deveriam ser partilhados.
Se é verdade que há muitos apelos para uma pausa na exploração do fundo do mar, também é verdade que a Noruega se tornou o primeiro país a aprovar a extração mineira neste contexto.
A atividade do homem tem sempre impacto. Maior ou menor, positivo ou negativo. Por isso há que pesar todos estes fatores no sentido de minimizar esse impacto.




