O Governo moçambicano prevê impactos do fenómeno El Niño em pelo menos 52 distritos das regiões sul e centro do país e prepara um plano de ação para mitigar os efeitos da seca e da escassez de água.
“Nós estamos a acompanhar a previsão da chegada do El Niño e, segundo as previsões, ele [o fenómeno] terá maior impacto nas regiões sul e centro do país, o que significa que vamos ter estiagens, períodos de seca, menos água e, como setor responsável pelos recursos hídricos, o Governo está a trabalhar num plano concreto de mitigação”, disse o ministro das Obras Públicas, Habitação e Recursos Hídricos, Fernando Rafael, citado hoje pela comunicação social.
O governante explicou que o plano será debatido em Conselho de Ministros e visa, essencialmente, recuperar sistemas de abastecimento de água atualmente inoperacionais nos distritos que deverão ser afetados pela seca, bem como instalar novos sistemas para facilitar o acesso à água nas zonas mais vulneráveis.
O ministro adiantou que o Governo prevê impactos do fenómeno El Niño em 52 distritos.
“Temos um total de 52 distritos críticos que vão sofrer os efeitos do El Niño no sul e centro do país”, afirmou.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inam) de Moçambique já tinha ativado ações antecipadas de resposta face ao risco de ocorrência de seca em 26 distritos de sete províncias do país, conforme a Lusa noticiou na quarta-feira.
Embora o Governo estime impactos em 52 distritos, as medidas anunciadas pelo Inam abrangem, nesta fase, 26 distritos considerados prioritários para ações de resposta antecipada.
As Nações Unidas alertam que o financiamento da resposta humanitária em Moçambique garante apenas 30% das necessidades para 2026, numa altura em que o conflito armado provocou 28.163 deslocados este ano e em que persistem riscos acrescidos de seca associados ao El Niño.
Em julho, um relatório da organização internacional independente ACAPS indicou que Moçambique é um dos países com maior risco de impactos humanitários associados ao fenómeno El Niño, que deverá persistir até março de 2027, agravando a insegurança alimentar, a escassez de água, a desnutrição e as necessidades sanitárias.
O relatório da organização, que analisa crises humanitárias e apoia a tomada de decisões no setor da ajuda humanitária, considera as atuais condições do El Niño das mais intensas desde 1950.
O documento coloca Moçambique na lista dos países com “maior risco de impactos humanitários severos causados ou agravados pelo El Niño entre julho de 2026 e março de 2027”, juntamente com Afeganistão, Burkina Faso, Etiópia, Guatemala, Haiti, Honduras, Quénia, Madagáscar, Mali, Paquistão, Filipinas, Somália, Sudão do Sul e Sudão.
O fenómeno El Niño está associado, em Moçambique, a períodos de precipitação abaixo da média em várias regiões, com impacto na produção agrícola, principal fonte de subsistência de grande parte da população rural.
Também um relatório divulgado em 16 de julho pela Aliança para uma Revolução Verde em África (AGRA) estimou que mais de 3,5 milhões de moçambicanos enfrentam níveis preocupantes de insegurança alimentar, alertando que a persistência do El Niño até ao final de 2026 e início de 2027 poderá reduzir as chuvas, agravar as perdas agrícolas e aumentar os preços dos alimentos.
Segundo o documento, Moçambique é o quinto país da África Austral com o maior número absoluto de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda, e as melhorias verificadas na atual campanha agrícola poderão ser temporárias caso se confirmem os cenários climáticos previstos para o final de 2026 e início de 2027.













