Espanha e Marrocos estão este sábado em alerta perante a possibilidade de uma nova tentativa de entrada em massa de migrantes em Ceuta por via marítima, depois de mensagens difundidas nas redes sociais terem apontado o dia 15 de agosto como data para uma nova mobilização.
“A nossa última oportunidade” e “Tudo será revelado nesse dia” são algumas das mensagens que têm circulado em grupos de WhatsApp, Facebook e Instagram, segundo o jornal espanhol ’20 Minutos’. As autoridades dos dois países não sabem se os apelos se traduzirão efetivamente numa nova tentativa de atravessar a fronteira, mas decidiram não correr riscos.
O dispositivo envolve centenas de elementos das forças de segurança marroquinas, reforços policiais espanhóis e apoio militar. E as medidas já não se limitam a Ceuta: uma nova barreira flutuante com cerca de 500 metros foi instalada no extremo do quebra-mar sul de Melilla, junto à fronteira com Marrocos.
Tudo acontece pouco mais de duas semanas depois da entrada de dezenas de milhares de migrantes em Ceuta, a 30 e 31 de julho, numa crise que deixou a cidade autónoma sob enorme pressão.
Mensagens chegam a grupos com centenas de milhares de membros
A Guardia Civil está a acompanhar várias publicações que convocam pessoas para Castillejos, designação espanhola da cidade marroquina de Fnideq, junto à fronteira com Ceuta.
As mensagens circulam em grupos nas redes sociais e aplicações de mensagens instantâneas, alguns dos quais reúnem centenas de milhares de utilizadores.
Vários fazem referência ao termo “harraga”, utilizado no Norte de África para designar pessoas que tentam emigrar ou atravessar fronteiras de forma irregular.
As autoridades espanholas levam os apelos suficientemente a sério para manter um dispositivo reforçado, embora fontes da Guardia Civil citadas pelo 20 Minutos considerem pouco provável que uma eventual tentativa alcance a dimensão dos acontecimentos de 30 e 31 de julho.
Há ainda outra possibilidade em cima da mesa. Fontes ouvidas pela televisão pública espanhola TVE admitiram que uma tentativa poderia ser antecipada ou adiada precisamente para surpreender as forças de segurança.
Marrocos coloca centenas de agentes junto à fronteira
Do outro lado da fronteira, Marrocos reforçou significativamente o dispositivo.
Segundo o ‘El País’, centenas de elementos das forças de segurança, apoiados por militares, foram mobilizados para a região de Fnideq.
As autoridades instalaram também concertinas e arame farpado em estruturas fronteiriças.
Rachid el Jalfi, porta-voz do Ministério do Interior marroquino, afirmou que Rabat adotou todas as medidas consideradas necessárias para impedir novas travessias irregulares e intercetar pessoas que tentem participar numa entrada em massa.
O responsável descreveu o dispositivo como uma “vigilância contínua” das fronteiras com Ceuta e Melilla.
As autoridades marroquinas dizem ainda ter identificado numerosas mensagens destinadas a organizar novas travessias e garantem que várias pessoas foram detidas e processadas por alegadamente difundirem informações falsas para favorecer a imigração irregular.
Espanha mobiliza cerca de 1.600 polícias e guardas civis
Também do lado espanhol o dispositivo permanece muito acima do habitual.
Segundo o ‘El País’, o número conjunto de elementos da Polícia Nacional e da Guardia Civil em Ceuta passou de pouco mais de 1.100 para cerca de 1.600 desde o início da crise.
A estes juntam-se cerca de 2.000 militares em funções de apoio.
No próprio dia da entrada em massa de julho, o Ministério do Interior enviou aproximadamente 350 agentes adicionais para Ceuta, incluindo 225 elementos das Unidades de Intervenção Policial.
As praias e outros pontos considerados particularmente vulneráveis receberam atenção especial. Foram ainda enviados especialistas em expulsões, estrangeiros e fronteiras, informação e combate ao terrorismo.
A Guardia Civil reforçou igualmente a vigilância da costa e da fronteira, mobilizando mergulhadores do Grupo Especial de Atividades Subaquáticas, o navio ‘Duque de Ahumada’ e um helicóptero.
Nova barreira de 500 metros em Melilla
A preocupação com uma eventual nova vaga migratória levou ainda Espanha a reforçar a proteção de Melilla.
Uma barreira flutuante semelhante à instalada em Ceuta depois da crise de 30 de julho foi colocada no extremo do quebra-mar sul da cidade autónoma.
Com cerca de 500 metros, a estrutura prolonga a separação da fronteira terrestre para o mar, na zona próxima do porto marroquino de Nador.
Segundo fontes policiais citadas pela agência EFE, a instalação destas barreiras ganhou importância depois de uma decisão do Supremo Tribunal espanhol limitar a possibilidade de expulsar diretamente na fronteira pessoas que tentam chegar a Ceuta a nado.
O objetivo passa, assim, por dificultar fisicamente a passagem através do mar antes de os migrantes alcançarem território espanhol.
Marlaska deixa aviso a quem tentar entrar
O ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, garante que Madrid está a trabalhar em estreita coordenação com Rabat para impedir a repetição dos acontecimentos do final de julho.
E deixou uma mensagem direta aos potenciais migrantes: quem entrar irregularmente não ficará em Ceuta, não será transferido para a Península e não obterá automaticamente a regularização.
Ao mesmo tempo, as autoridades espanholas estão a tentar acelerar a saída de cerca de 5.000 migrantes em situação irregular que ainda permanecem na cidade autónoma.
Marrocos também pressiona Madrid para acelerar os retornos, incluindo de menores marroquinos. Segundo Marlaska, 1.898 menores encontravam-se esta semana sob tutela.
Crise de julho ainda deixa marcas
A preparação para este sábado acontece quando Ceuta ainda não regressou à normalidade depois dos acontecimentos de 30 e 31 de julho.
O presidente da cidade autónoma, Juan José Vivas, reconheceu que muitos habitantes continuam apreensivos perante a possibilidade de uma repetição da entrada em massa.
Marlaska admitiu igualmente que o regresso à situação anterior a 29 de julho deverá demorar.
A atuação de Marrocos durante os primeiros momentos daquela crise continua, entretanto, sob escrutínio. O ‘El País’ relatou que jornalistas observaram ocasiões em que as forças marroquinas não impediram grandes grupos de avançar em direção a Ceuta.
Uma fonte governamental marroquina justificou posteriormente essa atuação com a necessidade de evitar confrontos e potenciais feridos perante a dimensão das multidões.
Apesar das divergências, Madrid insiste que a cooperação com Rabat é atualmente estreita e considera-a essencial para evitar um novo episódio semelhante.
Um sábado sob vigilância reforçada
Não existe, para já, certeza de que os apelos que circulam nas redes sociais se transformem numa nova tentativa de entrada em massa. As próprias forças de segurança espanholas recordam que mobilizações semelhantes anunciadas anteriormente acabaram por não se concretizar.
Mas depois do que aconteceu no final de julho, Espanha e Marrocos não estão dispostos a tratar o 15 de agosto como apenas mais uma ameaça na Internet.
Ceuta chega assim a este sábado com mais polícias nas ruas e praias, reforço militar e vigilância apertada dos acessos marítimos e terrestres. Do lado marroquino, centenas de agentes estão posicionados junto à fronteira.
E, a algumas centenas de quilómetros, Melilla ganhou entretanto uma barreira flutuante de 500 metros.
A incógnita que permanece é precisamente aquela que as autoridades tentam resolver desde que começaram a circular as mensagens: quantas pessoas, se algumas, responderão hoje ao apelo para tentar novamente chegar a território espanhol.



















