No início de novembro do ano passado, Lewis Hamilton ficou em segundo lugar no Grande Prémio dos EUA (Circuito das Américas, Austin), terminando apenas a alguns segundos do companheiro de equipa Valtteri Bottas. O segundo lugar garantiu-lhe pontos suficientes para conquistar o seu 6.º campeonato de Fórmula 1, deixando-o apenas a um de igualar o recorde de 7 de Michael Schumacher.

Um feito incrível para o britânico de 34 anos que se tornou num dos maiores nomes de sempre da Fórmula 1. Mas o domínio contínuo de Hamilton – cinco dos seus campeonatos ocorreram nos últimos seis anos – também é o principal indicador da maior ameaça ao futuro sucesso da prova rainha do desporto motorizado: a influência desenfreada de gastos não controlados.
Grande parte do sucesso de Hamilton foi possível pelo simples facto da sua equipa, a Mercedes, estar disposta a superar a competição: a marca alemã gasta por ano cerca de 430 milhões de dólares (362,76 milhões de euros) por ano, mais do dobro do que a maioria das equipas de F1 é capaz gastar numa temporada. E graças a esses gastos, a Mercedes torna-se intocável em pista: venceu cada um dos últimos seis campeonatos com tremenda facilidade (a equipa conquistou todos os títulos, exceto um, a três provas do fim da temporada).
Já as equipas menos valiosas são forçadas a lutar pelos restos enquanto lutam para permanecer solventes – na verdade, a história da Fórmula está cheia de cadáveres de equipas que não aguentaram as pressões financeiras… Nada de novo, portanto, no mundo da F1 – um dos desportos mais caros do mundo e em que as diferenças abismais financeiras entre as equipas acaba por distorcer a verdade desportiva.
Mas estas questões poderão deixar de se colocar muito em breve: a dona da F1, a Liberty Media, prepara-se para implementar medidas, há muito esperadas, de controlo de custos (entre várias outras reformas). O objetivo passará por renovar a prova rainha, viabiliza-la em termos financeiros e torna-la emocionalmente mais competitiva e próxima da verdade desportiva.
O que acabará por penalizar as principais equipas da competição que têm o dinheiro do seu lado… E que poderão não querer perder essa vantagem competitiva. Assim sendo, a Liberty Media promete implementar as várias medidas apenas na a partir de 2021 e ver no que dá – para não perder as equipas que mais injetam dinheiro na prova.
Não há muito tempo, a Fórmula 1 estava numa confusão: a sua instabilidade financeira forçou-a a desistir repetidamente de tentativas de abertura de capital em Singapura, e um desfile de potenciais compradores privados abandonou os seus planos de compra depois de examinar mais de perto o que era uma teia clandestina de holdings eleborada por Bernie Ecclestone, o ex-responsável-todo-poderoso da F1. A prova perdeu 12% do seu valor – mais de mil milhões de dólares – em menos de cinco anos.
Esse valor de referência foi estabelecido em janeiro de 2017, quando a Liberty Media do bilionário John Malone finalmente comprou a Fórmula 1 por 8 mil milhões de dólares (7,26 mil milhões de euros). Desde então, a F1 parece estar a encontrar o seu caminho: no ano passado, a prova gerou 1,83 mil milhões de dólares (1,63 mil milhões de euros) de receita, um aumento de 2,5% em relação ao ano anterior.
Em bolsa, a Fórmula 1 (FWONK) tem um valor de mercado de 10 mil milhões de dólares (9,07 mil milhões de euros) e cada ação já vale mais 48% desde a compra da Liberty. O público televisivo norte americano está a crescer – 22% na última temporada -, assim como o número de espetadores que assistem às corridas in loco.
Mas a F1 ainda não é uma história de recuperação financeira bem-sucedida… A receita de 2018 veio sobretudo de “fora” da principal prova do desporto motorizado como a Fórmula 2, a produção de TV, e os serviços de hospitalidade e viagens. Enquanto isso, as receitas de patrocínio direto caíram e as taxas de participação cresceram apenas um milhão de dólares (apesar da inclusão de uma corrida adicional). A F1 perdeu também audiência televisiva – passou de transmissão em canal aberto para canal pago por cabo -, sendo que as receitas de transmissão permaneceram praticamente inalteradas.
E, embora a audiência nos EUA esteja a subir, a taxa total ainda é minúscula – para se ter noção: o público da F1 de 680 mil espectadores norte-americanos por corrida é apenas um quinto da média da NASCAR (e o canal ESPN que transmite esta competição nem paga direitos de transmissão…).
A partir de 2021, a Fórmula 1 promete componentes padronizados para todos os carros, menos testes e novos design de carros para diminuir a força descendente, permitindo assim corridas mais competitivas. O mais notável é que a F1 também irá limitar os gastos de cada equipa a 175 milhões de dólares (158,71 milhões de euros) por temporada – embora custos de motores e salários de pilotos, por exemplo, não contem para esse limite.
É um ajuste radical, mas necessário. Embora a maioria das equipas tenha capacidade para perder algum dinheiro – o sucesso em pista é principalmente uma jogada de marketing para os proprietários corporativos das equipas -, o custo de competir na F1 é insustentável para as equipas intermediárias: nos últimos anos, empresas como a Lotus, a Force India e a Manor Racing foram à falência ou foram vendidas por cêntimos.
O verdadeiro desafio da F1, no entanto, será o de persuadir as equipas como a Ferrari, a Mercedes e a Red Bull a travar os seus gastos e darem uma (real) oportunidade competitiva às outras equipas. Mas as equipas endinheiradas da F1 não estão muito interessadas em perder as suas vantagens atuais e, com os seus contratos a expirar no próximo ano, estão a aproveitar a oportunidade para pressionar a Liberty.










