O terramoto de magnitude 6,8 que atingiu a ilha japonesa de Kyushu no final de julho, provocando pelo menos 38 mortos e mais de 120 feridos, deu origem a uma vaga de desinformação nas redes sociais, com teorias da conspiração, imagens falsas e rumores que se espalharam a uma velocidade semelhante à das notícias sobre a tragédia.
Segundo o ‘The Independent’, uma das teorias mais difundidas sustenta que o sismo foi provocado artificialmente, enquanto outras alegam que o terramoto nunca aconteceu ou recorrem a imagens geradas por inteligência artificial para ilustrar alegados cenários de destruição.
O sismo atingiu a província de Kumamoto a 28 de julho, provocando o colapso parcial de um centro comercial na cidade de Kashima e obrigando à evacuação de cerca de 300 mil pessoas. O balanço mais recente aponta para 38 mortos e mais de 120 feridos.
“Foi um terramoto provocado”
Dados analisados pela empresa americana Meltwater mostram que, nos dias anteriores ao sismo, já circulavam centenas de publicações em japonês a defender a teoria de um “terramoto artificial”. No próprio dia da tragédia, esse número disparou para cerca de 10 mil publicações e ultrapassou as 38 mil no dia seguinte.
Embora muitas dessas mensagens procurem desmentir a teoria, milhares continuam a divulgá-la diariamente.
Uma das publicações mais partilhadas, vista por cerca de três milhões de pessoas, defendia que os registos sísmicos correspondiam a uma explosão e não a um terramoto.
Perante a propagação destas alegações, a Sociedade Sismológica do Japão criou uma secção específica no seu portal para explicar porque é que um sismo desta dimensão não pode ser provocado artificialmente.
Segundo os especialistas, seria necessário perfurar vários quilómetros até à profundidade onde ocorreu o sismo e detonar uma carga com uma energia impossível de produzir com a tecnologia atualmente disponível.
Imagens falsas e rumores
Além das teorias sobre a origem do terramoto, começaram também a circular fotografias criadas por inteligência artificial que mostravam um centro comercial envolvido em chamas, bem como publicações que negavam a própria ocorrência do sismo ou afirmavam que as explosões registadas no local tinham sido encenadas.
Segundo o ‘Japan Times’, parte da desinformação teve também uma componente política.
Circularam, por exemplo, publicações que acusavam cidadãos estrangeiros de pilhagens e incêndios, recorrendo a vídeos retirados do contexto. Num dos casos, um vídeo que mostrava várias pessoas a comer junto a uma loja de conveniência foi apresentado como prova de um alegado saque.
O autor da gravação esclareceu posteriormente que os alimentos tinham sido distribuídos pelas autoridades como ajuda de emergência, tanto a trabalhadores japoneses como estrangeiros, e pediu que o vídeo deixasse de ser utilizado para alimentar discursos anti-imigração.
Também a ajuda oferecida por Taiwan foi alvo de alegações falsas, incluindo imagens de alegados distintivos usados por equipas de resgate que, afinal, correspondiam a artigos vendidos online por uma empresa taiwanesa.
A desinformação após as catástrofes
O Centro Japonês de Verificação de Factos alerta que este tipo de teorias é frequentemente difundido tanto por pessoas que acreditam nelas como por utilizadores que sabem que são falsas, mas procuram gerar visualizações e interações nas plataformas digitais.
Os responsáveis recomendam que, perante informações particularmente chocantes ou invulgares, os utilizadores confirmem sempre os factos junto de fontes oficiais ou de órgãos de comunicação social credíveis.
Não é a primeira vez que acontece. Após os sismos de 2016 no Japão, que provocaram 277 mortos, tornou-se viral o falso rumor de que um leão tinha escapado de um jardim zoológico. A mesma alegação voltou a surgir nas redes sociais após o terramoto deste verão.

















