Comer carne sem matar animais? Indústria multiplica investimentos e alternativas

Produtos semelhantes à carne enfrentam desafios tecnológicos importantes pela frente

Francisco Laranjeira

O crescimento da população mundial, já com quase 8 mil milhões de pessoas, promoveu desequilíbrios ambientais de difícil sustentação. Em particular, a indústria de produção de carne, que é responsável por 14,5% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo dados da Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO) da ONU. Há outros impactos associados, tais como a deflorestação, para ampliar as terras de cultivo de forragem, os resíduos e o sofrimento dos animais.

Para minorar esse impacto, uma das soluções será reduzir o consumo de carne, uma tendência que parece estar a ser seguida em diversos países. Ou então, apresentar outra ‘versão’ de carne, uma combinação de ciência, tecnologia e capitalismo – ou seja, uma indústria de carne sem carne.

Desde que, em 2013, o investigador da Universidade de Maastrich, na Holanda, apresentou em Londres um hamburguer artificial que custou 250 mil euros, a produção de carnes avançou em ritmo acelerado. Seren Kell, diretora de ciência e tecnologia na Europa da ONG ‘The Good Food Institute’ (GFI), explicou que, apesar de haver proteínas alternativas à carne muito válidas do ponto de vista dietético, como as encontradas nos legumes, a criação de produtos que ‘imitem’ a experiência da carne de origem animal é útil, mais que não seja para facilitar a transição para um mundo com menos carne. “Para conquistar os consumidores, é necessário sabor, preço e facilidade de acesso”, lembrou Kell.

Entre as metas do GFFI está a redução do sofrimento animal e as alterações climáticas. “Trata-se de obter produtos que sejam algo fáceis de integrar na alimentação de muitas pessoas, sem necessidade de se ter grande criatividade como cozinheiro. Assim que houver produtos que imitem os que estamos habituados a comer, é mais fácil que alterem parte da sua dieta baseada na proteína animal”, frisou Kell.

Atualmente, alguns dos resultados mais espetaculares têm sido obtidos com base em sucedâneos de plantas – a carne cultivada a partir de células extraídas de animais e multiplicadas em biorreatores aspira a criar produtos parecidos aos hambúrgueres ou às salsichas. Em Israel, um dos países mais avançados nestas tecnologias, a ‘Redefine Meat’ já consegue produzir pedaços de carne completos que conseguem recrear a sua textura e sabor, utilizando para o efeito impressoras 3D, feitas à base de soja, ervilhas, beterraba e azeite de coco. Estas carnes estarão disponíveis em alguns restaurantes europeus nos próximos meses.

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O processo de criação da carne artificial envolve igualmente micróbios, responsáveis pela fermentação, num processo em tudo semelhante ao da cerveja. Bosco Emparanza, conselheiro delegado da biotecnológica ‘MOA Foodtech’, explicou que os micróbios são capazes de transformar em proteínas baratas e nutritivas os resíduos vegetais da indústria agroalimentar. “Temos vindo a trabalhar para transformar os resíduos em proteínas. Antes dávamos aos porcos ou vacas, agora damos a microrganismos que fazem essa conversão de uma forma muito mais eficiente, utilizando menos 98% da água e gerando menos de 85% de CO2 do que as vacas”, apontou.

Marco Bertacca, conselheiro delegado da ‘Quorn Foods’, empresa dedicada à fermentação, calculou que se fosse possível processar com as novas tecnologias de fermentação as 8 mil milhões de toneladas de desperdícios de carbohidratos que a agricultura produz num ano, obter-se-ia a mesma quantidade de proteína de quase “5 mil milhões de vacas, três vezes mais vacas que existem no planeta atualmente”. Conseguir converter uma pequena fração destes resíduos levaria logo a uma mudança relevante na pegada de carbono da produção alimentar.

No entanto, como todas as tecnologias, o tempo pode ser um aliado, até porque a mudança só poderá ser gradual. “Não creio que se vá substituir a 100% a carne de origem animal mas é possível consumir de outra forma, reduzindo a quantidade que comemos, que é claramente excessiva, e aproveitar as alternativas. A carne ‘cultivada’ está ainda numa fase incipiente. Haverá uma transição quando se tornar útil”, finalizou Emparanza.

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