“Cheiro a pessoa idosa” é uma expressão que muitas pessoas associam à recordação do odor de familiares mais velhos, frequentemente descrito como uma combinação entre óleo envelhecido, cartão húmido ou livros antigos. Embora possa parecer apenas uma consequência da roupa, da casa ou dos hábitos de higiene, os especialistas explicam que existe, de facto, uma alteração biológica associada ao envelhecimento da pele que pode estar na origem desse odor característico. O fenómeno está relacionado com a produção de uma substância chamada 2-nonenal, um composto orgânico pertencente ao grupo dos aldeídos.
A investigação citada pelo HuffPost, num artigo publicado a 30 de agosto de 2026 pela jornalista Julie Kendrick, aponta para o aumento da presença de 2-nonenal na pele à medida que os anos passam. Segundo a dermatologista Delphine J. Lee, diretora de Dermatologia e do programa de residência do Harbor-UCLA Medical Center, nem todos os aldeídos têm o mesmo odor, dando como exemplo a cinamaldeído, composto responsável pelo aroma e sabor característicos da canela. No caso do envelhecimento, o aumento do 2-nonenal está associado a uma alteração no equilíbrio da pele. A dermatologista Sonal Choudhary, da University of Pittsburgh School of Medicine, explica que, com a idade, diminuem as defesas antioxidantes da pele, altera-se a composição do sebo e acumulam-se os efeitos da exposição aos raios ultravioleta e a outros fatores ambientais, aumentando os danos oxidativos. “À medida que envelhecemos, várias coisas acontecem simultaneamente na nossa pele”, afirmou Choudhary, acrescentando que as alterações mensuráveis no 2-nonenal surgem normalmente depois dos 40 anos e tendem a tornar-se mais evidentes a partir dos 50. O processo é gradual e a intensidade varia consoante fatores como genética, tipo de pele, estilo de vida e exposição ambiental. A dermatologista Naana Boakye, fundadora da Bergen Dermatology, considera que se trata de um fenómeno comum relacionado com a idade, observado em adultos mais velhos de ambos os sexos, embora os níveis possam variar significativamente de pessoa para pessoa.
Uma das particularidades deste odor é que a própria pessoa pode não se aperceber dele. A adaptação olfativa faz com que o cérebro se habitue progressivamente a cheiros familiares e deixe de lhes prestar a mesma atenção, um mecanismo semelhante ao que explica por que razão alguém pode reconhecer imediatamente o cheiro da casa de um amigo, mas não detetar o odor característico da sua própria casa. Além disso, o cheiro não é necessariamente desagradável para todos. Lee alertou que existe uma tendência para considerar o odor do envelhecimento desagradável ou repulsivo, quando este pode ser mais neutro ou até mais agradável do que alguns odores corporais associados a pessoas mais jovens. “As pessoas podem exagerar ao considerar que este cheiro é desagradável ou repugnante”, explicou a especialista.
Porque é que o cheiro não desaparece simplesmente com um banho?
Ao contrário do suor, o 2-nonenal não é facilmente eliminado com água e sabão. Danielle Reed, responsável científica do Monell Chemical Senses Center, instituto dedicado ao estudo do paladar e do olfato, explica que a molécula tem características que fazem com que adira facilmente à pele e aos tecidos. “É difícil livrarmo-nos desta molécula, porque é muito pegajosa”, afirmou Reed, acrescentando que parte pode ser removida durante o banho, mas que o organismo continua a produzi-la, pelo que a lavagem, por si só, não constitui uma solução definitiva. Boakye considera que produtos de limpeza com antioxidantes podem ser úteis e admite que ingredientes capazes de se ligar aos aldeídos, como os taninos, poderão ajudar algumas pessoas a reduzir a persistência do odor. A especialista referiu, a título de exemplo, o sabonete de dióspiro, que contém taninos e apresenta um mecanismo plausível para esse efeito, embora reconheça que ainda faltam grandes ensaios clínicos aleatorizados que comprovem a sua eficácia. A investigação também tem analisado o potencial do extrato de beringela na redução do stress oxidativo associado à formação de 2-nonenal. Num estudo publicado no ano passado, investigadores concluíram que diferentes partes da beringela, bem como o seu composto ativo N-trans-feruloilputrescina, apresentavam atividade na eliminação de 2-nonenal. Lee, contudo, sublinhou que os resultados ainda não permitem falar numa solução para o problema, uma vez que os dados clínicos em humanos permanecem limitados. Também um estudo mais antigo apontou inicialmente para a possibilidade de o extrato de cogumelo branco ajudar a reduzir o odor corporal em pessoas entre os 50 e os 79 anos, mas não surgiram grandes ensaios clínicos que confirmassem esses resultados. Por isso, os especialistas ouvidos pelo HuffPost são claros: não existe atualmente uma forma comprovadamente eficaz de eliminar completamente o 2-nonenal da pele. “Se conseguíssemos descobrir isto, ficaríamos muito ricos, mas até agora não há nada que seja verdadeiramente útil”, resumiu Reed.
Um sinal natural do envelhecimento, e não de falta de higiene
Apesar da associação social ao chamado “cheiro a velho”, os especialistas defendem que não há motivo para vergonha ou julgamento. Choudhary salienta que este odor não significa falta de higiene e que, embora seja uma alteração natural da pele envelhecida, não tem necessariamente de ser inevitável ou impossível de atenuar. “Esta é uma alteração bioquímica normal da pele com o envelhecimento, semelhante às rugas ou à secura”, afirmou a dermatologista, acrescentando que cuidados adequados da pele, apoio antioxidante e uma lavagem apropriada dos tecidos podem ajudar a reduzir significativamente o fenómeno. Reed chama ainda a atenção para a dimensão subjetiva do olfato e para a forma como a sociedade atribui diferentes valores aos cheiros associados às várias fases da vida. “Decidimos que não gostamos do cheiro das pessoas idosas, mas adoramos o cheiro da cabeça dos bebés”, observou a especialista, defendendo que talvez seja possível olhar de outra forma para os odores naturais associados ao envelhecimento.
Para Lee, a questão deve ser enquadrada numa perspetiva mais ampla sobre o próprio processo de envelhecer. “Como dermatologista, saliento que o envelhecimento é um processo biológico natural e permanente vivido por todos nós”, afirmou, defendendo que a prioridade deve estar na promoção da saúde e do bem-estar ao longo da vida, reconhecendo também a sabedoria, a resiliência e a experiência acumulada com a idade. Na perspetiva da especialista, alterações físicas como o odor corporal ou as rugas fazem parte de uma vida vivida e não deveriam ocupar um espaço excessivo na forma como avaliamos o envelhecimento. O chamado “cheiro a velho” é, assim, menos uma questão de higiene do que uma manifestação possível das transformações naturais que ocorrem na pele com o passar dos anos.













