Instabilidade mundial deve-se a populismo de direita que hoje é ‘establishment’

O investigador Benjamin Teitelbaum alertou que os maiores conflitos mundiais resultam de regimes populistas de direita, que já são hoje o ‘establishment’.

Executive Digest com Lusa

O investigador Benjamin Teitelbaum alertou que os maiores conflitos mundiais resultam de regimes populistas de direita, que já são hoje o ‘establishment’.

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Autor do livro “A aliança invisível”, sobre a “cruzada da extrema-direita global para destruir o mundo moderno”, agora publicado em Portugal, Benjamin Teitelbaum recordou em entrevista à Lusa que a maioria dos conflitos mundiais atuais são alimentados por movimentos de extrema-direita que estão no poder, seja a invasão da Ucrânia, os ataques ao Irão ou a repressão em Gaza.

Os políticos de extrema-direita “apresentam-se como estando fora do ‘establishment’, mas já são o ‘establishment’. Eles fazem parte do poder”, afirmou o autor, professor de relações internacionais no Colorado (EUA) e que escreveu um livro sobre o que une os ideólogos dos movimentos populistas de direita, como o norte-americano Steve Bannon, o brasileiro Olavo de Carvalho ou o russo Alexandr Dugin.

Sobre Portugal, Benjamin Teitelbaum admitiu que não prestou muita atenção, porque “o país não estava na vanguarda do que parecia ser um movimento europeu” da extrema-direita, mas “as coisas mudaram”.

O caso português é “parecido com o que aconteceu na Alemanha”, ou “em toda a Escandinávia, onde também existe uma velha ideologia política de centro-esquerda que foi difícil de destronar, mas a direita populista entrou em cena e quase assumiu o controlo, tornando-se o segundo maior partido, como sucede agora em Portugal”, explicou.

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Os sistemas tendem a reagir de dois modos: ou por um cordão sanitário em torno da extrema-direita, como sucedeu em França e na Alemanha, “que conduz sempre a um reforço eleitoral dos populismos” ou pela inclusão desses movimentos na órbita do poder.

Onde o crescimento da extrema-direita “abrandou um pouco foi nos países que formaram, de facto, uma espécie de coligação de direita que incluiu os populistas”, salientou, dando o exemplo da Dinamarca, onde “foi necessário que o poder se tornasse populista de direita por algum tempo”.

“Acho que, se olharmos a nível internacional, veremos que a principal vítima do populismo de direita não tem como alvo a extrema-esquerda, nem o centro-esquerda, mas sim o centro-direita”, explicou.

No mundo de língua portuguesa, a derrota de Bolsonaro pode ter dado a ilusão de uma queda da influência da extrema-direita, mas “isso foi contra uma tendência global em que o populismo de direita se tornou, de facto, mais consolidado e mais estável”.

Contudo, esta “institucionalização do populismo de direita também o tornou menos recetivo ao tipo de vida intelectual excêntrica que tinha anteriormente”, quando os seus dirigentes poderiam dizer que “não faziam parte do sistema político” e por isso “não havia soluções concretas para as pessoas”.

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“O centro-direita foi o território político onde o populismo causou um verdadeiro furor”, mas hoje esses ideólogos marginais e os dirigentes políticos “estão agora a ocupar e a dirigir o ‘establishment'”, disse.

Hoje, a extrema-direita “é a elite” contra a qual se rebelou, com a “oposição a ser o ‘outsider’ e o rebelde”, resumiu.

Para reagir aos populismos, Benjamin Teitelbaum recomendou que a “política tenha conteúdo” e que o debate político passe para assuntos concretos.

“É importante ter em conta que o populismo de que estamos a falar não surge fora da lógica democrática, mas sim de dentro. E por isso é que é politicamente poderoso, porque afirmava que o povo não está a ser representado pelo ‘establishment'”, acrescentou.

Atualmente, “este movimento caótico é poder” em muitos países, mas “continua a não dar resposta” às “suas próprias promessas populistas”, disse, salientando a base ideológica nacionalista dos partidos também “torna muito difícil a existência de uma espécie de aliança espiritual populista da direita internacional”.

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O “momento crucial disso foi, de facto, a invasão da Ucrânia pela Rússia” e “é nesse momento que se vê que, apesar de toda a simpatia pela Rússia demonstrada pela administração Trump, e apesar de Orban [Hungria] estar tão alinhado com a Rússia quanto possível, ainda assim se constata que as fraturas geopolíticas mais profundas que existem no nosso mundo vão persistir e que o populismo não vai apagá-las todas para traçar um novo mapa”, disse.

“O confronto entre o Oriente e o Ocidente continua presente” e “as alianças entre estes movimentos populistas tinham um limite e isso ficou demonstrado”, como agora também sucede no Irão ou mesmo na Palestina.

No livro, o autor fala do tradicionalismo, que integra valores reacionários e místicos, evoca passados grandiosos de cada país ou cultura, odeia os sistemas modernos e a democracia representativa.

A religião, refere o autor, é, nalguns casos um instrumento para buscar valores antigos, que contrariem o discurso liberal das sociedades contemporâneas.

Essa construção ideológica depois adapta-se a cada país com maior ou menor intensidade, mas tem como foco comum a destruição da cooperação internacional, das redes económicas e dos regimes democráticos por dentro.

“Ao passo que num plano está a acontecer uma desintegração do mundo que é agradável ao populismo tradicionalista, noutro está a ter lugar uma integração em massa. A tecnologia está a padronizar as nossas vidas” e a “participação é praticamente obrigatória. Por meio das nossas ações mostramos reconhecer a existência de um poder maior, embora não chamemos a esse poder Deus. Chamamos-lhe Inteligência Artificial”, escreveu na nota para a edição portuguesa.

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