A tentativa de atacar um avião ucraniano em Leipzig é apresentada como mais um sinal da reconstrução das redes clandestinas russas na Europa. Ao contrário dos agentes do KGB da Guerra Fria, Moscovo recorre cada vez mais a intermediários recrutados através das redes sociais, oferecendo pequenas quantias para executar operações de sabotagem.
Leipzig, cidade alemã que durante décadas esteve sob a influência direta de Moscovo, volta a surgir no centro da relação entre a Rússia e a Europa, mas desta vez num contexto radicalmente diferente. A cidade que em 1989 ajudou a abrir uma das brechas decisivas no sistema comunista da Alemanha de Leste é agora apontada como palco de uma operação atribuída pelas autoridades alemãs à Rússia: a alegada tentativa de atacar um avião ucraniano com um drone carregado de explosivos.
O episódio é apresentado como um exemplo da transformação das operações clandestinas russas no continente europeu. Em vez dos tradicionais agentes de inteligência que durante a Guerra Fria operavam sob cobertura diplomática ou com identidades falsas, Moscovo estará a recorrer cada vez mais a intermediários recrutados à distância, muitas vezes através de plataformas digitais, com missões específicas e pagamentos relativamente reduzidos.
A lógica passa por manter as operações fragmentadas, dificultar a identificação de quem ordenou os ataques e reduzir os custos humanos e políticos caso um dos executantes seja detido.
Leipzig entre o passado soviético e a nova guerra clandestina
A escolha de Leipzig como cenário deste episódio ganha particular significado pela própria história da cidade. Depois do final da Segunda Guerra Mundial, Leipzig ficou integrada na zona de ocupação soviética e, posteriormente, na República Democrática Alemã. Em 1953, até a universidade local foi rebatizada com o nome de Karl Marx, numa demonstração da influência política e ideológica exercida pelo regime.
Décadas depois, a cidade transformou-se num dos principais focos de contestação ao sistema comunista. Em outubro de 1989, cerca de 70 mil pessoas percorreram pacificamente o centro de Leipzig sob o lema “Wir sind das Volk”, ou “nós somos o povo”.
As forças de segurança não dispararam contra os manifestantes e o Kremlin de Mikhail Gorbatchov já não estava disposto a repetir as intervenções militares utilizadas anteriormente para preservar os regimes aliados de Moscovo. Pouco mais de um mês depois, o Muro de Berlim caiu.
O episódio teve também uma dimensão pessoal para Vladimir Putin. O atual Presidente russo encontrava-se então em Dresden, a cerca de 120 quilómetros de Leipzig, onde trabalhava para o KGB. Assistiu ao tumulto que acompanhou o colapso do regime a partir das instalações da agência soviética.
A cidade que testemunhou uma das primeiras grandes fraturas do poder soviético na Alemanha tornou-se, décadas depois, cenário de um episódio que ilustra a nova forma de confronto entre Moscovo e o Ocidente.
Alemanha acusa Rússia de tentativa de atentado em Leipzig
As autoridades alemãs acusam a Rússia de estar por detrás de uma tentativa de atentado ocorrida a 4 de agosto no aeroporto de Leipzig/Halle.
Funcionários do aeroporto encontraram um drone nas proximidades de vários aviões Antonov ucranianos. O aparelho transportava cerca de 600 gramas de explosivos e um detonador, que, segundo a informação apresentada, acabou por não funcionar.
O alvo provável seria um Antonov An-124, aeronave utilizada para transportar material militar. A suspeita ganha particular relevância perante a posição assumida por Moscovo em relação ao papel da Alemanha no apoio à Ucrânia: a Rússia considera o território alemão uma espécie de retaguarda estratégica do esforço de guerra ucraniano.
O episódio é, assim, interpretado como parte de uma estratégia destinada a atingir as cadeias logísticas que permitem a continuação do apoio europeu a Kiev.
O regresso dos métodos clandestinos do KGB
Durante as décadas de 1970 e 1980, os serviços secretos soviéticos concentraram uma parte importante das suas operações no Ocidente em atividades de espionagem, infiltração, financiamento de grupos políticos favoráveis aos interesses de Moscovo e campanhas de desinformação.
A atual estratégia russa mantém alguns desses elementos, mas acrescenta uma componente mais agressiva de sabotagem física.
A fronteira entre paz e guerra tornou-se, neste contexto, cada vez menos clara. Os serviços de segurança russos atuam abaixo do limiar que poderia desencadear uma resposta militar direta da NATO, enquanto exploram a proteção proporcionada pela dissuasão nuclear.
O objetivo não será necessariamente provocar uma paralisação generalizada da Europa. Basta aumentar os custos do apoio à Ucrânia, criar insegurança, obrigar os governos europeus a proteger um número crescente de infraestruturas e transmitir a mensagem de que Moscovo consegue atingir alvos em território europeu.
Quando uma operação falha, a estratégia não desaparece necessariamente. Pelo contrário, a tentativa pode permitir testar os sistemas de segurança, identificar vulnerabilidades e perceber quanto tempo as autoridades demoram a reagir.
Serviços russos recuperam uma lógica de confronto mais agressiva
Os especialistas em espionagem russa Andrei Soldatov e Irina Borogan descrevem, num relatório do Center for European Policy Analysis (CEPA), aquilo que classificam como uma espécie de “estalinização” dos serviços de segurança russos.
Os dois especialistas recuperam a lógica de Josef Estaline segundo a qual a guerra não constituía uma exceção, mas antes uma condição natural do regime. Perante aquilo que o Kremlin entende como uma grande confrontação com o Ocidente, defendem, os serviços russos estarão a regressar a métodos associados a essa tradição.
Espionagem, subversão, sabotagem e assassinatos passam a integrar um mesmo repertório operacional.
Entre as estruturas apontadas está o GRU, o serviço de inteligência militar russo, considerado o braço mais agressivo deste aparelho clandestino. O Serviço de Atividades Especiais do general Andrei Averyanov inclui a unidade 29155, associada a operações como o envenenamento do antigo agente russo Sergei Skripal e a explosão de um depósito de munições em Vrbětice, na República Checa.
O FSB, por seu lado, mantém redes próprias para operações de sabotagem no exterior. As diferentes estruturas competem pelo apoio e pela confiança de Vladimir Putin, embora as respetivas áreas de atuação possam sobrepor-se.
A nova infantaria invisível de Moscovo
A expulsão de numerosos diplomatas russos dos países europeus depois da invasão da Ucrânia, em 2022, prejudicou as redes tradicionais de Moscovo no continente. A resposta terá passado por uma alteração do modelo operacional.
Em vez de depender exclusivamente de agentes profissionais, os serviços russos podem recorrer a intermediários, criminosos ou pessoas recrutadas especificamente para uma determinada missão e sem qualquer histórico conhecido de colaboração com Moscovo.
É o modelo do chamado “agente descartável”.
O recrutamento pode acontecer através do Telegram ou de outras plataformas digitais. A missão pode consistir em fotografar uma infraestrutura, instalar uma câmara, provocar um incêndio num armazém, colocar um dispositivo de vigilância ou transportar um drone.
O pagamento pode ser reduzido e, em alguns casos, realizado através de criptomoedas. O executante pode nem sequer conhecer a identidade de quem lhe deu a ordem ou saber que está a trabalhar para um serviço de informações estrangeiro.
A estrutura torna-se, assim, mais difícil de desmontar. Se um intermediário for detido, o responsável pela operação pode simplesmente abandonar a conta utilizada para o contacto e procurar outro recrutado.
O recrutamento assenta mais na vulnerabilidade do que na ideologia
Uma das características desta nova rede clandestina é precisamente a possibilidade de os recrutados não terem qualquer ligação ideológica à Rússia.
Um jovem endividado, um pequeno criminoso, um imigrante, um refugiado ucraniano ou simplesmente alguém à procura de dinheiro rápido pode tornar-se um alvo para este tipo de recrutamento.
As plataformas digitais permitem apresentar os trabalhos como tarefas aparentemente banais e ocultar a verdadeira finalidade da operação. Telegram, Instagram, Viber e até comunidades associadas a videojogos podem ser utilizadas para estabelecer contactos.
Em determinados casos, os próprios recrutados poderão acreditar que estão a trabalhar para uma empresa privada ou para uma organização criminosa, sem conhecer a verdadeira identidade do cliente.
Esta fragmentação oferece a Moscovo uma vantagem importante: reduz a ligação direta entre o responsável pela operação e quem a executa no terreno.
Até uma operação falhada pode beneficiar Moscovo
O sucesso de uma missão de sabotagem não depende necessariamente da destruição do alvo.
Uma operação que falhe pode continuar a produzir efeitos úteis para quem a organizou. Permite, por exemplo, identificar acessos a instalações, avaliar os tempos de resposta das forças de segurança, perceber quais os sistemas de proteção existentes e obrigar as autoridades a mobilizar recursos.
Há ainda uma dimensão política particularmente sensível quando são recrutados cidadãos ucranianos.
Caso sejam detidos, a sua ligação a operações de sabotagem pode ser utilizada para alimentar suspeitas sobre a comunidade de refugiados ucranianos e enfraquecer o apoio político e social à Ucrânia.
O modelo apresenta, por isso, características que o tornam particularmente atrativo: é barato, fragmentado, relativamente fácil de escalar e permite manter uma margem de negação sobre a responsabilidade direta de Moscovo.
Uma rede de incidentes atravessa a Europa
O episódio de Leipzig surge num contexto mais amplo de incidentes atribuídos ou relacionados com operações de sabotagem russas em território europeu.
O mapa de casos mencionado inclui pacotes incendiários detetados em Leipzig, Birmingham e na Polónia, um incêndio numa loja Ikea em Vilnius e operações investigadas na Estónia e em França.
O objetivo não precisa de ser a paralisação completa do continente. A estratégia pode ser mais limitada: demonstrar que infraestruturas europeias podem ser atingidas, que existem vulnerabilidades e que nenhum país pode considerar-se totalmente imune.
Essa lógica altera a natureza do confronto. Durante a Guerra Fria, a ameaça soviética era frequentemente associada à presença militar convencional, à espionagem organizada e à possibilidade de um confronto entre blocos claramente identificados.
A nova abordagem procura explorar precisamente a zona cinzenta entre guerra e paz.
A Europa enfrenta uma ameaça abaixo do limiar da guerra convencional
A Rússia não precisa de enviar tropas ou tanques para território europeu para exercer pressão sobre os seus adversários. A sabotagem permite atingir objetivos estratégicos com operações pequenas, difíceis de atribuir e potencialmente executadas por pessoas sem ligação aparente aos serviços secretos.
A Alemanha ocupa uma posição particularmente importante neste confronto por ser um dos principais apoiantes europeus da Ucrânia e por dispor de uma infraestrutura logística essencial para a movimentação de equipamento e material destinado a Kiev.
O caso de Leipzig demonstra, neste enquadramento, como um ataque relativamente limitado pode adquirir uma dimensão estratégica muito maior.
A preocupação europeia passa, por isso, não apenas pela proteção de instalações militares, aeroportos ou centros logísticos, mas também pela segurança de infraestruturas civis, redes de transporte, armazéns e outros locais cuja proteção integral seria extremamente difícil.
Moscovo procura explorar as fragilidades das democracias europeias
A estratégia descrita assenta também na capacidade de transformar pequenos episódios em problemas políticos de maior dimensão.
Um incêndio, uma sabotagem ou uma tentativa de ataque podem obrigar os governos a aumentar os níveis de segurança e a gastar mais recursos na proteção de infraestruturas. Ao mesmo tempo, podem alimentar o medo entre as populações e intensificar divisões políticas sobre o apoio à Ucrânia.
O objetivo não será necessariamente causar grandes danos materiais em cada operação, mas criar um ambiente de insegurança permanente.
É neste ponto que a comparação com a Guerra Fria ganha maior relevância. Moscovo continua a utilizar espionagem, influência e desinformação, mas acrescenta-lhes uma componente operacional que pode recorrer a executantes anónimos e facilmente substituíveis.
A imagem do agente soviético de gabardina, figura clássica da espionagem do século XX, dá lugar a uma rede muito mais difusa: pessoas recrutadas através de aplicações, pagamentos digitais, ordens fragmentadas e operações que podem ser negadas.
Na Europa, e particularmente na Alemanha, onde as memórias da ocupação soviética e das divisões da Guerra Fria continuam presentes, o confronto assume assim uma forma diferente. A Rússia regressa ao território europeu não com tanques e bandeiras, mas através de uma guerra invisível, conduzida abaixo do limiar de uma guerra convencional e destinada a explorar as vulnerabilidades de sociedades abertas.














