“Absolutamente vergonhoso”: agentes de dois serviços secretos ucranianos acabam aos tiros em plena Kiev

Confronto aconteceu esta quarta-feira, numa zona residencial de Kiev, durante uma operação que envolvia agentes do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) e membros ligados à inteligência militar ucraniana (GUR)

Francisco Laranjeira

Um tiroteio em plena rua entre membros de dois dos principais serviços de segurança e informações da Ucrânia deixou três pessoas feridas, duas delas em estado grave, e levou Volodymyr Zelensky a exigir responsabilidades pelo episódio, que classificou como “absolutamente vergonhoso”.

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O confronto aconteceu esta quarta-feira, numa zona residencial de Kiev, durante uma operação que envolvia agentes do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) e membros ligados à inteligência militar ucraniana (GUR).

Vídeos divulgados nas redes sociais mostram vários homens armados junto a automóveis estacionados, seguindo-se uma sucessão de disparos.

No centro do caso está Stepan Kaplunov, figura da oposição russa e subcomandante do Corpo de Voluntários Russos (RVC), uma formação paramilitar composta por russos que combate ao lado da Ucrânia e está integrada numa unidade sob comando da inteligência militar ucraniana.

Mas aquilo que realmente aconteceu durante a operação está longe de ser consensual.

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“Na Ucrânia, só é permitido disparar contra os ocupantes russos”

A reação de Zelensky foi particularmente dura.

O presidente ucraniano classificou o sucedido como “absolutamente vergonhoso” e exigiu investigações internas nos dois serviços.

“Na Ucrânia, disparar só é permitido contra os ocupantes russos, em defesa da Ucrânia”, afirmou Zelensky, acrescentando que a Procuradoria-Geral e o Gabinete Estatal de Investigação terão de esclarecer todos os detalhes do confronto.

O episódio teve também uma consequência imediata nas chefias do SBU.

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Zelensky demitiu Oleh Khramov, responsável pelo departamento do serviço encarregado da proteção dos segredos de Estado. Até ao momento, porém, não foi publicamente esclarecido qual terá sido exatamente o seu papel nos acontecimentos.

SBU diz que os seus agentes foram atacados

A operação que acabou em tiroteio estaria relacionada com um alegado plano dos serviços secretos russos contra Stepan Kaplunov.

Segundo as informações citadas pelo ‘Kyiv Independent’, o SBU tinha anunciado anteriormente ter impedido um alegado “atentado terrorista” dos serviços russos contra um dirigente da oposição russa que se encontrava na Ucrânia por ocasião do Dia da Independência.

O caso estaria relacionado com Kaplunov, cujo alegado desaparecimento ou sequestro tinha sido denunciado em 23 de agosto.

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A Procuradoria ucraniana sustenta que, durante a investigação, ocorreu “um ataque armado contra agentes do SBU”.

Segundo esta versão, um grupo de homens armados abriu fogo contra os agentes e tentou impedir o prosseguimento da operação, bloqueando a passagem dos elementos do SBU e dos respetivos veículos.

Seguiu-se uma troca de tiros.

As autoridades afirmam que houve feridos entre aqueles que ofereceram resistência e que os alegados atacantes foram detidos. As primeiras averiguações terão permitido determinar que pertenciam a uma unidade das Forças de Defesa da Ucrânia.

GUR apresenta uma história completamente diferente

Do lado da inteligência militar, porém, a versão dos acontecimentos é praticamente oposta.

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O comandante da unidade especial Timur, na qual está integrado o Corpo de Voluntários Russos, afirmou que Kaplunov tinha sido “sequestrado em plena luz do dia” por elementos do SBU e mantido sob custódia sem acusação.

Segundo esta versão, membros da inteligência militar deslocaram-se ao local e foram os agentes do SBU que abriram fogo.

Timur sustenta ainda que os elementos do GUR atingidos pelos disparos estavam desarmados.

As duas versões colocam assim os serviços ucranianos em posições frontalmente contraditórias: o SBU e a Procuradoria dizem que os seus agentes foram atacados durante uma investigação, enquanto responsáveis ligados ao GUR acusam o serviço de segurança de ter detido Kaplunov irregularmente e disparado contra elementos da inteligência militar.

As circunstâncias estão agora sob investigação.

Três agentes feridos, dois em estado grave

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Taras Borovskyi, advogado de Kaplunov, afirmou ter presenciado o confronto e adiantou que três agentes do GUR ficaram feridos.

Um deles foi atingido numa perna, tendo o disparo seccionado uma artéria, e encontra-se em estado muito grave. Um segundo permanece igualmente em estado grave, enquanto o terceiro sofreu ferimentos considerados menos severos.

Segundo o advogado, Kaplunov acabou por ser libertado, embora o seu paradeiro atual seja desconhecido.

O caso expõe uma rara disputa pública entre duas estruturas fundamentais do aparelho de segurança ucraniano em plena guerra.

O SBU desempenha funções de segurança interna e contraespionagem, enquanto o GUR é o serviço de informações militares do Ministério da Defesa e tem estado envolvido em algumas das operações clandestinas mais importantes realizadas pela Ucrânia desde o início da invasão russa.

Agora, caberá às investigações exigidas por Zelensky determinar como uma operação envolvendo estruturas que combatem o mesmo inimigo terminou com agentes ucranianos a dispararem uns contra os outros nas ruas da capital.

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