A chuva que marcou parte do mês de agosto deu uma ajuda decisiva no combate aos incêndios rurais em Portugal. Entre 1 de janeiro e 31 de agosto, terão ardido cerca de 67 mil hectares, uma redução de aproximadamente 74% face ao mesmo período de 2025, quando as chamas consumiram mais de 254 mil hectares.
Os números, ainda provisórios, constam dos dados do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) citados pelo ‘Diário de Notícias‘ (DN).
Apesar da forte redução em relação ao ano passado, 2026 deverá ainda posicionar-se como o quinto pior ano em termos de área ardida até ao final de agosto desde 2016. O ano de 2025 permanece, neste período de comparação, como aquele em que as chamas consumiram maior área.
Uma das principais explicações para a diferença está no céu: a chuva que chegou durante a segunda metade de agosto alterou significativamente as condições para a propagação e combate aos fogos.
“A chuva não só ajudou como foi determinante”, afirma António Nunes, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, em declarações ao ‘DN’.
“Não se compara 30 dias de agosto com 30 dias”
O responsável chama a atenção para uma particularidade importante quando se compara agosto deste ano com o mesmo mês de 2025.
“Não se compara 30 dias de agosto com 30 dias, mas com 20 dias”, explica, referindo-se aos cerca de dez dias em que a chuva e as temperaturas mais baixas criaram condições bastante mais favoráveis.
A meteorologia também ajudou durante a madrugada. António Nunes destaca situações em que, “por volta das 04h00, 05h00, o vento estava mais ameno e a temperatura mais baixa”, condições que facilitaram o trabalho dos operacionais.
Para o presidente da Liga dos Bombeiros, estes episódios mostram como “as condições meteorológicas locais são determinantes para o sucesso do combate ao incêndio”.
António Nunes deixa, contudo, um alerta contra conclusões precipitadas a partir da comparação entre apenas dois anos.
“Não é fácil fazer comparações de um ano para o outro”, salienta, defendendo que são necessárias séries de vários anos para avaliar de forma estatisticamente válida a evolução dos incêndios em Portugal.
“Em 2024 ardeu, em 2025 ardeu muito, 2026 eventualmente vai arder menos e depois temos de ver se em 2027 vai arder muito ou não. E depois, ao final de quatro ou cinco anos, fazemos esse balanço”, explica.
Calor e tempo seco mantêm risco até dia 5
A chuva ajudou no final de agosto, mas os primeiros dias de setembro voltam a exigir atenção.
De acordo com uma previsão do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), Portugal deverá enfrentar “episódios de tempo quente e seco sem recuperação noturna até dia 5”.
A situação deverá alterar-se a partir de domingo, com uma descida das temperaturas e uma mudança do vento para oeste, trazendo maior humidade marítima e condições potencialmente mais favoráveis à diminuição do risco de incêndio rural.
Setembro continua, porém, integrado no período tradicionalmente mais crítico dos incêndios em Portugal. A chamada Fase Charlie decorre entre 1 de julho e 30 de setembro, podendo ser prolongada pelo Governo caso as condições meteorológicas o justifiquem.
Meios aéreos começaram a atuar mais cedo
A meteorologia não explica tudo. António Nunes aponta também mudanças na resposta operacional aos incêndios durante este ano.
“Este ano assistimos à intervenção dos meios aéreos mais cedo do que acontecia”, afirma.
Segundo o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, se anteriormente a entrada em ação destes meios acontecia habitualmente pelas 09h00 ou 09h30, em 2026 houve várias situações em que começaram a operar pelas 08h00.
“Houve algumas melhorias. Nem tudo pode ficar igual de um ano para o outro”, reconhece.
Outra particularidade da época de incêndios deste ano prende-se com a localização das ocorrências. “Muitos dos incêndios ocorreram em áreas ardidas no ano passado”, refere António Nunes.
O Norte concentrou uma parte significativa das ocorrências, enquanto a região Centro foi relativamente poupada. Lisboa e Vale do Tejo registaram “dois ou três incêndios” relevantes, enquanto Algarve e Alentejo tiveram igualmente poucas ocorrências destacadas, segundo o responsável.
“Precisamos, talvez, de uma dezena de anos”
Apesar da redução de 74% da área ardida, o presidente da Liga dos Bombeiros recusa considerar resolvido o problema estrutural dos incêndios em Portugal.
António Nunes reconhece uma maior consciencialização política sobre a necessidade de executar medidas de prevenção, mas considera que a transformação da paisagem prevista após os grandes incêndios de 2017 ficou aquém do inicialmente projetado.
O plano “alcançou alguns objetivos, mas não todos”, afirma, apontando a limpeza dos terrenos e a mudança de comportamentos como alguns dos desafios que permanecem.
“Precisamos, talvez, de uma dezena de anos para levar a efeito a transformação no território de uma forma global”, conclui.



















