Os países insulares do Pacífico estão a tentar aproveitar a crescente disputa geopolítica pela região para obter financiamento destinado a enfrentar os efeitos das alterações climáticas, que ameaçam territórios, economias e comunidades.
Reunidos esta semana em Palau para a cimeira anual do Fórum das Ilhas do Pacífico, líderes da região voltaram a alertar que a subida do nível do mar e o aumento da frequência e intensidade de fenómenos meteorológicos extremos representam uma ameaça à sobrevivência de vários países.
Em Melekeok, no litoral da maior ilha de Palau, as águas do Pacífico entram nas casas durante tempestades, levando as autoridades a preparar a transferência da população para zonas mais elevadas.
“Continuamos a dizer ao parlamento que precisamos de nos mudar para o interior”, afirmou à agência Associated Press (AP) Bol Sebalt, de 43 anos, funcionária parlamentar e voluntária numa equipa local de resposta a catástrofes.
“Mas, devido à falta de financiamento, não conseguimos fazê-lo”, acrescentou.
Sebalt mudou-se há quase um ano para uma zona residencial que está a ser preparada no interior para acolher os cerca de 300 habitantes de Melekeok, mas continua a ser a única residente.
O financiamento necessário para instalar canalização, saneamento e iluminação pública tem chegado de forma fragmentada e demasiado lenta, explicou.
“Não conseguimos avançar mais depressa do que as alterações climáticas”, afirmou.
Os alertas dos países insulares foram reforçados esta semana por um relatório das Nações Unidas, segundo o qual o planeta deverá ultrapassar nos próximos anos o limite de aumento da temperatura de 1,5 graus Celsius face aos níveis pré-industriais, estabelecido no Acordo de Paris de 2015.
“As perdas e danos são uma realidade que já existe no meu país”, afirmou o ministro da Adaptação Climática de Vanuatu, Ralph Regenvanu.
Segundo o governante, uma ultrapassagem daquele limite agravará perdas económicas e não económicas que “nenhum financiamento pode restaurar totalmente”, incluindo “terras ancestrais, património e identidade”.
Os países do Pacífico têm pressionado os maiores emissores mundiais para reduzirem as emissões de gases com efeito de estufa e manterem o aquecimento global dentro do limite de 1,5 graus.
“Não há outra saída”, afirmou o ministro das Alterações Climáticas de Tuvalu, Maina Talia. “A única saída para nós é continuarmos a pressionar para manter 1,5 graus, para permanecermos vivos e nos nossos países”, acrescentou.
O aquecimento dos oceanos ameaça também a pesca do atum no Pacífico, responsável por cerca de 30% das capturas mundiais, assim como os mangais onde se reproduzem várias espécies, segundo a Comunidade do Pacífico (SPC), organização científica regional.
O Presidente de Palau, Surangel Whipps Jr., defendeu que as grandes potências interessadas em reforçar a presença no Pacífico poderiam canalizar recursos para projetos climáticos, incluindo o objetivo de transformar a região na primeira do mundo alimentada inteiramente por energias renováveis.
A região tornou-se nos últimos anos palco de uma crescente disputa por influência entre a China e os Estados Unidos e respetivos aliados, incluindo em torno das relações diplomáticas com Taiwan.
As tensões ficaram novamente patentes na abertura da cimeira, quando representantes de Pequim e Taipé foram colocados na mesma fila durante a cerimónia.
Os países do Pacífico procuram, porém, evitar que as disputas geopolíticas desviem atenções daquela que consideram a principal ameaça à região.
Um fundo criado pelos membros do Fórum das Ilhas do Pacífico para financiar diretamente pequenos projetos de adaptação climática ainda não conseguiu angariar os montantes esperados junto dos principais doadores.
O Mecanismo de Resiliência do Pacífico (PRF, na sigla em inglês), que deverá ter sede em Tonga, pretende reduzir a burocracia associada às instituições financeiras internacionais e permitir que os recursos cheguem mais rapidamente às comunidades.
“As instituições financeiras internacionais têm processos muito demorados para disponibilizar o financiamento de acesso direto de que precisamos no Pacífico”, afirmou à AP o primeiro-ministro de Tonga, Fatafehi Fakafanua.














