Matou os três filhos, mas pode não ser condenada: o caso que divide os EUA e deixa um júri sem conseguir decidir

Cora tinha cinco anos. Dawson, três. Callan tinha apenas oito meses. Na tarde de 24 de janeiro de 2023, a mãe estrangulou-os com bandas de exercício na casa da família, em Duxbury, e depois atirou-se de uma janela do segundo andar numa tentativa de suicídio

Francisco Laranjeira

Lindsay Clancy matou os três filhos. Esse não é o mistério que um tribunal do Massachusetts tenta resolver.

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Cora tinha cinco anos. Dawson, três. Callan tinha apenas oito meses. Na tarde de 24 de janeiro de 2023, a mãe estrangulou-os com bandas de exercício na casa da família, em Duxbury, e depois atirou-se de uma janela do segundo andar numa tentativa de suicídio.

Mais de três anos depois, ninguém em tribunal discute que foi ela.

A pergunta que está a dividir um júri de nove mulheres e três homens é bastante mais difícil: Lindsay Clancy sabia realmente o que estava a fazer?

Depois de cinco semanas de julgamento, mais de 80 testemunhas e centenas de provas, os jurados começaram esta quarta-feira o quinto dia de deliberações sem conseguirem chegar a uma decisão unânime. Na terça-feira, comunicaram formalmente ao juiz William Sullivan que estavam num impasse. O magistrado mandou-os regressar à sala e continuar a tentar chegar a um veredicto.

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O caso transformou-se entretanto num dos julgamentos mais acompanhados dos EUA e numa discussão que ultrapassa largamente o destino de uma única mulher: onde termina a doença mental e começa a responsabilidade criminal?

Quem é Lindsay Clancy?

Hoje com 36 anos, Clancy trabalhava como enfermeira numa maternidade e vivia com o então marido, Patrick Clancy, em Duxbury, no Massachusetts.

Tiveram três filhos em cerca de quatro anos.

Depois do nascimento de Callan, em maio de 2022, o estado psicológico de Lindsay começou a deteriorar-se. Já tinha sofrido ansiedade pós-parto nas gravidezes anteriores, mas desta vez apareceram insónias, depressão, isolamento, perda de apetite, ansiedade intensa e outros sintomas psiquiátricos.

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Procurou ajuda.

E este é um dos elementos mais importantes de todo o caso.

Nos meses que antecederam as mortes, passou por vários profissionais, foi hospitalizada e recebeu diferentes diagnósticos. Segundo os elementos apresentados no julgamento, chegou a tomar pelo menos 13 medicamentos prescritos por diferentes médicos.

Em dezembro de 2022, revelou ter pensamentos suicidas e pensamentos sobre fazer mal aos filhos. Chegou a receber um diagnóstico de perturbação bipolar e foi-lhe recomendada hospitalização, embora tenha optado por um programa de tratamento diurno.

A 31 de dezembro foi às urgências devido a pensamentos suicidas persistentes. Ficou internada durante cinco dias e saiu a 5 de janeiro com diagnóstico de perturbação depressiva major, sem características psicóticas.

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Menos de três semanas depois, os três filhos estavam mortos.

O que aconteceu naquela noite?

O dia 24 de janeiro começou, aparentemente, sem sinais do que estava prestes a acontecer.

A família brincou na neve e construiu um boneco. Patrick Clancy descreveu-o mais tarde como um dos melhores dias da mulher.

Ao final da tarde, Lindsay pesquisou medicamentos para as dores de estômago da filha e procurou um restaurante. Patrick saiu de casa para ir à farmácia e buscar comida.

Lindsay ficou sozinha com as crianças.

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Foi nessa janela de tempo que matou Cora, Dawson e Callan.

A versão que apresentou posteriormente é fundamental para a defesa: afirmou ter ouvido a voz de um homem dizer-lhe que chegara a altura de matar. Foi buscar bandas de exercício e estrangulou os três filhos, um após outro. Depois tentou matar-se, atirando-se da janela.

Patrick regressou pouco depois das 18h00.

Encontrou a mulher gravemente ferida no exterior e os filhos inconscientes na cave.

Cora e Dawson morreram nesse dia. Callan sofreu uma paragem cardíaca, foi transportado de helicóptero para Boston e morreu três dias depois.

Lindsay sobreviveu à queda, mas ficou paralisada.

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Se admite que matou os filhos, porque está a ser julgada?

Porque cometer fisicamente um crime e ser criminalmente responsável por ele não são necessariamente a mesma questão.

Clancy declarou-se inocente e a defesa não procura demonstrar que outra pessoa matou as crianças.

Procura demonstrar que, devido ao seu estado psiquiátrico, não era criminalmente responsável no momento dos crimes. A defesa sustenta que Lindsay sofria de psicose pós-parto e que a doença lhe retirou a capacidade necessária para compreender os próprios atos.

É por isso que grande parte das cinco semanas de julgamento foi ocupada não pela reconstrução de quem matou as crianças, mas pela reconstrução da mente de Lindsay Clancy naquele momento.

A defesa apresentou o tratamento médico como parte essencial dessa história. Argumentou que Clancy procurou repetidamente ajuda, recebeu diagnósticos diferentes, passou por sucessivas alterações de medicação e acabou por ser vítima de cuidados fragmentados e inadequados.

A acusação aceita que Clancy tinha problemas graves de saúde mental.

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Mas rejeita a conclusão decisiva.

Para os procuradores, estar mentalmente doente não significa automaticamente não ser criminalmente responsável.

Então o que diz a acusação?

A acusação tenta demonstrar que Lindsay Clancy continuava a distinguir o certo do errado e que os homicídios não resultaram de um estado psicótico que lhe tivesse retirado essa capacidade.

Para isso, os procuradores procuraram reconstruir o comportamento da mulher antes, durante e depois das mortes.

Chamaram a atenção para o facto de Patrick ter saído de casa durante o período em que os crimes ocorreram e sustentaram que existiram comportamentos conscientes destinados a criar uma oportunidade para ficar sozinha com as crianças.

Também utilizaram as pesquisas realizadas no telemóvel.

Semanas antes das mortes, Lindsay procurara informação sobre a artéria carótida, formas de cortar a garganta para morrer e se seria possível desativar os airbags de um Kia Sorento. Quatro dias antes dos crimes, pesquisou se “um sociopata pode ser curado”.

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No dia anterior às mortes, teve uma consulta virtual com um psiquiatra. O médico declarou em tribunal que a considerou deprimida, mas não detetou sinais de psicose, e que Lindsay negou ter pensamentos suicidas.

A tese da acusação é, em resumo, que Clancy estava profundamente doente e suicida, mas continuava consciente do que fazia.

A defesa vê exatamente os mesmos meses de deterioração psicológica e chega à conclusão oposta.

É por isso que o júri está bloqueado.

O que é a psicose pós-parto?

Não deve ser confundida com a depressão pós-parto.

A psicose pós-parto é uma doença psiquiátrica rara e grave que pode surgir depois do nascimento de uma criança. Pode provocar alterações extremas de humor, confusão, delírios, paranoia e alucinações.

Uma pessoa pode, por exemplo, ouvir vozes que não existem ou desenvolver convicções completamente desligadas da realidade.

Em situações excecionais, existe risco de a mãe se ferir ou ferir outras pessoas. Especialistas citados pelo El Mundo descrevem-na como uma das doenças mais graves que podem desenvolver-se depois de um parto.

Mas provar que a doença existe não resolve automaticamente este julgamento.

O júri precisa de determinar qual era o estado concreto de Clancy no momento em que matou os filhos e, sobretudo, se esse estado atingia o limiar necessário para afastar a responsabilidade criminal.

Daí a batalha de especialistas que marcou o processo.

Porque está o caso a dividir tanta gente?

Porque existem duas histórias extremamente difíceis de conciliar.

Numa delas estão três crianças mortas pela própria mãe e elementos que, segundo a acusação, revelam planeamento e consciência.

Na outra está uma mulher que procurou ajuda repetidamente antes dos crimes, passou por diferentes diagnósticos e medicamentos, foi internada, revelou pensamentos suicidas e de agressão aos filhos e, segundo a defesa, acabou por desenvolver uma psicose que não foi corretamente reconhecida e tratada.

À porta do tribunal, centenas de apoiantes chegaram a usar camisolas com a mensagem “she needed help” — “ela precisava de ajuda” — transformando o julgamento também numa discussão sobre as falhas dos cuidados de saúde mental materna.

Patrick Clancy tornou o caso ainda mais invulgar.

O pai das três crianças disse publicamente ter perdoado a ex-mulher e recusou descrevê-la como um “monstro”. No julgamento, acabou por prestar depoimento tanto para a acusação como para a defesa.

O processo não está, portanto, dividido entre quem acredita que Lindsay matou as crianças e quem acredita que não matou.

Está dividido sobre aquilo que essa ação significa juridicamente.

O que pode acontecer agora?

O júri tem várias possibilidades.

Pode considerar Lindsay Clancy culpada de homicídio em primeiro grau, o resultado mais grave, que implica prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.

Pode condená-la por homicídio em segundo grau ou por uma forma menos grave de homicídio.

Ou pode concluir que não era criminalmente responsável devido a doença mental.

Esse último resultado não significa necessariamente que Lindsay Clancy saia livre do tribunal. O Ministério Público pode pedir o seu internamento numa instituição psiquiátrica se continuar a ser considerada mentalmente doente e perigosa. A situação seria depois sujeita a avaliações periódicas e o internamento poderia prolongar-se durante muitos anos — potencialmente pelo resto da vida.

Há ainda uma quinta possibilidade, que se tornou cada vez mais real nas últimas horas: não haver decisão nenhuma.

Os 12 jurados já disseram ao juiz que não conseguem alcançar a unanimidade.

William Sullivan pode insistir para que continuem a deliberar e, caso o impasse se mantenha, recorrer a uma instrução judicial especial conhecida no Massachusetts como Tuey-Rodriguez, uma espécie de último apelo para que os jurados voltem a analisar as posições uns dos outros e tentem alcançar um consenso.

Se mesmo assim permanecerem bloqueados, o juiz poderá declarar o julgamento nulo.

Isso não absolveria Lindsay Clancy.

O Ministério Público poderia levá-la novamente a julgamento perante outro júri. Poderia também tentar negociar uma solução diferente ou, em teoria, decidir não avançar com novo julgamento. Especialistas ouvidos pela ‘Associated Press’ consideram provável que, perante um impasse definitivo, a acusação volte a tentar obter uma condenação.

É isso que torna as horas atuais particularmente importantes.

Mais de três anos depois das mortes de Cora, Dawson e Callan, o processo chegou a um ponto pouco habitual: todos sabem quem os matou, mas 12 pessoas continuam sem conseguir responder unanimemente à pergunta que juridicamente decide tudo.

Se Lindsay Clancy deve ser considerada culpada pelo que fez — ou se estava tão gravemente doente que, perante a lei, não podia ser responsabilizada criminalmente pelos seus atos.

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