Nepal vai reconstruir sistema de alerta na fronteira com a China após cheias mortais

O novo sistema deverá combinar sensores sísmicos, câmaras de vigilância e uma ligação por satélite, com o objetivo de permitir às autoridades detetar rapidamente novos riscos e emitir alertas.

Pedro Zagacho Gonçalves

O Nepal prepara-se para reconstruir um sistema de alerta precoce para deslizamentos de terras numa zona da fronteira com a China, depois da devastadora cheia provocada pelo colapso de um glaciar que matou mais de mil pessoas. O novo sistema deverá combinar sensores sísmicos, câmaras de vigilância e uma ligação por satélite, com o objetivo de permitir às autoridades detetar rapidamente novos riscos e emitir alertas para as populações situadas a jusante.

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A informação está a ser avançada Reuters, com base em declarações de duas fontes do Governo nepalês, que falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizadas a divulgar os planos. Os equipamentos deverão começar por ser instalados em Timure, uma localidade fronteiriça do distrito de Rasuwa, no mesmo corredor fluvial junto à fronteira com a China por onde, na semana passada, avançou uma enorme massa de lama, água e rocha depois do colapso de um glaciar. O balanço da catástrofe nos dois países é de pelo menos 1.114 mortos, a esmagadora maioria no Nepal, enquanto cerca de 4.000 pessoas continuam desaparecidas.

A zona onde os equipamentos serão instalados situa-se numa das áreas mais sensíveis da fronteira nepalesa com a região chinesa do Tibete, uma área de elevada altitude acompanhada de perto por Katmandu, Pequim e Nova Deli. O Nepal ainda não anunciou formalmente o plano, mas as autoridades consideram urgente avançar com medidas de vigilância, numa altura em que o terreno permanece instável. “A paisagem está a ajustar-se depois deste megaevento, pelo que isso pode desencadear mais alguns deslizamentos de terras”, explicou uma das fontes citadas pela Reuters.

Ligação por satélite para manter os alertas ativos
Uma das principais componentes do novo sistema será uma ligação por satélite conhecida como Very Small Aperture Terminal (VSAT). A tecnologia deverá assegurar a comunicação entre os postos de monitorização e as autoridades mesmo quando as redes móveis deixarem de funcionar, permitindo acompanhar os riscos e transmitir avisos com maior rapidez. A importância desta solução ficou evidente durante a catástrofe da semana passada, quando a cheia destruiu pelo menos quatro estações de medição situadas junto à fronteira e interrompeu as comunicações.

As autoridades nepalenses já dispunham de sensores e postos de monitorização, mas o sistema anterior apresentava limitações. “Tínhamos sensores e estações de monitorização, mas não estavam a ser monitorizados de forma abrangente”, afirmou uma das fontes. O sistema enviava uma mensagem de poucos em poucos minutos, mas acabou destruído pelas cheias de quarta-feira. Como os responsáveis não tinham conhecimento imediato da falha dos equipamentos, não conseguiram verificar a tempo o que tinha acontecido.

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Numa primeira fase, a National Disaster Risk Reduction and Management Authority (NDRRMA) deverá instalar câmaras, sensores e o sistema VSAT num único local em Timure. Posteriormente, está prevista a expansão do dispositivo para outras áreas. As autoridades já realizaram, entretanto, um levantamento aéreo de helicóptero para avaliar os locais mais adequados à instalação dos equipamentos. A NDRRMA não respondeu de imediato aos pedidos de comentário enviados pela Reuters, enquanto o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês e a Embaixada da China no Nepal também não responderam às solicitações.

Apenas alguns minutos podem fazer a diferença
A ameaça imediata associada a dois lagos formados na sequência do colapso glaciar diminuiu depois de ambos terem drenado, mas as condições do terreno continuam a ser consideradas instáveis e estão sob vigilância apertada. Um sistema de alerta destinado a detetar novos acontecimentos desencadeados por deslizamentos poderá não permitir uma reação com muita antecedência: as autoridades teriam apenas alguns minutos para avisar as comunidades localizadas a jusante. Ainda assim, esse curto intervalo poderá ser decisivo para retirar pessoas de zonas de risco e reduzir o número de vítimas.

A dimensão do problema ficou particularmente evidente durante a última cheia. A vaga atingiu uma passagem fronteiriça às 08h32, mas o alerta público só foi emitido às 09h13, segundo informações anteriormente divulgadas pela Reuters. A diferença de 41 minutos evidencia a importância de sistemas capazes de detetar alterações perigosas em tempo real e comunicar imediatamente essa informação às autoridades e às populações potencialmente afetadas.

Nos meses que antecederam a tragédia, o Nepal tinha pressionado a China para obter uma partilha mais detalhada e em tempo real de informações sobre movimentos de glaciares e níveis de água. Depois da catástrofe, os dois países deverão aprofundar essa cooperação. A China afirmou entretanto que partilhou com o Nepal imagens das zonas afetadas, dados de satélite e informações hidrológicas, além de informação de alerta precoce relativa a lagos formados por bloqueios a montante. O reforço da monitorização pretende, assim, evitar que uma nova alteração repentina das condições nas montanhas deixe novamente as comunidades fronteiriças sem tempo suficiente para reagir.

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