A entrada de 72 mil migrantes em Ceuta nos dias 30 e 31 de julho não terá sido um fenómeno espontâneo provocado por redes de tráfico ou por apelos difundidos nas redes sociais. Um relatório da Polícia Nacional espanhola atribui às forças de segurança marroquinas o planeamento e a execução da operação e sustenta que o objetivo migratório terá funcionado apenas como cobertura.
As conclusões constam de um relatório do Centro Nacional de Imigração e Fronteiras (CENIF), unidade de inteligência da Comissaria-Geral de Estrangeiros e Fronteiras da Polícia Nacional, revelado pelo ‘El Español’ e entretanto entregue à juíza María Tardón, da Audiência Nacional espanhola.
A ‘RTVE’ confirmou esta quarta-feira, junto de fontes jurídicas, que o documento aponta para a participação de gendarmes marroquinos e de agentes à paisana na condução da entrada massiva.
O relatório poderá agora assumir particular importância na investigação judicial destinada a determinar se existem indícios da prática de um crime contra a independência do Estado espanhol.
Polícia afasta cenário de movimento espontâneo
Uma das questões centrais analisadas pelo CENIF era precisamente perceber se a chegada de dezenas de milhares de pessoas resultara de um movimento espontâneo, alimentado por redes sociais e redes de tráfico, ou se existira um plano destinado a ultrapassar a fronteira espanhola — e, consequentemente, a fronteira externa da União Europeia — utilizando uma crise migratória como cobertura.
Segundo o ‘El Español’, o relatório inclina-se claramente para a segunda hipótese.
Um dos elementos utilizados pelos investigadores é o comportamento das próprias pessoas que atravessaram a fronteira. Cerca de 90% não terão permanecido em Ceuta, regressando a Marrocos poucas horas depois.
O Governo espanhol contabilizou oficialmente 72 mil entradas irregulares durante a crise. A 4 de agosto, o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, indicava que cerca de 70 mil dessas pessoas já tinham abandonado território espanhol.
Há, porém, outro elemento que ganha agora particular relevância: as autoridades policiais tinham identificado antecipadamente o risco.
A 29 de julho, um dia antes da entrada massiva, o CENIF emitiu um alerta sobre a possibilidade de entradas em Ceuta e Melilla previstas para o dia seguinte e realizadas por via marítima.
O cenário de pessoas a entrarem a nado e através da vedação “de forma coordenada” foi classificado como de “risco extremo”, segundo o relatório citado pelo ‘El Español’.
Gendarmes terão indicado por onde entrar
É na descrição do que aconteceu do outro lado da fronteira que surgem algumas das conclusões mais graves do documento.
Segundo a investigação publicada pelo jornal espanhol, gendarmes marroquinos terão dado indicações às pessoas que se concentravam em Castillejos, no norte de Marrocos, e gerido os movimentos de milhares de pessoas, encaminhando-as para locais previamente definidos a partir dos quais poderiam alcançar território espanhol.
Ao mesmo tempo, indivíduos sem uniforme terão acompanhado o processo e orientado pessoas em direção ao quebra-mar de El Tarajal.
O relatório refere ainda a existência de imagens nas quais esses indivíduos à paisana surgem a dar instruções aos próprios agentes marroquinos.
A Polícia espanhola interpreta estes comportamentos como indícios de uma orientação ativa das forças de segurança de Marrocos e não como uma simples ausência de controlo da fronteira.
Três vagas com perfis diferentes
A forma como as 72 mil pessoas chegaram a Ceuta é outro dos elementos analisados pelo CENIF.
O relatório identifica várias vagas distintas.
Na primeira, antes das 11h00 de 30 de julho, terão chegado sobretudo homens entre os 15 e os 25 anos, maioritariamente marroquinos, equipados com fatos de mergulho, barbatanas e dispositivos de flutuação.
Nas horas seguintes, o perfil mudou.
Entre as 11h00 e as 22h00 começaram a chegar famílias inteiras, incluindo mulheres e crianças. Muitas vestiam roupa desportiva e chinelos e não possuíam equipamento específico para atravessar o mar. Aos cidadãos marroquinos juntaram-se também pessoas oriundas da África subsaariana.
Depois das 22h00 e durante o dia 31 de julho, o perfil terá voltado a aproximar-se daquele observado na primeira vaga.
Segundo a interpretação apresentada no relatório, esta sequência terá contribuído inicialmente para saturar a capacidade de resposta espanhola na zona de El Tarajal com pessoas mais preparadas fisicamente para a travessia. Depois de o sistema de controlo fronteiriço ficar sob enorme pressão, terão começado a chegar grupos mais vulneráveis.
Audiência Nacional tem relatório nas mãos
A juíza María Tardón pediu relatórios à Polícia Nacional e à Guardia Civil a 31 de julho, quando se encontrava de serviço, para determinar se os acontecimentos poderiam conter indícios de um crime contra a independência do Estado, matéria da competência da Audiência Nacional.
O próprio primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, classificou inicialmente o sucedido como um “ataque à integridade territorial de Espanha”.
O relatório policial acrescenta agora uma nova dimensão ao caso ao atribuir às forças de segurança marroquinas um papel ativo na organização dos movimentos.
O documento refere ainda que uma nova convocatória para 15 de agosto terá sido totalmente controlada pelas autoridades marroquinas, ao contrário do que acontecera duas semanas antes.
O CENIF recorda igualmente que, após os acontecimentos, responsáveis oficiais marroquinos voltaram a fazer reivindicações territoriais relacionadas com Ceuta e Melilla.
Segundo o ‘El Español’, os autores do relatório consideram ainda que a operação teve como consequência colocar em causa a capacidade dos serviços de informações espanhóis — em particular do Centro Nacional de Inteligência (CNI) — para detetar antecipadamente aquilo que estava a ser preparado.
O relatório está agora nas mãos da Audiência Nacional e da Fiscalía, cabendo à justiça espanhola determinar o alcance jurídico das conclusões policiais.
















