“Apenas três minutos”: O aviso de boca em boca que antecedeu a enxurrada mortal no Nepal

Uma semana depois de uma cheia repentina ter devastado várias zonas do centro do Nepal, os sobreviventes continuam a reconstruir os minutos que antecederam a tragédia.

Pedro Zagacho Gonçalves

Uma semana depois de uma cheia repentina ter devastado várias zonas do centro do Nepal, os sobreviventes continuam a reconstruir os minutos que antecederam a tragédia. Na manhã de 26 de agosto, uma gigantesca massa de água, lama e detritos desceu pelas bacias dos rios Bhote Koshi e Trishuli, destruindo casas, estradas e pontes. Para alguns habitantes, a diferença entre escapar e ser arrastado pela enxurrada resumiu-se a poucos minutos. Libes Raj Shakya recorda que o primeiro aviso que recebeu não chegou através de um sistema oficial, mas pelos gritos de um funcionário de uma escola que percorreu o mercado a alertar a população de que a água estava a aproximar-se.

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A Agencia EFE reconstituiu os momentos que antecederam a enxurrada através do relato de Shakya e de outros testemunhos. “Tínhamos apenas três minutos para escapar”, conta o sobrevivente, ao recordar a manhã em que Sazal Shrestha, contabilista de uma escola local e por si descrito como “um irmão”, recebeu um telefonema proveniente de Dhunche, no distrito de Rasuwa, com a indicação de que uma grande inundação se aproximava. Shrestha alertou primeiro a escola e, depois, correu pelo mercado a gritar para que as pessoas fugissem. “Ele corria por todo o mercado, gritando a plenos pulmões para que todos corressem e se salvassem”, recorda Shakya. O alerta permitiu que algumas pessoas procurassem rapidamente zonas mais altas, mas a velocidade com que a água avançou deixou pouco tempo para retirar pessoas e bens.

Na escola houve 14 minutos, no mercado foram apenas três
A reconstituição da fuga na Escola Secundária Tribhuvan Trishuli, em Bidur, coincide com vários elementos do testemunho de Shakya. Depois de receber a informação através de um familiar em Rasuwa, o contabilista entrou na escola a avisar que uma inundação se aproximava. Rajendra Dawadi, diretor do estabelecimento, afirma que naquele momento estavam ali mais de 900 alunos e 16 funcionários. Segundo o responsável, todos tiveram aproximadamente 14 minutos para abandonar o edifício antes de as águas atingirem a escola. O cenário mudou completamente depois da passagem da cheia: o edifício deixou de existir e o terreno onde estava instalado passou a fazer parte do leito do rio.

Para Shakya, que se encontrava noutra zona afetada pela catástrofe, o tempo disponível foi muito inferior. Quando ele e outras pessoas começaram a fechar as lojas e a tentar abandonar o local, a água já se encontrava imediatamente atrás delas. “Quando estávamos a fechar as lojas e a tentar sair, a água já estava atrás de nós. Continuámos a correr para salvar as nossas vidas enquanto a inundação nos perseguia”, recorda. A família conseguiu escapar, mas perdeu todos os seus bens. Apesar da destruição, Shakya considera que o mais importante foi terem sobrevivido. “Milagrosamente, todos os membros da nossa família sobreviveram. Temos muita sorte por estarmos vivos”, afirma.

Os alertas oficiais chegaram depois de as águas já ameaçarem as populações
O relato dos habitantes coloca em evidência a diferença entre os mecanismos oficiais de alerta e a forma como algumas pessoas tiveram conhecimento do perigo. Segundo o relatório técnico da Divisão de Previsão de Inundações, por volta das 09:00 locais, as autoridades receberam informação de que uma grande inundação tinha chegado ao rio Bhote Koshi, proveniente do Tibete. As estações automáticas instaladas a montante tinham entretanto deixado de transmitir dados, sem terem registado previamente níveis considerados perigosos.

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Às 09:15, os avisos começaram a ser enviados para as comunidades localizadas a jusante. Um minuto depois, às 09:16, as operadoras Nepal Telecom e Ncell tinham enviado, no conjunto, 679.295 mensagens de alerta para habitantes de zonas vulneráveis nos distritos de Rasuwa, Nuwakot, Dhading e Chitwan. Contudo, Shakya afirma que nenhum desses avisos chegou ao seu bairro antes de o contabilista começar a correr pelo mercado a gritar para que as pessoas fugissem. “Todas as reportagens diziam que as pessoas tinham sido informadas 30 minutos antes e que o líder comunitário tinha ido de porta em porta a avisar toda a gente”, relata. “Mas, no nosso bairro, ninguém recebeu qualquer aviso oficial. Só soubemos através do Sazal Dai”, acrescenta, usando a expressão “Dai”, que significa “irmão mais velho”, para se referir ao amigo.

O homem que salvou o pai e voltou para procurar a mãe
O mesmo homem que percorreu o mercado a alertar os habitantes acabou por enfrentar uma situação dramática dentro da própria família. Depois de avisar a escola e procurar pessoas no mercado, Shrestha regressou a casa, onde se encontrava o pai, que não conseguia andar. Segundo o relato de Shakya, colocou-o numa motocicleta e conseguiu transportá-lo até uma zona de maior altitude, onde estaria protegido das águas. Mas, em vez de permanecer em segurança, decidiu regressar para procurar a mãe.

Quando voltou, a situação tinha-se agravado. A cheia já tinha atingido a habitação e a mãe de Shrestha tinha sido arrastada pela água. O diretor da escola confirmou que o contabilista conseguiu efetivamente levar o pai para um local seguro antes de regressar à procura da mãe, apenas para descobrir que a casa tinha sido destruída e que a mulher continuava desaparecida. Para Shakya, a atuação do amigo ficou marcada por esse contraste: “Salvou mães, alunos e moradores”, afirma, mas “não conseguiu salvar a própria mãe”, lamenta.

Sistema de alerta também foi atingido pela rapidez da cheia
A velocidade com que a catástrofe se desenvolveu afetou não apenas os habitantes, mas também o próprio sistema criado para acompanhar a evolução das águas. As estações hidrológicas situadas nas cabeceiras do rio deixaram de transmitir informação quando foram atingidas pela cheia. As últimas leituras disponíveis permaneciam, contudo, abaixo dos níveis previamente definidos para desencadear os alertas, o que dificultou a antecipação de uma inundação que avançou com enorme rapidez.

Uma semana depois da tragédia, o balanço apresentado pela Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres apontava para mais de mil mortos e cerca de cinco mil desaparecidos. Entre os sobreviventes, a dimensão das perdas materiais contrasta com a importância atribuída à sobrevivência. Shakya consegue enumerar aquilo que a água levou durante aqueles minutos, mas prefere recordar as pessoas que conseguiram correr quando a inundação chegou. “Todos sobrevivemos”, diz, repetindo a ideia que marcou o seu relato: “Temos sorte em estar vivos”.

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