Os últimos minutos antes de uma parede de água varrer a fronteira entre Nepal e China

Dados mostram que 89 cidadãos nepaleses e estrangeiros tinham passado pela imigração para deixar o Nepal em direção ao Tibete, enquanto outras quatro pessoas tinham registado a entrada no país

Francisco Laranjeira

Às 08h35, o sistema de imigração do posto fronteiriço de Rasuwagadhi registou a última operação daquela manhã. Menos de dez minutos depois, uma enorme torrente de água, lama, gelo, rochas e pedras desceu pelo vale e arrastou grande parte da zona fronteiriça entre o Nepal e o Tibete.

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Uma investigação da ‘BBC’, baseada em imagens de videovigilância, registos de imigração e imagens de satélite, procura agora reconstruir o que aconteceu nos minutos que antecederam a catástrofe de 26 de agosto.

Os dados mostram que 89 cidadãos nepaleses e estrangeiros tinham passado pela imigração para deixar o Nepal em direção ao Tibete, enquanto outras quatro pessoas tinham registado a entrada no país. Entre os que seguiam para a China estavam 32 indianos, 12 chineses, nove cidadãos dos EUA e viajantes britânicos, canadianos, australianos e italianos.

Não se sabe quantos conseguiram atravessar a fronteira antes da chegada da enxurrada.

Montanha cedeu minutos antes

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Às 08h37, menos de dois minutos depois do último registo da imigração, instrumentos sísmicos detetaram movimento nas montanhas acima da fronteira. Investigadores concluíram posteriormente que o sinal terá sido provocado pelo colapso de parte de um glaciar, que desencadeou a inundação.

Segundo as autoridades chinesas, a torrente demorou apenas cerca de sete minutos a chegar à passagem fronteiriça. Imagens de videovigilância mostram uma parede escura a surgir por detrás dos edifícios antes de ganhar forma e velocidade e engolir a zona.

Tika Ram Pokharel, o único funcionário sénior da imigração de Rasuwagadhi que sobreviveu — estava em Catmandu a realizar um exame — contou à ‘BBC’ que entre 300 e 400 pessoas estariam à espera para seguir para o Tibete naquela manhã.

“Os meus 40 a 50 amigos estão desaparecidos”, afirmou.

Quatro funcionários da imigração desapareceram. O corpo do responsável pelo posto foi posteriormente encontrado a grande distância do local, enquanto a funcionária que realizou os últimos registos continuava desaparecida.

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“Estamos à espera para entrar na China”

Entre os desaparecidos estão também peregrinos que naquela manhã enviavam fotografias e vídeos às famílias enquanto aguardavam a abertura da imigração chinesa.

Às 07h57, Subhrasree Chakraborty enviou ao marido uma fotografia do carimbo de saída do Nepal no passaporte. Seis minutos depois escreveu: “Estamos à espera para entrar na China.”

Foi a última mensagem.

Chakraborty viajava num grupo com mais de 60 pessoas. Outro grupo de 77 peregrinos que regressava do Monte Kailash, acompanhado por três funcionários, também ficou desaparecido após a passagem da enxurrada.

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O verdadeiro número de pessoas atingidas naquela zona continua por determinar. Pokharel estima que entre 2.000 e 2.500 pessoas possam ter sido apanhadas pela inundação, mas a BBC salienta que este número é uma estimativa pessoal e não foi verificado de forma independente.

Pelo menos 275 cidadãos indianos permanecem desaparecidos no Nepal, segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Índia.

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