Por António Correia, Sales manager da WatchGuard em Portugal
A quantidade de dados enviados para aplicações de IA generativa aumentou mais de 30 vezes num único ano, segundo dados da Netskope. Este número, por si só, resume o desafio: a IA não está apenas a gerar mais ameaças, está também a gerar mais tráfego.
A discussão sobre IA e cibersegurança costuma centrar-se nos ataques potenciados por inteligência artificial ou na utilização de IA pelos próprios atacantes. São questões importantes, mas existe outro desafio mais estrutural, normalmente analisado apenas pelo impacto na produtividade e na inovação: quanto mais as empresas utilizam IA, maior é a quantidade de tráfego que as suas equipas de segurança têm de inspecionar.
As ferramentas de IA generativa passaram a ser utilizadas para criar conteúdos, desenvolver código, analisar informação e automatizar tarefas, enquanto muitas aplicações empresariais já incorporam capacidades de IA. A IA tornou-se parte integrante dos fluxos de trabalho e, com isso, está a alterar a quantidade e a natureza do tráfego nas redes empresariais, criando um desafio adicional de visibilidade para as equipas de segurança.
Mais tráfego, mais inspeções
Grande parte das comunicações atuais é encriptada, algo essencial para proteger dados e privacidade. Mas essa mesma encriptação dificulta a capacidade das organizações para perceber o que está, de facto, a acontecer na rede e a utilização crescente de IA agrava este problema. Colaboradores carregam documentos para plataformas de IA, introduzem informação empresarial através de prompts, ligam aplicações a serviços externos e recorrem cada vez mais a ferramentas baseadas na cloud. As organizações precisam de garantir visibilidade sobre este ecossistema sem comprometer a proteção dos dados.
A própria natureza do tráfego está também a mudar. Está comprovado que o tráfego associado à IA tem características diferentes das do tráfego web tradicional, incluindo ligações que permanecem ativas durante mais tempo e diferentes exigências sobre a infraestrutura de rede. Na prática, isto significa que uma firewall dimensionada para o padrão típico do tráfego web – sessões curtas, picos previsíveis – pode não aguentar bem sessões de IA mais longas e constantes, especialmente quando é preciso inspecionar cada uma delas em tempo real.
Por isso, já não basta perguntar quanto tráfego uma infraestrutura consegue suportar. É necessário perguntar quanto tráfego consegue inspecionar e proteger quando os serviços avançados de segurança estão ativos.
Quando a segurança se torna um estrangulamento
Esta diferença é crítica. Uma infraestrutura pode ter capacidade para transportar grandes volumes de dados, mas se a ativação dos mecanismos de segurança provocar demasiada latência, as equipas de TI enfrentam pressão para reduzir a inspeção ou desativar determinadas funcionalidades. Nesse momento, a segurança deixa de ser um facilitador e transforma-se num obstáculo ao negócio.
É por isso que, à medida que a IA ganha espaço nas organizações, os firewalls e restantes controlos de segurança precisam de evoluir não apenas em capacidade de processamento, mas também na capacidade de inspecionar tráfego encriptado, manter visibilidade sobre aplicações e utilizadores, e aplicar políticas de segurança sem comprometer o desempenho. Esta necessidade é particularmente evidente em grandes empresas, centros de dados, ambientes distribuídos e prestadores de serviços geridos, onde volumes elevados de tráfego têm de ser processados continuamente.
O critério que vai definir a segurança de rede
Preparar as empresas para a era da IA não passa apenas por escolher as ferramentas certas ou definir regras para a sua utilização. Passa também por garantir que a infraestrutura de segurança consegue acompanhar esta transformação sem obrigar as organizações a escolher entre desempenho e proteção.
A capacidade de ligar sistemas continuará a ser essencial. Mas, no novo contexto digital, a capacidade de ver, inspecionar e proteger o que circula nessas ligações será igualmente determinante – e pode tornar-se um dos principais critérios para avaliar a segurança das redes nos próximos anos.





