Portugal dispõe hoje de mais respostas sociais destinadas à população idosa do que há 14 anos, mas o crescimento da oferta continua aquém do aumento do número de pessoas com 65 ou mais anos. Em 2024, a taxa de cobertura dos lares, do apoio domiciliário e dos centros de dia situava-se nos 11,4% em Portugal Continental, mantendo uma trajetória descendente desde 2021. Os dados constam da edição mais recente da Carta Social, relativa a 2024 e divulgada em junho de 2026 pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.
Segundo o Jornal de Notícias (JN), que analisa os dados do relatório, entre 2010 e 2024 registou-se um aumento de 16,7% no número de respostas sociais dirigidas às pessoas idosas e de 21% na capacidade disponível. Em 2024 existiam 7433 respostas, abrangendo um total de 77 351 utentes, sendo o serviço de apoio domiciliário a resposta com maior peso relativo, com 37,3%. Ainda assim, a evolução da oferta não foi suficiente para acompanhar o envelhecimento da população. A análise da Carta Social, datada de 22 de junho de 2026, assinala que “o aumento acelerado da população com 65 ou mais anos tem condicionado o crescimento da taxa de cobertura destas respostas”.
Entre as várias respostas existentes, foram as estruturas residenciais para pessoas idosas, que incluem lares e residências seniores, que registaram o crescimento mais expressivo: mais 38,5% entre 2010 e 2024. Nesse último ano estavam contabilizados 2646 estabelecimentos, com cerca de 107 mil lugares e aproximadamente 99 mil utentes. Apesar deste aumento, a taxa global de cobertura recuou 0,1 pontos percentuais face a 2023, para os 11,4%, prolongando uma tendência de descida iniciada em 2021. Maria do Rosário Gama, presidente da APRe! – Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados, considera que o problema resulta de um envelhecimento populacional que avança mais depressa do que a criação de respostas, defendendo um reforço e uma diversificação dos apoios prestados no domicílio. “A maioria, se pudesse escolher, optaria por ficar em casa [ao invés de ir para um lar]”, afirma, acrescentando que o apoio domiciliário não pode limitar-se a entregar refeições: “Não é só deixar a comida à porta e dar dois dedos de conversa”. A responsável defende ainda que os serviços devem assegurar acompanhamento durante a noite, aos fins de semana e feriados.
Isabel Gomes, presidente da MURPI – Confederação Nacional de Reformados, Pensionistas e Idosos, considera, por seu lado, que as respostas estão a surgir a uma “velocidade lenta” e alerta para a existência de “retrocessos”, nomeadamente devido aos lares ilegais. Maria do Rosário Gama aponta como possível resposta estrutural a criação de um “serviço nacional de cuidados”, tutelado pelos ministérios da Saúde e do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, com particular aposta em estruturas residenciais públicas. Isabel Gomes defende igualmente a criação de um “serviço de apoio público” e o “aumento intercalar das reformas”, sublinhando que “todos os dias, há mais um reformado”. A taxa de cobertura é calculada tendo em conta a capacidade total dos lares, do apoio domiciliário e dos centros de dia face à população com 65 ou mais anos, abrangendo equipamentos das redes pública, solidária e privada-lucrativa. As diferenças regionais são significativas: a Península de Setúbal apresenta a taxa mais baixa, com 6,4%, seguida do Algarve, com 8%, e da Grande Lisboa, com 9%. Norte e Centro concentram as maiores parcelas da oferta, com 31,7% e 29,9%, respetivamente, enquanto, no apoio domiciliário da rede privada-lucrativa, a proporção ultrapassa os 20% nos distritos de Lisboa e Porto. Em 2024 existiam ainda apenas 13 centros de noite em todo o país, estruturas destinadas a idosos que precisam de acompanhamento durante a noite, mas permanecem nas suas casas durante o dia. Nos territórios de baixa densidade, mais de 93% das respostas sociais para idosos eram asseguradas por entidades não lucrativas. O contexto demográfico ajuda a explicar a pressão crescente sobre estes serviços: Portugal é o terceiro país mais envelhecido da União Europeia, com 182 idosos por cada 100 jovens, e conta com quase 2,7 milhões de pessoas com 65 ou mais anos.














