Portugal tem empresas a mais e empresas grandes a menos

O relatório que ninguém leu explica a razão por que ganhamos pouco. Em 2025 fomos dos países que mais empresas criaram. Somos campeões naquilo que não resolve nada.

João de Sousa ArosoJoão de Sousa ArosoFounding Partner da Caldrew CapitalVer todos os artigos
João de Sousa Aroso
João de Sousa ArosoFounding Partner da Caldrew CapitalAgosto 21, 2026 9:55

Quem trabalha numa empresa portuguesa com menos de cinco pessoas ganha em média 1.174 euros por mês. Numa empresa com mais de 500, a média é de 2.254 euros. Mesmo país, mesmas leis laborais, mesma carga fiscal, quase o dobro do salário. Os números são do INE, de junho deste ano.

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Nenhum governo, nenhum sindicato e nenhum patrão fecha essa distância por decreto. Ela não vem de quem manda, nem de quanto se desconta. Vem do tamanho da empresa. E Portugal decidiu, sem alguma vez ter discutido isso, ser um país de empresas pequenas.

Em junho, a Comissão Europeia publicou o Relatório Anual sobre as PME Europeias. Passou-nos completamente ao lado, e traz o raio-X mais desconfortável que li sobre a economia portuguesa nos últimos anos.

Começa assim: cada trabalhador de uma PME portuguesa gera 31.900 euros de valor por ano. Na Alemanha são 63.500. Só sete dos 27 países da União estão abaixo de nós.

E 31.900 euros não são salário. São o bolo inteiro. Dele se paga a máquina em que a pessoa trabalha, os juros do banco, os impostos e o que resta para quem arriscou o dinheiro. Imaginemos ainda assim que o capital não custa nada, que as máquinas não se gastam e que o dono não leva um cêntimo. Tudo para o trabalho. Mesmo nesse mundo, retirados os 23,75% de Segurança Social a cargo da empresa, sobram cerca de 1.840 euros de salário bruto por mês. Ainda antes dos 11% do trabalhador e do IRS.

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1.840 euros. Esse é o teto. Não é a meta, é o teto, e num cenário de fantasia.

Hoje a remuneração regular média em Portugal anda nos 1.436 euros, e já leva lá dentro as grandes empresas e a Função Pública a puxarem para cima. Entre o que se paga e o limite físico do sistema vão pouco mais de 400 euros, e não são 400 euros esquecidos no bolso de alguém. São a máquina, a dívida e o imposto. Não há folga escondida à espera de ser encontrada.

É por isso que a nossa discussão sobre salários me parece pequena. Andamos há 20 anos a discutir como cortar a fatia e quase nunca por que razão o bolo é deste tamanho ridículo. Aliviar impostos sobre o trabalho é uma discussão legítima e eu não sou contra ela. Só que redistribui. Não cria.

O que cria é a escala. E aqui o relatório é quase cómico: Portugal tem 147 PME por cada mil habitantes, a maior densidade de toda a UE. A média europeia é cerca de metade: 75. A Alemanha, o país que citamos sempre que falamos de indústria a sério, tem a mais baixa de todas: 38. E continuamos a bater recordes: em 2025 fomos dos países que mais empresas e mais empregos criaram. Somos campeões europeus naquilo que não resolve nada.

Entretanto a Europa entra-nos porta dentro com muito mais facilidade do que nós saímos. Exportar exige o que uma empresa de 15 pessoas não tem como pagar: alguém que fale a língua do cliente, certificações, dinheiro em caixa para aguentar uma encomenda grande sem ir ao banco de joelhos.

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Em maio do ano passado, Bruxelas criou uma categoria de empresa nova, a meio caminho entre a PME e a multinacional: as small mid-caps, até 750 trabalhadores. Criou-a porque percebeu que uma empresa que passa os 250 trabalhadores perde o estatuto de PME e apanha, de um dia para o outro, a regulação desenhada para gigantes. A Europa construiu um degrau que castiga quem cresce e acabou de o admitir por escrito. Melhor ainda: o relatório reconhece que nem sequer há dados para contar estas empresas. Só nove países os têm, Portugal entre eles. Legislou-se sobre uma camada que ninguém consegue contar, e cá, precisamente onde essa camada mais falta, o assunto não deu uma linha de jornal.

Nada disto é copiar a Alemanha, que aliás está a passar um mau bocado. O Mittelstand não é um modelo por ter empresas médias. É modelo porque tem empresas obcecadas por um nicho e agarradas às cadeias de valor de clientes grandes, e o tamanho é o que paga essa obsessão: o diretor de exportação, o laboratório de qualidade, dívida a taxas civilizadas. Nada disso cabe no orçamento de uma empresa de 15 pessoas, por melhor que seja gerida. E há excelentes empresas de 15 pessoas em Portugal. É esse o verdadeiro desperdício.

Esta camada não aparece sozinha. Uma empresa de 15 pessoas a crescer 6% ao ano não chega às 300 em tempo útil, e a geração que construiu o nosso tecido industrial nos anos 80 e 90 está a chegar à reforma sem ninguém para lhe suceder. Também não aparece por decreto. Esta camada só aparece quando juntamos várias empresas boas e pequenas, até terem músculo para competir lá fora.

Enquanto isso não acontecer, podemos continuar a discutir o salário mínimo e a carga fiscal, que são problemas verdadeiros. Só que estamos a discutir a modesta ambição de repartir um tecto de 1.840 euros.

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