Quem trabalha numa empresa portuguesa com menos de cinco pessoas ganha em média 1.174 euros por mês. Numa empresa com mais de 500, a média é de 2.254 euros. Mesmo país, mesmas leis laborais, mesma carga fiscal, quase o dobro do salário. Os números são do INE, de junho deste ano.
Nenhum governo, nenhum sindicato e nenhum patrão fecha essa distância por decreto. Ela não vem de quem manda, nem de quanto se desconta. Vem do tamanho da empresa. E Portugal decidiu, sem alguma vez ter discutido isso, ser um país de empresas pequenas.
Em junho, a Comissão Europeia publicou o Relatório Anual sobre as PME Europeias. Passou-nos completamente ao lado, e traz o raio-X mais desconfortável que li sobre a economia portuguesa nos últimos anos.
Começa assim: cada trabalhador de uma PME portuguesa gera 31.900 euros de valor por ano. Na Alemanha são 63.500. Só sete dos 27 países da União estão abaixo de nós.
E 31.900 euros não são salário. São o bolo inteiro. Dele se paga a máquina em que a pessoa trabalha, os juros do banco, os impostos e o que resta para quem arriscou o dinheiro. Imaginemos ainda assim que o capital não custa nada, que as máquinas não se gastam e que o dono não leva um cêntimo. Tudo para o trabalho. Mesmo nesse mundo, retirados os 23,75% de Segurança Social a cargo da empresa, sobram cerca de 1.840 euros de salário bruto por mês. Ainda antes dos 11% do trabalhador e do IRS.
1.840 euros. Esse é o teto. Não é a meta, é o teto, e num cenário de fantasia.
Hoje a remuneração regular média em Portugal anda nos 1.436 euros, e já leva lá dentro as grandes empresas e a Função Pública a puxarem para cima. Entre o que se paga e o limite físico do sistema vão pouco mais de 400 euros, e não são 400 euros esquecidos no bolso de alguém. São a máquina, a dívida e o imposto. Não há folga escondida à espera de ser encontrada.
É por isso que a nossa discussão sobre salários me parece pequena. Andamos há 20 anos a discutir como cortar a fatia e quase nunca por que razão o bolo é deste tamanho ridículo. Aliviar impostos sobre o trabalho é uma discussão legítima e eu não sou contra ela. Só que redistribui. Não cria.
O que cria é a escala. E aqui o relatório é quase cómico: Portugal tem 147 PME por cada mil habitantes, a maior densidade de toda a UE. A média europeia é cerca de metade: 75. A Alemanha, o país que citamos sempre que falamos de indústria a sério, tem a mais baixa de todas: 38. E continuamos a bater recordes: em 2025 fomos dos países que mais empresas e mais empregos criaram. Somos campeões europeus naquilo que não resolve nada.
Entretanto a Europa entra-nos porta dentro com muito mais facilidade do que nós saímos. Exportar exige o que uma empresa de 15 pessoas não tem como pagar: alguém que fale a língua do cliente, certificações, dinheiro em caixa para aguentar uma encomenda grande sem ir ao banco de joelhos.
Em maio do ano passado, Bruxelas criou uma categoria de empresa nova, a meio caminho entre a PME e a multinacional: as small mid-caps, até 750 trabalhadores. Criou-a porque percebeu que uma empresa que passa os 250 trabalhadores perde o estatuto de PME e apanha, de um dia para o outro, a regulação desenhada para gigantes. A Europa construiu um degrau que castiga quem cresce e acabou de o admitir por escrito. Melhor ainda: o relatório reconhece que nem sequer há dados para contar estas empresas. Só nove países os têm, Portugal entre eles. Legislou-se sobre uma camada que ninguém consegue contar, e cá, precisamente onde essa camada mais falta, o assunto não deu uma linha de jornal.
Nada disto é copiar a Alemanha, que aliás está a passar um mau bocado. O Mittelstand não é um modelo por ter empresas médias. É modelo porque tem empresas obcecadas por um nicho e agarradas às cadeias de valor de clientes grandes, e o tamanho é o que paga essa obsessão: o diretor de exportação, o laboratório de qualidade, dívida a taxas civilizadas. Nada disso cabe no orçamento de uma empresa de 15 pessoas, por melhor que seja gerida. E há excelentes empresas de 15 pessoas em Portugal. É esse o verdadeiro desperdício.
Esta camada não aparece sozinha. Uma empresa de 15 pessoas a crescer 6% ao ano não chega às 300 em tempo útil, e a geração que construiu o nosso tecido industrial nos anos 80 e 90 está a chegar à reforma sem ninguém para lhe suceder. Também não aparece por decreto. Esta camada só aparece quando juntamos várias empresas boas e pequenas, até terem músculo para competir lá fora.
Enquanto isso não acontecer, podemos continuar a discutir o salário mínimo e a carga fiscal, que são problemas verdadeiros. Só que estamos a discutir a modesta ambição de repartir um tecto de 1.840 euros.





