“Invasor perfeito” espalha-se pelo mundo, destrói árvores e pode custar milhares de milhões às economias

O polyphagous shot-hole borer, originário do sudeste asiático, já foi detetado em todos os continentes exceto na Antártida.

Executive Digest

Um pequeno escaravelho com aproximadamente o tamanho de uma semente de sésamo está a provocar danos crescentes em árvores de vários continentes e já é considerado por investigadores uma das espécies invasoras mais difíceis de controlar.

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O polyphagous shot-hole borer, originário do sudeste asiático, já foi detetado em todos os continentes exceto na Antártida. Segundo a CNN, o inseto terá viajado através de produtos de madeira, plantas vivas e materiais de embalagem e já atacou cerca de 680 espécies de árvores e plantas lenhosas.

A África do Sul é um dos países mais afetados. Em Stellenbosch, conhecida há quase 350 anos como a “Cidade dos Carvalhos”, milhares de árvores desapareceram e muitas das que permanecem de pé apresentam pequenos orifícios na casca, sinal da presença do inseto.

Inseto transporta fungo que pode matar as árvores

O problema não resulta apenas da ação direta do escaravelho. Ao perfurar a madeira para criar galerias onde se reproduz, o inseto transporta também esporos de um fungo que se desenvolvem no interior das árvores.

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Essa relação beneficia o escaravelho, uma vez que o fungo serve de alimento e proteção para os adultos e larvas, mas pode ser fatal para a árvore.

O fungo bloqueia os tecidos vasculares, impedindo a circulação normal de água e nutrientes e dificultando os mecanismos de defesa da própria planta. A doença resultante, conhecida como fusarium dieback, provoca sintomas semelhantes aos de uma seca severa e pode acabar por matar a árvore.

O tempo de sobrevivência varia consoante a espécie. Os carvalhos podem resistir durante cerca de quatro anos após a infestação, enquanto algumas árvores da espécie box elder podem morrer no espaço de apenas 12 meses.

Uma única fêmea pode iniciar uma nova colónia

A capacidade reprodutiva é uma das razões pelas quais o inseto é considerado um “invasor perfeito”.

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Uma fêmea virgem consegue produzir ovos não fertilizados que dão origem a machos. Posteriormente, pode reproduzir-se com esses machos e iniciar uma nova colónia, num sistema conhecido como haplodiploidia.

Embora os machos não voem e as fêmeas apenas consigam percorrer pequenas distâncias pelo ar, a combinação entre reprodução rápida, dimensão reduzida e capacidade de permanecer escondido na madeira tem permitido uma expansão muito rápida.

Na África do Sul, a estratégia disponível passa sobretudo por remover e destruir as árvores infetadas antes de os insetos conseguirem chegar a novos hospedeiros.

Impacto económico pode atingir dezenas de milhares de milhões

Um estudo de 2022 realizado por investigadores das universidades de Stellenbosch e Pretória estimou que o escaravelho poderia provocar um impacto económico potencial de 275 mil milhões de rands ao longo de uma década, aproximadamente 18,5 mil milhões de dólares à taxa de câmbio utilizada na altura.

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A estimativa corresponde a cerca de 0,66% do PIB sul-africano. Entre os maiores custos encontra-se precisamente a remoção das árvores afetadas.

Dos cerca de 225 milhões de árvores urbanas existentes na África do Sul, pelo menos 65 milhões poderão vir a ter de ser removidas, segundo as projeções citadas pela CNN. Além do prejuízo financeiro, a perda das árvores pode agravar o calor nas cidades e destruir habitats importantes para aves, insetos e outras espécies.

Erradicação torna-se quase impossível depois da instalação

Alemanha e Países Baixos conseguiram eliminar focos do inseto depois de respostas rápidas a ocorrências limitadas em estufas e jardins botânicos.

Quando a espécie se estabelece em território aberto, contudo, as hipóteses de erradicação diminuem drasticamente. Na região de Perth, na Austrália, as autoridades passaram quatro anos a remover e triturar sistematicamente árvores infestadas depois da descoberta do inseto em 2021, mas não conseguiram impedir a sua expansão.

Os investigadores continuam a procurar soluções. Os tratamentos químicos testados até agora não apresentaram resultados satisfatórios, em parte porque o bloqueio dos tecidos das árvores impede que os produtos cheguem ao inseto.

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Entre as alternativas estudadas estão vespas parasitas, ácaros capazes de viajar sobre os escaravelhos e alimentar-se do fungo e nemátodes microscópicos que conseguem matar determinados hospedeiros. Mas os cientistas alertam para os riscos de introduzir novos organismos no ambiente para combater uma espécie invasora.

Escaravelho já chegou a Espanha

O problema está longe de ficar limitado à África do Sul. De acordo com a CNN, o inseto estabeleceu-se em Espanha, Uruguai e Turquia desde 2022, demonstrando capacidade para sobreviver tanto em regiões subtropicais como em zonas de clima temperado.

A espécie também já está instalada na Califórnia e poderá expandir-se para o sudeste dos Estados Unidos, leste do México, partes da América Central, outras regiões africanas e a bacia do Mediterrâneo.

Os investigadores alertam ainda que o aquecimento global poderá criar novas condições favoráveis à expansão da espécie.

As espécies invasoras, no seu conjunto, já custam mais de 423 mil milhões de dólares por ano à economia mundial, e os cientistas receiam que este pequeno escaravelho continue a aumentar a sua parcela desse prejuízo.

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