As eleições estão marcadas para setembro, mas a participação e até a percentagem de votos no partido de Vladimir Putin já terão sido definidas antecipadamente. A acusação parte da Ucrânia, que afirma que o Kremlin está a preparar a manipulação da votação para a Duma Estatal nos territórios ucranianos ocupados pela Rússia.
Segundo noticia o ‘Kyiv Post’, Andriy Kovalenko, responsável pelo Centro de Combate à Desinformação da Ucrânia, afirma que Moscovo terá dado instruções às autoridades instaladas nos territórios ocupados para apresentarem uma participação eleitoral superior a 65% ou 70%.
E há uma segunda meta: pelo menos 70% dos votos deverão ser atribuídos ao Rússia Unida, o partido que sustenta politicamente Vladimir Putin.
“O Governo de Putin estabeleceu a meta de garantir uma participação eleitoral superior a 65% a 70% nos territórios temporariamente ocupados”, afirmou Kovalenko.
De acordo com o responsável ucraniano, as percentagens terão sido estabelecidas antes mesmo de os eleitores serem chamados às urnas.
Pelo menos 70% para o Rússia Unida
A Rússia prevê realizar as eleições para a Duma Estatal, a câmara baixa do Parlamento, entre 18 e 20 de setembro.
Moscovo pretende incluir na votação partes das regiões ucranianas de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson atualmente sob ocupação russa e que o Kremlin declarou unilateralmente anexadas.
A Rússia não controla integralmente nenhuma das quatro regiões.
A Ucrânia rejeita a soberania russa sobre estes territórios e considera ilegais quaisquer eleições organizadas pelas autoridades de Moscovo nas zonas ocupadas.
É neste contexto que surge a acusação de Kovalenko.
Segundo o responsável, além da meta de participação, as instruções transmitidas às autoridades locais estabelecem que o Rússia Unida deverá obter pelo menos 70% dos votos.
As alegações apresentadas por Kiev não foram confirmadas de forma independente pelo ‘Kyiv Post’.
Kiev acusa Moscovo de procurar legitimar a ocupação
Na interpretação do responsável ucraniano, a votação terá como objetivo criar uma aparência de apoio popular à presença russa e às anexações reivindicadas por Moscovo.
“As eleições nos territórios temporariamente ocupados são completamente ilegais, mas a Rússia quer usá-las para legitimar a ocupação”, afirmou Kovalenko.
A realização de eleições russas nestas regiões tem sido repetidamente rejeitada pela Ucrânia, que continua a considerá-las parte integrante do seu território.
Moscovo, pelo contrário, considera Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson parte da Federação Russa desde as anexações anunciadas em 2022, apesar de não controlar militarmente a totalidade de qualquer uma delas.
Único partido registado contra a guerra foi afastado
A denúncia surge também num momento de alterações importantes na lista de partidos que poderão disputar as eleições de setembro.
O Supremo Tribunal da Rússia proibiu esta segunda-feira o partido liberal Yabloko de participar nas eleições para a Duma, anulando o seu registo poucos dias depois de este ter sido aprovado pela Comissão Eleitoral Central, refere o ‘Kyiv Post’.
O processo foi apresentado pelo Rodina, partido nacionalista alinhado com o Kremlin, que acusou o Yabloko de irregularidades eleitorais, incluindo a alegada receção de apoio proibido.
O Yabloko rejeita as acusações e anunciou que pretende recorrer da decisão.
Nikolai Rybakov, presidente do partido, sustenta que não existem fundamentos legais para impedir a candidatura.
Era o único partido registado que fazia campanha contra a guerra
A exclusão ganha particular importância devido à posição do Yabloko sobre a invasão da Ucrânia.
Segundo o ‘Kyiv Post’, era o único partido político oficialmente registado na Rússia que fazia campanha contra a guerra.
O partido defendia um cessar-fogo e a passagem para negociações sobre a Ucrânia.
Os restantes partidos autorizados a participar nas eleições apoiam, segundo Kovalenko, a continuação das operações militares russas.
O responsável ucraniano considera que retirar o Yabloko das eleições permite também impedir que o eventual sentimento contra a guerra seja quantificado nas urnas.
“Isto é mais uma prova de que o regime de Putin não vê um futuro sem guerra e tem medo de demonstrar apoio ao sentimento anti-guerra”, afirmou.
Kiev diz que oposição à guerra está a crescer
Kovalenko sustenta ainda que a oposição à continuação do conflito estará a aumentar em várias regiões da Rússia e também em Moscovo, sobretudo perante informações sobre a possibilidade de uma nova mobilização.
Trata-se, novamente, de uma avaliação feita por um responsável ucraniano e não de dados eleitorais independentes apresentados pela publicação.
O próprio Kovalenko reconhece que esse eventual descontentamento não se traduz atualmente numa capacidade para organizar grandes protestos nas ruas.
O responsável comparou a situação aos últimos anos da União Soviética, quando dificuldades económicas e críticas privadas ao poder se acumulavam sem produzirem imediatamente grandes movimentos públicos organizados.
As eleições russas decorrem entre 18 e 20 de setembro. Mas, segundo a acusação feita por Kiev, nos territórios ocupados da Ucrânia há dois números que Moscovo já quererá ver quando as urnas fecharem: uma participação de pelo menos 65% a 70% e um mínimo de 70% dos votos para o Rússia Unida.


















