A tensão voltou a disparar na Península Arábica e no Mar Vermelho. Os rebeldes Houthi intensificaram os ataques contra forças do Governo do Iémen, atingiram território da Arábia Saudita e mantêm a pressão sobre petroleiros sauditas numa das rotas marítimas mais importantes do mundo. Riade, por seu lado, prepara-se para a possibilidade de ataques coordenados vindos de duas direções e está a construir novas alianças militares.
Pelo menos 30 soldados do exército iemenita morreram num ataque lançado na quinta-feira contra acampamentos militares nas províncias de Marib e Hadramout, controladas pelo Governo internacionalmente reconhecido do Iémen, segundo relata o ‘El País’. Marib assume particular importância por ser a principal região produtora de petróleo e gás do país.
Os Houthis reivindicaram posteriormente ataques contra aquilo que classificaram como “desdobramentos militares sauditas”. Uma segunda ofensiva atingiu a província saudita de Najran, junto à fronteira com o Iémen, deixando 11 civis feridos. Horas depois, um novo ataque em Marib matou pelo menos outros três militares iemenitas e feriu quatro.
Riade teme ataques vindos de norte e de sul
O problema para a Arábia Saudita é que a ameaça poderá não estar limitada à sua fronteira com o Iémen. Segundo a ‘Reuters’, Riade acredita que poderão estar iminentes ataques coordenados de milícias apoiadas pelo Irão: grupos armados iraquianos a partir do norte e os Houthis a partir do sul.
Um alto responsável saudita, citado sob anonimato, afirmou que informações dos serviços de inteligência da Arábia Saudita, dos Estados Unidos e de outros países da região apontam para possíveis ataques contra alvos civis e económicos.
Infraestruturas energéticas, portos e aeroportos estão entre os potenciais objetivos. Riade terá ainda detetado movimentações de drones e mísseis que, segundo a mesma fonte, poderão indicar a preparação de operações coordenadas.
A escalada acontece pouco mais de uma semana depois de a Arábia Saudita e os Estados Unidos terem atacado, a 29 de julho, grupos armados apoiados pelo Irão no Iraque, responsabilizados por um ataque com drones contra instalações petrolíferas sauditas.
Arábia Saudita procura aliados
Perante o agravamento da ameaça, Riade está a reforçar a sua arquitetura de segurança. Arábia Saudita, Turquia e Paquistão assinaram esta sexta-feira o chamado “Acordo Conjunto de Defesa de Meca”.
O pacto pretende reforçar a “dissuasão coletiva” e estabelece um princípio particularmente relevante: um ataque armado contra qualquer um dos três países deverá ser considerado um ataque contra todos.
A aproximação junta três importantes países de maioria sunita e aprofunda a cooperação militar entre Riade, Ancara e Islamabad, num momento de crescente tensão com forças apoiadas por Teerão em diferentes pontos do Médio Oriente.
Uma nova coligação para proteger o Mar Vermelho
A Arábia Saudita pretende ainda criar uma coligação internacional destinada a proteger as rotas marítimas e o abastecimento energético no Mar Vermelho.
Segundo o Ministério da Defesa saudita, 14 países apoiaram uma declaração conjunta sobre a iniciativa, entre eles Turquia, Paquistão, Egito, Sudão e Djibuti. Omã e Emirados Árabes Unidos não surgem entre os Estados do Golfo que subscreveram o documento.
A razão para a preocupação está também no mar. Desde 20 de julho, os Houthis afirmam ter imposto um bloqueio no Mar Vermelho, aumentando a pressão sobre as exportações petrolíferas sauditas e sobre a navegação através do estreito de Bab el-Mandeb.
Na quarta-feira, pelo menos dois petroleiros sauditas foram atacados, sem vítimas registadas. Os Houthis reivindicaram as duas operações.
Oito petroleiros atacados e 29 obrigados a recuar, dizem os Houthis
Yahya Sarea, porta-voz militar Houthi, afirma que o grupo atacou oito petroleiros sauditas desde que anunciou o bloqueio e que outros 29 navios foram obrigados a inverter a marcha no Mar Vermelho e no Mar Arábico.
Os números são reivindicações da própria milícia e não têm confirmação independente apresentada pelo ‘El País’, mas ajudam a perceber a estratégia: aumentar simultaneamente a pressão militar e económica sobre a Arábia Saudita.
O estreito de Bab el-Mandeb é particularmente sensível. Liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e constitui uma das principais portas marítimas entre a Europa e a Ásia, tornando qualquer perturbação prolongada relevante para o transporte internacional de mercadorias e energia.
Uma guerra que nunca terminou verdadeiramente
Os Houthis combatem o Governo internacionalmente reconhecido do Iémen há quase duas décadas. O país permanece dividido entre centros de poder rivais: a milícia controla Sana’a e grande parte do noroeste, enquanto o Governo reconhecido internacionalmente domina sobretudo áreas do sul e do leste.
Segundo os dados citados pelo ‘El País’, os Houthis controlam atualmente cerca de 30% do território do Iémen, mas nessas áreas vivem aproximadamente 75% dos habitantes do país.
Um cessar-fogo alcançado em abril de 2022 entre os Houthis e a Arábia Saudita conseguiu travar grande parte dos combates nas frentes internas e ao longo dos cerca de 1.200 quilómetros de fronteira entre os dois países. A atual escalada ameaça voltar a alterar esse equilíbrio.
O risco já ultrapassa as fronteiras do Iémen
É precisamente essa combinação que está a preocupar Riade: ataques no interior do Iémen, ofensivas contra território saudita, ameaça às infraestruturas energéticas e uma campanha contra a navegação no Mar Vermelho.
Ao mesmo tempo, a possibilidade apontada pelos serviços de inteligência sauditas de uma ação coordenada entre os Houthis e milícias iraquianas apoiadas pelo Irão acrescenta uma dimensão regional ao conflito.
A Arábia Saudita responde agora através de duas vias: reforça alianças militares em terra e tenta construir uma coligação internacional no mar. Depois de anos de relativa contenção na fronteira entre o Iémen e a Arábia Saudita, a questão passa a ser até onde irá esta nova escalada — e se o Mar Vermelho voltará a tornar-se uma das frentes mais perigosas do Médio Oriente.

















