A guerra entre os Estados Unidos e o Irão entrou numa nova e potencialmente mais perigosa fase, marcada pelo alargamento dos alvos militares a infraestruturas civis consideradas críticas. Nos mais recentes desenvolvimentos do conflito no Golfo, pontes, estações ferroviárias, centrais elétricas, dessalinizadoras, centros de dados e até rotas estratégicas para o comércio mundial passaram a integrar a lista de objetivos militares, numa estratégia que pretende aumentar a pressão sobre o adversário e elevar o custo económico e social da guerra.
Esta mudança representa uma alteração significativa na condução do conflito. Depois de meses em que os ataques se concentraram sobretudo em instalações militares, infraestruturas energéticas e objetivos ligados ao programa nuclear iraniano, os principais intervenientes parecem agora dispostos a atingir ativos civis considerados fundamentais para o funcionamento dos países envolvidos.
Na passada quinta-feira à noite, meios de comunicação iranianos denunciaram novos bombardeamentos contra o aeroporto de Iranshahr, no sudeste do país, bem como contra uma estação ferroviária e seis pontes localizadas na cidade costeira de Bandar Khamir, na província de Hormozgan. Segundo essas informações, os ataques provocaram pelo menos sete mortos.
Washington rejeitou as acusações de ter visado infraestruturas civis. Ainda assim, uma verificação independente realizada pela BBC Verify confirmou, pelo menos, o ataque contra uma das pontes daquela província, contrariando parcialmente a versão norte-americana.
Não se trata de um episódio isolado. No início deste mês, imagens divulgadas pela Reuters mostraram os danos provocados por um ataque norte-americano a uma ponte da linha ferroviária de Aq Taqeh Khan, uma infraestrutura que liga, no norte do país, o corredor económico entre o Irão e a China.
Também o porto de Bandar Abbas, o maior porto iraniano e um dos principais pontos estratégicos do estreito de Ormuz, tem sido repetidamente bombardeado desde o início da guerra. Embora desempenhe um papel fundamental no comércio marítimo iraniano, alberga igualmente a principal base naval da Guarda Revolucionária, tornando-se um objetivo militar de elevado valor estratégico.
Irão responde com ataques a infraestruturas de água e energia
A resposta iraniana seguiu uma lógica semelhante. Pela primeira vez desde o início do conflito, Teerão decidiu atacar diretamente uma central de dessalinização e uma central elétrica no Kuwait, provocando um incêndio e colocando em risco o abastecimento de água do país, segundo reconheceram as autoridades kuwaitianas.
O ataque expôs uma das maiores vulnerabilidades dos países do Golfo: a enorme dependência das unidades de dessalinização para garantir água potável à população.
Segundo dados citados pela Reuters, cerca de 90% do abastecimento de água do Kuwait depende destas instalações. Em Omã, essa dependência ascende a 86%, enquanto nos Emirados Árabes Unidos ronda os 80%. Já o Qatar e o Barém dependem totalmente da água produzida através da dessalinização.
Até agora, esta vulnerabilidade era amplamente conhecida pelos estrategas militares da região, mas o Irão nunca tinha optado por transformá-la num alvo direto.
Centro de dados da Amazon entra na guerra
A escalada atingiu também as infraestruturas tecnológicas.
A Guarda Revolucionária iraniana afirmou, através da agência Tasnim, ter destruído “completamente” o principal centro de dados da Amazon no Barém através de um ataque com mísseis de cruzeiro.
Até ao momento, a alegação não foi confirmada nem pela Amazon, nem pelas autoridades do Barém ou pelos Estados Unidos.
Ainda assim, o grupo tecnológico já tinha sofrido anteriormente perturbações nas suas operações na região devido a ataques registados tanto no Barém como nos Emirados Árabes Unidos.
Teerão justificou este alegado ataque como resposta ao bombardeamento norte-americano das instalações civis e da central nuclear em construção de Darkhovin, situada na província iraniana de Juzestão, ocorrido no passado domingo.
Jordânia e estreito de Ormuz continuam sob pressão
Noutra frente da guerra, a Guarda Revolucionária reivindicou igualmente um ataque com mísseis contra uma base militar norte-americana localizada na Jordânia, garantindo ter atingido um sistema de radares e um caça F-15.
As autoridades jordanas confirmaram apenas a interceção de uma vaga de drones e mísseis iranianos, não tendo reportado vítimas nem danos significativos.
Ao mesmo tempo, continuam os incidentes marítimos no estreito de Ormuz.
Pelo menos um petroleiro foi atingido por um projétil cuja origem ainda não foi identificada. Já a Guarda Revolucionária afirmou ter atingido duas embarcações que, segundo a sua versão, tentavam atravessar o bloqueio imposto pelo Irão sem autorização, provocando incêndios em ambos os navios.
Houthis ameaçam bloquear outra rota vital do comércio mundial
A tensão está também a alastrar ao Mar Vermelho.
No estreito de Bab al-Mandeb, dois navios que transportavam petróleo saudita inverteram a rota depois de os rebeldes houthis, aliados do Irão no Iémen, ameaçarem atacar embarcações sob bandeira saudita.
Os houthis têm vindo a avisar que pretendem replicar no Bab al-Mandeb a estratégia de bloqueio adotada pelo Irão no estreito de Ormuz.
Na segunda-feira anunciaram oficialmente o início desse bloqueio, levando já, no dia seguinte, ao recuo das primeiras embarcações.
Esta nova frente preocupa particularmente os mercados internacionais, já que cerca de 12% do comércio marítimo mundial atravessa aquele estreito.
A Arábia Saudita apoia militarmente, desde 2015, a intervenção contra os houthis no Iémen, conflito que poderá agora intensificar-se em simultâneo com a guerra envolvendo o Irão.
Trump antecipa novo alvo militar
Enquanto o conflito se expande, Donald Trump revelou também parte dos próximos planos militares norte-americanos.
O Presidente dos Estados Unidos afirmou que as forças norte-americanas deverão atacar “muito em breve” a denominada Montanha do Pico, situada nas proximidades das instalações de enriquecimento de urânio de Natanz.
A montanha alberga um complexo fortificado de túneis que, segundo suspeitas dos serviços de informações israelitas, poderá esconder milhares de centrifugadoras destinadas ao programa nuclear iraniano.
Segundo informações avançadas pelo Wall Street Journal e pela CNN, Israel acredita que essas centrifugadoras foram deslocadas para aquele complexo subterrâneo no outono passado para as proteger de futuros bombardeamentos.
Questionado sobre essas informações durante uma conferência de imprensa realizada após reunir na Casa Branca com o Presidente do Líbano, Joseph Aoun, Trump afirmou desconhecer esses dados e desvalorizou a possibilidade.
“Se acreditasse que eles podiam fazer alguma coisa quanto a isso, nunca diria isto, mas vamos intervir naquela zona muito em breve e fá-lo-emos com muita força”, declarou o Presidente norte-americano.
Trump acrescentou ainda que, na sua avaliação, Teerão já não dispõe do material necessário para enriquecer urânio, relativizando assim a eventual importância estratégica das alegadas centrifugadoras escondidas naquele complexo.
Guerra entra numa fase de maior risco
A crescente utilização de infraestruturas civis como alvos militares demonstra que o conflito atravessa uma nova etapa, na qual o impacto económico, tecnológico e social ganha um peso crescente nas estratégias dos dois lados.
Ao atingir sistemas de abastecimento de água, energia, transportes, centros tecnológicos e corredores marítimos essenciais ao comércio internacional, tanto Washington como Teerão elevam significativamente o risco de uma escalada regional, aumentando igualmente as consequências para países vizinhos e para a estabilidade dos mercados globais.














